terça-feira, 24 de março de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»


I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:
  -- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Algarves, que não há-de ser preciso pedir-se auxílio a Inglaterra, e trazei-me o meu servidor. As alvíssaras são de tentar...
  -- Não me encanta a riqueza.
  -- Outras mercês vos serão dadas.
  -- Outras... de vós, meu amo, as boas graças me bastam. Sou rico, louvores a Deus, e a minha fidalguia toca em Covadonga e no Duque de Fanhões.
  -- Que vo-las dê então D. Floripes -- pronunciou el-rei num assomo de enfadamento perante tal prosápia.
  -- Dela as aceitarei de bom grado.
  -- Pois que vo-las dê!
  -- Que lhe posso eu dar, nobre senhor? -- perguntou Floripes.
D. Raimundo, sem tornar resposta, envolveu-a num longo olhar que, para ser terno, só lhe faltava a languidez dos poetas que deram aqui há anos a alma ao Criador, com o verso de pé quebrado.
  -- Meus moinhos que moem prata?
  -- !
  -- Três quintas, onde se criam nabos que põem o ramo no mercado, sitas mesmo à beira-mar?
  -- O meu castelo da Lobata?
  -- !
  -- As minhas jóias sem par?
  -- !
  -- Que prémio desejais, senhor?
As damas, que o sentiam insatisfeito, ofereceram uma a uma as suas prendas:
  -- Dou uma colcha de Sofala.
  -- E eu, um corcel arreado.
  -- Eu, um brilhante e uma opala.
  -- Um punhal, eu, adamascado.
  -- Um gomil de oiro para se lavar.
  -- Toalhas de damasco e lhama para se limpar.
  -- Pedi por boca, homem de Deus ou de Satanás...!
El-rei disse, notando a leve melancolia de que parecia ensombrar-se a figura de D. Raimundo:
  -- Estareis vós enamorado?
  -- Real senhor, assim quis minha sina.
  -- De D. Floripes?
  -- Sim, de D. Floripes.
  -- Estava a dizer-me o dedo mindinho. Já vai nos trinta... Para quem está ela a guardar-se...?! Que fale, eu a autorizo...
Entre soluços, pálida, a donzela proferiu:
  -- Se outro prémio vos não seduz, será vossa a minha mão. Mas fazei-me a mercê de escolher melhor...
D. Raimundo abanou a cabeça:
  -- Nenhum outro me seduz.
Tudo assente, e já noivo de Floripes, partiu dali o cavaleiro à testa de poderosa milícia. E, volvidos muitos dias, regressou, trazendo após rija referta com os bandoleiros, segundo contaram testemunhas que não arredaram da corte, o nobre senhor de Montalvo. Vinha o mesmo, como sempre orgulhoso e fero, mais crescidos apenas os cabelos no cachaço e na venta, e as unhas com que se coçava.» ...

                                                                                                     (continua)


"Verso de pé quebrado"

• [Literatura] O que peca contra as regras usuais de métrica ou de ritmo."verso", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/verso.

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/verso-de-pe-quebrado/9416 
 
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verso
substantivo masculino
1. Rubrica: versificação.
subdivisão de um poema, ger. coincidindo com uma linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pése de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de apresentar unidade de sentido.
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 59) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Como el-rei tivesse grande estima por seu fiel vassalo D. Beltrão de Montalvo, mandou pregoar por cidades e lugares do reino uma recompensa de dez mil cruzados a quem lhe trouxesse com vida o nobre desaparecido. Acorreram príncipes das sete partidas, militares e aventureiros de ofício, e luzida e valorosa cavalgada partiu a bater os montes. Floripes, que se acolhera à corte em corpo bem feito de açafata, celebrada por uns, adorada por outros, grata a todos, chorava noite e dia, não havendo lenimemto de palavras, piscadela de olhos, toque de bandurras, odes votivas de poetas que lhe minorassem a paixão.
Ao cabo de ano, contado hora a hora pelas suas lágrimas, voltaram os expedicionários um a um, estropiados e desiludidos. A ninguém fora dado ganhar a alta e perigosa cartada de dez mil cruzados. Só um faltava: o alferes, mas desse não havia novas certas. Sabia-se que porfiava, e a ideia deste sacrifício passava na alma de Floripes como vaporoso e suave bálsamo. Continuamente, perguntava em seu cismar: 
  -- Trá-lo-á o bom alferes? E que bravo e simpático homem! Nem mesmo tilintava com o sabre!
E passaram meses, e passou outro ano, sem lhe chegar rumor dele, ou do pai.
Estavam perdidas as esperanças quando, a hora inesperada, um fidalgo arraiano pediu audiência a el-rei, nestes termos:
  -- D. Raimundo de Resquitela, de parte de D. Beltrão de Montalvo.
Alvoroçou-se a corte que tal ouviu, e o fidalgo fronteiriço foi chamado.
  -- Julguei que era extinta a estirpe dos Resquitelas -- observou el-rei para o camareiro. -- Se o não é, anda certamente abastardada. Estes plebeus metem-se como piolho na púrpura. Há-de ser preciso esborrachá-los não entre as unhas dos dois polegares, como contam que se via na corte de D. Carlota, mas a cachamorra.
Disse el-rei para D. Raimundo de Resquitela, homem dos quarenta, cara dura torrada do suão dos altos, mal foi introduzido:
  -- O meu castelão não é descendente daquele D. Abúndio de Resquitela, homem terso e duro, das hostes do bem-aventurado D. Nuno, que salgava os fígados dos castelhanos, e os dava a comer em chouriços aos vilões?
  -- É essa uma tradição fabulosa, senhor, inventada por um historiador espanhol, falho de imaginação. Mas sou, sou tetraneto desse valente espadeiro.
  -- Sabeis então onde está D. Beltrão?
  -- Sim, real senhor.
  -- Onde está e porque não veio convosco?
  -- Era arriscado empreendimento, para mim só, trazê--lo...
  -- Dar-vos-ei uma força. E onde pára?
  -- Numa serra, distante cinco léguas, das velhas do castelo que me foi berço. Onde só alcançam as águias...» ...

