XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.


(continuação)
«Chiado, o frade ramboieiro.»
«Pois que Lisboa era uma cidade, excluindo servos e escravos, de pequeno âmbito, com uma população estável de menos de cem mil habitantes, onde todos se deviam conhecer, não repugna que se encontrasse com o Chiado no mesmo tablado. Chiado era excelente dizidor, notado desde o convento pela sua veia para momos e chocarrices; actor cómico, em suma. Este papel era essencial no conceito que antigamente se fazia do teatro, em regra cortado sobre os moldes satíricos ou burlescos dos comediógrafos latinos. Nos seus apuros Chiado teria, em último recurso, um porto que faltava a Camões e que não lhe recusavam por honra da firma: o refeitório da Ordem.
O Chiado, sem respeito à roupeta, lançada aos silvados, representava ele próprio as suas peças, trocado o breviário pelas cómicas e cantarinas dos corros e pátios.
Quanto a Camões, como representante, mesmo que se desdenhe do frade goliardo, está em óptima companhia: Mestre Gil, Shakespeare, Molière...»





«Homizio de Camões. Causas prováveis.»
... «Custa, no entanto, a admitir que Luís de Camões, ao escrever o auto, tivesse em mente a aventura amorosa de que foram comparsas D. Manuel, sua mulher e o filho. Era perigoso brincar com o fogo, quando se via aceso a cada passo nas praças públicas e queimar gente por motivos mais fúteis.
... ...
... «Nada haveria também no El-rei Seleuco de voluntariamente alusivo ao Paço, embora a carapuça de Seleuco assentasse a matar em D. Manuel, o Venturoso.
Teófilo, como atrás se disse, atribuiu a semelhante irreverência o desterro de Camões.»
... ...
«De sorte terá sido esta a causa do exílio, facto que somos tentados a admitir, embora com incerteza. Referimo-nos ao ostracismo voluntário, ou melhor, refúgio no Ribatejo, "erros meus, má fortuna..." que derivou para o vero degredo em África com a duração taxativa de dois anos. Não sendo aquela a causa, teremos que filiá-la nos seus actos de estúrdia desmedida ou arruaça nocturna com birbantes e desordeiros.
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