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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 74) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. I de XV} * [ vol. II ]

      XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.




(Continuação)

...«Naturais, reinóis e portugueses. A evangelização dos brâmanes. Baptismos e doutrina cristã. Cá nesta Babilónia...»



«As portuguesas, tomadas damas de prol, ainda que não passassem de mulheres de escrivão ou bacharel, eram vê-las de cadeirinha ou de palanquim, ao ombro de negros da Guiné, e acaudatadas duma procissão de servas. Pintadas como ídolos de pagode, para o sainete ser mais adequado, mascavam o bétel. Não faltavam galantins a catrapiscá-las. E às portas das quitandas, os impagáveis rodamontes, birbantes de Alfama, chulos da Rua da Mancebia, a deitar lume pelas ventas, passeavam olhares de desafio por céu e terra. Entre eles avistou conhecidos velhos, que lhe lembraram desaguisados da estúrdia lisboeta, o Toscano, o Calisto, filho de Calisto de Sequeira, escrivão da Cozinha de El-Rei, que era quartão e homem de maus fígados.»



«Marchetando de preto a esta população variegada, viam-se padres, muitos padres, padres de todas as ordens e feitios, redondos, baixos, altos, ascéticos, no geral de loba desapertada e sem cabeção na loba. Uns na Rua Direita, postados à espalda dos cambistas malabares, por detrás das bancas, vigiavam, como quem não quer a coisa, a veniaga que ali faziam os seus corretores de bolsa; outros iam, vinham, rápidos afogados; surgiam nas encruzilhadas das ruas; apareciam, desapareciam, agitando às vezes uma campainha e clamando:
    -- Mandai vossos filhos e filhas, escravos e escravas, à santa doutrina na Igreja de N.ª S.ª do Rosário, por amor de Deus!»

«Goa requintava em relação à Metrópole de hábitos que lá já eram notados e aqui, por isso mesmo, se tornavam grotescos ao último grau. Ao fim de umas horas de deambuleio por avenidas e betesgas, Luís de Camões acabou por se formar um juízo. Esse juízo era em desabono de Goa. Não, não gostava da terra, nem da gente, nem de nada do que via. Estava de resto na propensão do seu temperamento e sobretudo do seu estado: não era um combatente compelido da milícia do Oriente?»



«Precisamente chegara a Goa quando o governador Francisco Barreto acabava de decretar o extermínio das religiões gentias. Pelas ruas, ao som de pífaros e atabales, os pregoeiros reapareciam a ler, como tantas vezes já,as disposições que proibiam nos territórios vassalos do rei de Portugal qualquer outro culto que não fosse o cristão, e enunciavam as penalidades respectivas contra os transgressores. Simultaneamente davam conhecimento doutras providências respeitantes aos privilégios, que desfrutavam os brâmanes e gancares, e lhes eram suprimidos.»

... ... ...



«In continenti (Imediatamente) iniciou-se a obra de combate às religiões não nazarenas com uma campanha cerrada de propaganda e de catequese. Os padres jesuítas romperam a baptizar a torto e a direito; na cidade e nas aldeias; meninos e velhos; homens forros e escravos. Hora a hora entravam na cidade grandes ranchadas das trinta aldeias da Tisvari baneane, ajoujadas de flores e tirsos, cantando e bailando. A caminho da igreja de Santo Antão, onde os esperava a pia do baptismo, atestada da água lustral, detinham-se nas praças gritando a única palavra que sabiam articular: cristão! cristão! E que a fé ia em bom ponto -- proclama-o o Oriente Conquistado -- eram indício seguro os meninos, que ainda não balbuciavam, fazendo ao colo das mães, com os dedinhos, o sinal-da-cruz.»

... ... ... 

«As dezenas de templos, de que a capital da Índia se paramentara em pouco mais de meio século, tornavam-se com as novas disposições operosas fábricas de proselitismo. Quando se passava à boca das galilés, era-se surpreendido por uma lufada de vozes barbarescas guinchadas: os catecúmenos indígenas, em cujas gargantas arranhavam o latim e as vozes da Redenção, a cantarem a doutrina como melhor processo de a encasquetarem na cachimónia. O mesmo se praticava nas casas particulares quanto às rezas quotidianas, mas aí era no propósito matreiro de os coagir, com dar testemunho, a não deixar de cumprir aquele preceito de bons cristãos.»





«Em breves dias ajuizou Luís de Camões do que valia debaixo de vários aspectos aquela projecção de Portugal na Ásia longínqua. As populações nativas apenas com fictícia aceitação sofriam a sua tutela. E a população imigrada degradava-se na mais apavorante das dissoluções morais. Não havia freios de nenhuma ordem capazes de travar na Índia o desencadeamento dos instintos maus: ganhuça, gozo, soberba, despotismo. O exemplo partia do alto, do primeiro magistrado, e contagiava toda a hierarquia.»





«Sem embargo de Goa ser uma cidade tão entranhadamente devota e vigiada pelos sete olhos de Argos das Ordens, os soldados viviam na maior indiferença das práticas religiosas. Com eles, carne de batalha, sustentáculos do apostolado, era-se tolerante. Seus concubinatos, suas rixas, sua vida de torpeza e flagrante sugilação [1] passavam à margem do Decálogo, o mesmo é que do foro eclesiástico, que em tudo metia a sonda e, se valia a pena, uma alavanca de manobra.»





«Luís de Camões teve a impressão nítida de que tudo o que fora importado da Europa, homens, mulheres, costumes, governo, poder militar e civil, Cristo e as Ordenações, estava em franca e acelerada desagregação. Gangrena. Lá se iam as suas esperanças, os seus pobres sonhos de ressarcimento e vida nova. A náusea subia-lhe à garganta. E, reflexo amaríssimo e aziago do estado de espírito, lavrou neste 'soneto' a sua execração:

    Cá nesta Babilónia, donde mana
    Matéria a quanto mal o mundo cria;
    Cá, donde o puro amor não tem valia,
    Que a mãe, que manda mais, tudo profana...
    

    Cá, donde o mal se afina, o bem se dana,
     ... ... ... ... ...
     ... ... ... ... ...
    Cuida que um nome vão a Deus engana...


    Cá neste labirinto, onde a nobreza,
     ... ... ... ... ...
    às portas da cobiça e da vileza...


    Cá neste escuro caos de confusão
     ... ... ... ... ...
    Vê se me esquecerei de ti, Sião!



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sugilação [1]
“sugilação”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. 




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