Para se chegar a essa perfeição, longo e silencioso foi o trabalho das gerações, consciente de parte dos eruditos, instintivo de parte do povo. Se o primeiro implica obra de 'équipe', comparável à polifonia resultante de um concerto de vozes musicais, o outro lembra o seixo dos rios, resultante de uma acção lenta e invisível, íamos dizer surdamente molecular, no estuário e nas arribas, percutido por outros seixos, baldeado pelas ondas, enlodado, lavado e limado na torrente em suas arestas e asperezas, até se tornar numa coisa bem diversa do que primitivamente era. A língua, por isso mesmo que é a máscara fisionómica da nossa compreensão e o metal líquido em que vazamos os nossos pensares e emoções, devia merecer-nos o maior carinho no seu uso e a maior cautela em preservar a sua pureza.
Pela sua vibração mansa, mas contínua e toda de profundidade, lembra em género de organismo vivo um polipeiro. Esta vibração tanto é susceptível à onda breve como à vaga do fundo. Não é que acaba por conformar-se às feições e gesto do povo de que é instrumento, antes de mais nada, de comunicação? O povo romano desapareceu da história e quedou o latim como seu retrato para a eternidade. Não se encontra o peremptório, espírito de decisão, força de querer, teimosa e indomável, que lhe eram carácter, na bela língua que, antes de cantar a Virgem Maria na decadência, começou por celebrar Vénus na sua primavera?
Quem penetrar a essência dos 'Cancioneiros', dos sermonários, dos líricos possuídos de suas amadas, dos épicos do mar salgado, e dos líricos de água doce dos nossos dias, estará habilitado a exprimir a fisionomia do povo português, pequeno na geografia e às vezes grande na alma, nem sempre conformado, particularmente amavioso, pinga-amor, bastante cheio de si, testarudo, e vivendo não pouco do ar e da esperança.
Por todas estas razões, enunciadas tão breve e grosseiramente, cumpre-nos estimar e defender de todas as injúrias e danos o inapreciável património que é a língua. Não se lhe compara em importância a melhor província ultramarina. Por isso se compreende o desvelado carinho com que Júlio Dantas, seu cultor exímio, tem tratado o acordo ortográfico com o Brasil. A unidade ortográfica incarna a higiene total do idioma? Não, mas uma ortografia homogénea e sã faz parte da sua defesa e pode ter-se como uma das malhas da túnica pretexta com que poderá arrostar as vicissitudes dos tempos.
O Brasil recebeu de Portugal, 'grato Deo', um admirável instrumento de compreensão e musicalidade. Tocado por Olavo Bilac ou Euclides da Cunha, pode conceber-se mais afinado clavicórdio?
Como introdução ao estudo que venha a fazer-se à obra, e quem diz obra diz à personalidade do meu antecessor, pouco trago e pouco poderei acrescentar com escrupulosa e liberta consciência. Passei os olhos pela espécie de trilogia italiana que são três dos seus livros: "O Amor na Renascença"; "Os Deuses voltaram"; "Jardim da Saudade". Sente-se o autor impregnado de beleza, amor, voluptuosidade, especiosa desenvoltura, até a saturação, das grandes personagens do tempo dos Médicis e dos gonfaloneiros ciumentos. Houve ali a mão gentil dum cicerone que me apraz mencionar: a Senhora D. Maria de Portugal. A obra romanesca de Joaquim Leitão não queda nessa reviviscência das belas coisas do Ocidente. Da novelística, vai pela bibliografia, desde o "Varre Canelhas" às "Sete Colinas", fecundo e variado. Em conjunto, ao que a sua produção foi de vasta, não a apercebe o lance de olhos. Diria mesmo, o espéculo demorado. Por isso, eu me abstive, quanto a ele, de acalentar a ambição de ser Minos, ao que me horrorizava a ideia de que poderia deixar de ser Aristarco. Os homens são o que são, uma emanação do seu tempo, a flor do lotus de tal Nilo, de tais águas, de tal céu. Nós nascemos numa época conturbada, sob estrelas nefastas: guerras lá fora, desinteligências dentro de casa, que marcam mais o carácter, do que criam nossos avós, no ser ou não ser a gente bafejada pelos astros nas suas conjunções. Os homens têm de se ver através de tal prisma, em suas virtudes e vícios, prendas e defeitos, predicados estes que, segundo o código reinante que amanhã pode estar postergado, e não é mais que a consignação transitória dos nossos gostos, pensares ou imposições, não passam da moeda fiduciária do tempo. Difícil e incôngrua tarefa a do crítico, do historiador, ou simplesmente do orador encartado como eu, pesar umas coisas e outras. Muitas dessas virtudes e taras vão-se desvanecendo, e quando se trata dum escritor fica só no futuro a espoada imaterialidade do espírito. Sabemos que vícios ou que méritos acompanhavam a pessoa social de Demóstenes quando orador celebrado e popular da sua época? Não sabemos. Mas sabemos ao certo por que factores ideológicos entrou na eternidade e permanece vivo nos tempos. Interessaria saber que pele de serpente largou na sua metempsicose para divino? De biliões de almas que conta o mundo, tal aspecto das coisas preocupa apenas uma minoria infinitesimal. Lembra-me ainda que o mundo está numa viragem brusca. Em que casa vão refugiar-se as virtudes teologais? Os novíssimos do homem em que ferro-velho se encontram, se é que não foram para a fundição? Para onde caminha a literatura?
(pp. 319 a 322)
(Continua)