quarta-feira, 3 de junho de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 61) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XIII de XVIII} * [ vol. I ]

 

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.

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(continuação)

«Chiado, o frade ramboieiro.»

«Pois que Lisboa era uma cidade, excluindo servos e escravos, de pequeno âmbito, com uma população estável de menos de cem mil habitantes, onde todos se deviam conhecer, não repugna que se encontrasse com o Chiado no mesmo tablado. Chiado era excelente dizidor, notado desde o convento pela sua veia para momos e chocarrices; actor cómico, em suma. Este papel era essencial no conceito que antigamente se fazia do teatro, em regra cortado sobre os moldes satíricos ou burlescos dos comediógrafos latinos. Nos seus apuros Chiado teria, em último recurso, um porto que faltava a Camões e que não lhe recusavam por honra da firma: o refeitório da Ordem.
O Chiado, sem respeito à roupeta, lançada aos silvados, representava ele próprio as suas peças, trocado o breviário pelas cómicas e cantarinas dos corros e pátios.
Quanto a Camões, como representante, mesmo que se desdenhe do frade goliardo, está em óptima companhia: Mestre Gil, Shakespeare, Molière...»


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«Auto de El-rei Seleuco. O enteado apaixona-se pela madrasta tal como no Paço dos reis de Avis. Coincidência ou sátira?»
 
«O Auto de El-rei Seleuco, ocupa, ao modo de ver de Teófilo, o segundo lugar das obras dramáticas de Camões por ordem de produção. Devia ter sido composto entre 1544 e 1546. Na opinião de Storck, encomendara-lho um graúdo, Estácio da Fonseca, enteado de Duarte Rodrigues, reposteiro de D. João III.
...
«A representação em público duma comédia, cujo entrecho continha matéria de escândalo, isto é, a história dos amores incestuosos de D. João III com a madrasta, torna verosímil, mas improvável, filiar-se nela a causa por que Luís de Camões teve primeiramente de homiziar-se e foi degredado depois para África. Embora não fosse da inventiva de Camões, nem por isso era menos responsável, para o caso o grau de culpabilidade do adaptador nivelando-se com o do autor original, dado que este a escrevesse expressamente.»
 

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«Homizio de Camões. Causas prováveis.»

«Como o tema versado na peça, ainda que clássico, assentava, com pequenas discordâncias, na escandaleira da Corte, nada mais simples, porém, que uns explorassem a abusão ao sabor dos seus ódios, outros nada mais que pelo mexerico. Sendo certo que não se deve falar de corda em casa de enforcado, Camões teria cometido uma grossa inconveniência.

... «Custa, no entanto, a admitir que Luís de Camões, ao escrever o auto, tivesse em mente a aventura amorosa de que foram comparsas D. Manuel, sua mulher e o filho. Era perigoso brincar com o fogo, quando se via aceso a cada passo nas praças públicas e queimar gente por motivos mais fúteis.
... ... 
... «Nada haveria também no El-rei Seleuco de voluntariamente alusivo ao Paço, embora a carapuça de Seleuco assentasse a matar em D. Manuel, o Venturoso.
Teófilo, como atrás se disse, atribuiu a semelhante irreverência o desterro de Camões.»

... ...
«De sorte terá sido esta a causa do exílio, facto que somos tentados a admitir, embora com incerteza. Referimo-nos ao ostracismo voluntário, ou melhor, refúgio no Ribatejo, "erros meus, má fortuna..." que derivou para o vero degredo em África com a duração taxativa de dois anos. Não sendo aquela a causa, teremos que filiá-la nos seus actos de estúrdia desmedida ou arruaça nocturna com birbantes e desordeiros.

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