                                                                                                           (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 58) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

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«Sentaram-nas nos joelhos e em deleitoso colóquio e bebendo vinhos generosos, que não eram dos mata-ratos fabricados em Cale ou Brachium Argentum, entretiveram o serão. O soldado galanteava a loira e seduzia a morena. Seus olhos diziam a uma: amo-te, e à outra: fosse eu rei, fazia-te rainha. E tão discretamente procedia que uma supunha: é a mim que ele ama! e a outra acreditava: está mesmo pelo beiço!
Cantavam já os galos e o alferes de cavalos propôs: 
  -- Vá; cada uma escolha o seu galã.
  -- Eu quero o soldado! -- gritou uma.
  -- Eu quero o soldado! -- exclamou outra.
Ficaram os dois interditos perante situação tão caprichosa. O soldadinho falou primeiro:
  -- Não tem siso o que dizeis. Eu não me posso partir e, já que ambas me elegestes, nenhuma, nem ambas, posso eu querer. Se vos quisesse a ambas, ofenderia o meu alferes; se preferisse uma, magoaria a outra.
Foram-se por donde vieram, cismando o alferes:
  -- A conquistar moças é homem, mas o seu desapego é de mulher; carambinha, minha Nossa Senhora, grande mistério há aqui!
Temerariamente se aventurou o alferes com o destacamento aos lugares mais ermos e selvagens. No meio dos bosques encontraram por fim os bandidos e rija peleja se travou. Nela caíram muitos combatentes dum lado e doutro e entre eles o soldadinho. Largou o alferes o mais aceso da luta para ampará-lo, pedindo-lhe ele em voz entrecortada:
  -- Enterrem-me vestido como estou.
O oficial volveu com grande cólera e dor ao combate e, mal os bandidos foram desalojados, o seu primeiro cuidado foi conduzir a ordenança para uma cabana que ali havia. Ao examinar-lhe as feridas do colo, longe da ardilosa curiosidade que o perseguia, depararam-se-lhe, como uma peanha à medalha em que figurava D. Beltrão de rabona, calção e cabeleira de canudos, dois seios formosíssimos de donzela, como seriam pombos brancos e gémeos, comprimidos, comprimidos, mesmo agachadinhos de medo numa condessinha. E reconhecendo que tinha diante de si D. Floripes de Montalvo, sentiu a alma presa de grande comoção e enternecimento. E, a partir daquele instante, pôs-se a amá-la com delicado e recatado amor.» ...

                                                                                                      (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 57) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

