▼

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 3 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958



      (Continuação)

    Desta sarrafusca literária, deste maremoto verbal, resultou ficar o nome do senhor Dr. Júlio Dantas um dos mais falados do país e justamente popularizado.

    O senhor Dr. Júlio Dantas naturalmente não meteu o "bâton dans les roues" do carro da fama, embora não fustigasse os corcéis. O meu antecessor, no caso dos "Filhos de Inês de Castro", travou, levado duma prosápia que não deixava de ter a sua galhardia. Estava-lhe na massa do temperamento, parece-me bem, e algumas vezes procederia a sabor do seu orgulho e ao arrepelo das coisas.

    "Os Filhos de Inês de Castro", quem os leu? Desde aqueles dias plácidos da Rua da Glória, o mundo deu muita volta; eu tive o meu exílio juvenil em França, e perdemos-nos de vista. Mais tarde, divisei-o como repórter, melhor, como aedo, nas hostes de Paiva Couceiro, em transe de cantar-lhes as proezas e vitórias. Provêm dessa fase livros de reportagem, que ouço dizer serem do melhor da sua lavra. Dentro do limite do tempo e ao ritmo que o espírito de hoje consente pesagens e rectificações, deitei um olho rápido a essa obra. De facto, surpreendeu-me a sua linguagem incisiva, presta, que ouço chamar ainda ao meu barbeiro e aferidor, como vêem, de coisas e loisas, escovada. Linguagem escovada. Em muitos livros se narram, cantam e esmiuçam as marchas e contra-marchas, refertas e combates, estratagemas e planos guerreiros, retiradas e avanços, galopadas colectivas e façanhas singulares da falange insurrecta. Às vezes, figura-se-me ver levantar-se Agamémnon indignado e lançar o guante. Outras vezes é Heitor generoso que surge no arraial e fala a linguagem do bom senso ou da serena coragem. Ao fim e ao cabo da notável Odisseia, poderá perguntar-se o leitor desprecavido: Em que pira foram incinerados os heróis?

    Não houve pira porque não houve mortos. Os mortos desta epopeia foram-no por desastre ou natural consumpção. E quase poderia dizer: felizes os povos em que as batalhas e os dissídios deflagram, se processam e se extinguem sem derrame de sangue, como nesta guerra fratricida!

    A carreira do meu antecessor perde-se aqui, a meus olhos, tendo cortado por França, pela Itália, pelo Brasil. Em França traduziu Henry Bordeaux e outros autores e, como muitos nobres emigrados, comeu "de la vache enragée". Regressado a Lisboa, escreveu no "Diário de Lisboa" a crónica financeira e dirigiu uma casa de impressão, a Ottosgráfica. Pelo Brasil passou meteoricamente. Dizia-me um ilustre homem de letras, seu admirador e anotador da vida moderna no que tem de fluido e subcorrente: -- "Joaquim Leitão apareceu um dia aqui, na Rua Gonçalves Dias, de coco, luvas e bengala. Para nos 'épater' ou para nos arreliar? Não sei bem para que foi, mas nem nos assombrou nem produziu o menor engulho. Tanto assim que todos nós da Academia Brasileira de Letras ficámos seus amigos e admiradores e votámos por unanimidade a sua candidatura de sócio".

    De verdade o Brasil mental, que emerge garboso e fecundo daquela imensidão de cidades, rios, campos e floresta, que fala nos colóquios, tem voz nas Câmaras, assento na Academia, acarinhava Leitão como a um dos detentores da camisola amarela da lusitanidade. Ele por sua vez não ocultava o seu facataz pelo Brasil. O seu derradeiro artigo, inserto num jornal do Porto, era um madrigal ao Brasil e aos homens eminentes da Academia Brasileira de Letras.

    Depois o meu antecessor consagrou-se a esta nobre Casa do Abade Correia da Serra. À Academia com o seu Presidente. Ambos se consubstanciavam para ele e constituíam o tema da sua idolatria. Compreende-se. Pode dizer-se, sem desdouro para ninguém, que nestes dois decénios a Academia é Júlio Dantas. À parte  a manifesta actividade que tem desenvolvido aqui no seu lugar de maioral, há a sua obra intercorrente e ignorada em prol do idioma. Se esta não fica a constituir uma das suas coroas de glória, a nação lhe será grata pela árdua batalha que travou e em que empenhou todas as armas. Que são os nossos aplausos em causa tão alta?

    Tenho para mim que o maior título de nobreza que um povo pode apresentar à barra da História é a sua língua. Quando a poder de engenho e no fluxo dos séculos conseguiu fabricar o instrumento maravilhoso que é um idioma culto, no qual, em última análise, ele está presente com a sua idiossincrasia, realizou uma obra que se pode comparar, traduzida para a esfera individual, ao que Leonardo da Vinci obteve com as tintas ou Newton com os cálculos astronómicos. Como património vale mais de que os territórios, as cidades, os tesouros que pode guardar a sete chaves nas suas torres da Marca, por natureza contingentes e caducos. Ela não, modifica-se, evolui, pode ter cultores que a abastardem, mas no que nunca se degrada é no ouro que a literatura foi deixando à margem do rio histórico. Acaso os escritores decadentes do latim-latão empanaram o brilho que resplende de uma página de Horácio ou de Virgílio? Não há discrepância possível. O mal está em que, sendo a língua um bem comum, o indivíduo não dá conta do tesouro que lhe coube em herança e desfruta-o à toa. Com efeito, um homem que maneja com habilidade a sua língua acha-se particularmente adestrado para a luta pela vida, pois que o Mundo, por enquanto, é campo de liça. Um arengador competente leva o auditório onde lhe der a gana. Nunca hei-de esquecer, em Shakespeare, o discurso de Marco António ao povo que, começando por conceder a Bruto todas as boas intenções e bizarrias, acaba por mover contra ele as fúrias vingadoras que é capaz de açular o génio do mal. A palavra como a lança longe alcança. De facto, a língua, para quem souber usar dela como o espadachim da sua lâmina, lhe conhecer os botes secretos e os souber aplicar a tempo, nunca o deixa em maus lençóis. No foro, no parlamento, no comício, na assembleia de accionistas, mesmo na vida sentimental.



(pp. 316 a 319)

  (Continua)


Sem comentários:

Enviar um comentário