AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.
E sou, acima de tudo, na qualidade de artífice das letras, um escultor de presépios, e neste mister apenas me prevaleço duma virtude: ser eu, bem eu, com mãos próprias e olhos próprios. Na minha oficina entra particularmente o pinho dos meus pinhais e o castanho dos meu souto; o desenho é tosco tantas vezes; as roupagens mal delineadas. Não emprego postiços porque não sei, e detesto o ouropel. O prefabricado, muito em voga na construção de hoje, não entra na minha carpintaria. Sem metáforas: nunca eu, construindo um romance, uma novela, escrevendo uma simples croniqueta, prestei a menor vénia a preconceitos, conveniências sociais, ou a quaisquer princípios de ordem política ou doutrina de escola. De pena na mão, procuro ser independente, original, inteiriço como um bárbaro.
Entendo que foram estas as qualidades que assinalaram o meu nome a esta douta corporação, donde, por ela reconhecidas, precede o galardão que me confere, recebendo-me no seu grémio. Por tal prova de apreço me confesso jubiloso e desvanecido. As minhas homenagens vão em primeiro lugar para o nosso Presidente e insigne homem de letras, Sr. Dr. Júlio Dantas, que lavrou com sua mão de artista embora com benevolência de grã-senhor, o parecer favorável ao meu acesso a académico de número. Depois para o Sr. Secretário-Geral, Sr. Dr. António Pereira Forjaz, gentilhomem no cargo e pessoa de cientista e letrado, e ainda para o Sr. Dr. Laranjo Coelho, digno intelectual, secretário da Classe de Letras tão efusivo e amável com a minha eleição. (...)
[...]
Segundo a praxe, se não é que segundo o Estatuto, caber-me-ia fazer o elogio histórico do falecido académico Joaquim Leitão, cuja cadeira vim ocupar. É óbvio que, não se transmitindo estes lugares por disposição testamentária, mas recebendo-se dos confrades vivos, o elogio não constitua mais que um imperativo platónico. Mas não se tratando de missa de réquiem, decorrente do bem de alma, nem nada que se pareça, noto que se lhe atribui a solenidade desses sufrágios. Em tanto que acto interior, eu me associo reverentemente, que mais não fosse oprimido pela irremissível fatalidade: 'hodie mihi cras tibi'.
Porém, o elogio do meu antecessor, obrigado às três dimensões, eu me declaro incompetente para o fazer. Escusado é alegar que o homem de letras, na verdadeira acepção da palavra, é um ser complexo, infinitamente mais complexo que qualquer indivíduo vulgar de Lineu, comerciante, industrial, banqueiro, que ergueu casa, casou bem os filhos e morreu confortado com os sacramentos da Igreja, e que todavia nunca deixará, mercê de actos e até de volições de suscitar à consciência de quem lidou com ele, marçanos e não marçanos, toda a respeitável clientela, sem omitir a viúva saudosa, o seu problema ou mesmo muitos problemas. Se o homem de letras lega à posteridade uma obra vasta e polimorfa, pode dizer-se que é acidentado como uma cordilheira de muitos montes. A alguns levaria tempo a dar-se-lhes volta. Outros são inacessíveis e continuam a desafiar a escalada através das suas ravinas e escarpas, como Balzac, como Dostoieweski, como Camilo. Um conspecto de natureza geral será sempre um acto de temeridade. Depois, em arte, em literatura, por via de regra quem nos há-de julgar está ainda para nascer. O juízo final do escritor situa-se sempre além-campa. No caso de Joaquim Leitão a campa, porém, ainda não arrefeceu de todo. Demais disso, escasseiam-me o tempo e trazia o pouco engenho que Deus me deu voltado para outra rosa dos ventos, para que me arrojasse a cometer o balanço da sua obra. A crítica é uma magistratura muito séria, que requer além de pureza de intenções, competência e mão afeita a esta sorte de barbear, como já vi que lhe chamavam. Imagino que proferir o 'veredictum' sobre um trabalho, que representa muitas horas de labor mental, é mais grave e envolve incomparavelmente mais responsabilidade que num pretório sentenciar pessoas e actos. Por isso eu fujo de exercer tal sacerdócio. E, nesta hora, me limito a trazer apenas notas sucintas, correspondentes a factos que posso testemunhar, para o bosquejo do retrato do meu ilustre antecessor.
Um estudo meritório sobre ele, que não seja mesmo mais que uma introdução, tem de ir longe, aos verdes anos, quando, estudante no liceu e anarquista como todos os rapazes do seu tempo, publicou um livro de versos "Trenos de miséria", tão generoso e sequioso de idealidade que até as gazelas punha a voar. Eu vim a conhecê-lo à volta de 1906 numa espécie de comício que se celebrou, se não estou em erro, nas salas da Associação de Lojistas, ali para a Trindade. Gorki tinha sido condenado à morte pelo Czar ou estava ameaçado de morte, e desencadeara-se pelo mundo um movimento de protesto, que acabara por repercutir na ordeiríssima Lisboa das manas Perlequitetes. Bons tempos! Lisboa tinha a inocência e pacatez duma pomba, e todavia lia o "Pimpão"; em pleno Rossio, no quiosque a "Boia", os anarquistas tinham o seu club e sentavam-se nos bancos que bordavam a praça a discutir em voz alta as teorias de Marx e Kropotkine, sem que a ordem social perigasse, nem eles corressem o risco de ver a mão policial ferrar-se-lhes no cachaço. O Rossio era uma verdadeira àgora. Onde estão as árvores que davam sombra aos mendigos e aos extremistas e, sobretudo, essa saudosa liberdade? Quem diz sequer onde está o seu cadáver para que em público e raso se pergunte: quem lhe faz o funeral?
(continua)
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