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«Nasceram certas dúvidas no espírito do oficial quanto àquele maduro de soldado; mas os modos fidalgos do demonico acobardavam-no de tentar uma inquirição a fundo. Reservou-se, todavia, observá-lo e consigo foi ruminando:
  -- Raios partam o Diabo! As mãos parecem de rapariga, mas o alento é varonil. A voz é de donzela, mesmo uma donzela virgoleira, mas o garbo de cavaleiro. Uma destas?! Não sendo homem, não sendo mulher, só querubim.
Ao primeiro combate que sustentaram, o soldadinho foi freneticamente destemido. Era o ginete dele que corria na dianteira e a espada dele a mais afoita a acutilar. Um dos bandidos viu pela última vez a lua estanhada; o golpe fora, porém, tão penetrante que nem um suspiro lhe puderam apurar da gorja de moribundo. E a malta desapareceu entre as serranias, sem dar azo a desvendar-se o destino desconcertador do senhor de Montalvo. O soldadinho, que tão ousado se mostrara durante a refrega, pôs -se a chorar em fonte, e o alferes disse de novo para consigo:
  -- Tinha graça se fosse mulher!
Porque a combater era um alemão, e a chorar uma menina. Resolveu por isso experimentá-lo, e com esse fim levou-o a uma feira. Passando diante das tendas, onde se vendia oiro lavrado, disse-lhe:
  -- Formosas jóias, amigo. Não gostas?
O soldado desviou o olhar de brincos e trancelins para os cutileiros:
  -- Formosas, não há que ver. Mas eu cá aprecio mais daquilo, aquelas facas de mato e os alfanges de guerra.
As mulheres adoram os enfeites -- considerou o oficial -- e o soldado prefere as armas. Será homem? Mas que ratão!
Uma tarde, que acamparam nas cercanias de grande terra, o alferes veio ao encontro do soldadinho e, batendo-lhe no ombro, perguntou: 
  -- Sabes ser discreto?
  -- Como um morto.
  -- Gostas de mulheres?
  -- Como um turco.
  -- Vem daí. Eu sei de duas beldades, meias pecadoras, de se lhes lamber o beiço, que não terão dúvidas de nos abrir a porta.
Galoparam os dois à rédea solta, cada um mais veloz que o outro, porque as duas tiranas moravam algures num palacete que lhes oferecera certo rajá e elas tinham convertido em afrodision. Uma delas, muito esbelta e composta, tinha tez e cabelos da cor do trigo a sazonar; a outra, miudinha e enxuta, era morena e a íris dos seus olhos reluzia mais que a baga preta do loureiro.» ...
                                                                                                                   (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 56) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...)«Por ordem de el-rei, uma força partiu a bater as serranias do Norte, que os bandidos infestavam, e onde se presumia guardassem em reféns o mui nobre e leal senhor D. Beltrão.
Era ponto de fé que longa e engenhosa traça, com o fim de roubar e matar, explorando a soberbia do fidalgo, fora aquela dos cavalos que corriam mais que o vento. Se ele era a única vítima, a grande milagre deviam Floripes e o morgado a salvação. À pequena valera-lhe enfiar o cavalo por um tremedal, e ao noivo ser cuspido da sela, embora a troco de duas costelas partidas. Ela chorava, o morgado ria, agradecendo aos santos ter escapado a tais alhadas, comendo agora as boas alheiras dos seus cerdos, temperadas a verdasco de Santo Tirso, oferta congratulatória do abade da freguesia.
Ignorava-se, de todo, a sorte de D. Beltrão, posto corressem rumores de que, roubando-lhe a liberdade, lhe houvessem poupado a vida e terem-no de conserva a engordar como um peru que havia de dar para os gastos da consoada.
Floripes chorava noite e dia, agastando-se sem repouso a espreitar o horizonte por onde os soldados podiam voltar dum momento para o outro, mas não voltavam, com o paizinho resgatado. Ao cabo de largo mês, só o alferes apareceu, crivado de dardos, tendo perdido metade da gente em peleja com os bandidos.
Ficou el-rei muito em cólera com a notícia do desastre e, por sua ordem, depois de um conselho de ministros a que foi chamado a dar seu parecer o proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira, que metia nas Pandectas o mesmo nariz sábio com que especulava a madre das éguas reais, segunda e bem equipada expedição se organizou. Estava esta para abalar quando, em ardido galope, se apresentou um moço imberbe e de elegante parecer por baixo do uniforme da ordem:  -- Eis a minha guia de marcha.
O alferes, reparando na bela afoiteza do adolescente, interrogou admirativo:
  -- Soldado raso?
  -- Porque não?
  -- Pensaste bem nos trabalhos que vais ter?
  -- Não olho a isso; sou tropa como os mais.
O alferes, depois de ler a guia, tornou:
  -- Mas porque te alistas tu, rapaz, numa expedição donde não vem glória e só riscos?
  -- É segredo, meu alferes.
Partiram. O soldadinho era dos mais animosos na marcha, embora fosse de parecer melancólico e reservado. Mas as suas finas maneiras de pronto cativaram a soldadesca e não menos o alferes, que o escolheu para ordenança.» ...                     
                                                                                                                (continua)

Pandectas imagem comentarios.pnghttps://books.google.pt/books?id=Vo44AQAAMAAJ&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false 

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https://jornal.usp.br/cultura/professores-da-usp-editam-o-pandectas-de-justiniano/ 

Professores da USP editam o “Pandectas”, de Justiniano

Maior obra jurídica do imperador bizantino é lançada pela primeira vez em língua portuguesa

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O Pandectas, de Justiniano, em língua portuguesa: no total, obra terá sete volumes – Foto: Reprodução

«O governo do imperador Justiniano (482-565), que comandou o chamado Império Romano do Oriente por 38 anos – desde 527 até sua morte –, foi marcado por grandes realizações e por iniciativas típicas de um déspota intransigente. Se, por um lado, abafou com mão de ferro revoltas como a de Nike, instituiu pesados impostos nas terras sob seu domínio, baniu o Talmude das sinagogas e, em 529, fechou a Academia de Platão, em Atenas, por outro lado, ele levou às maiores alturas a glória do Império Bizantino, com sede em Constantinopla – hoje Istambul, na Turquia –, expandiu o seu território por todo o Mediterrâneo e, na tentativa de preservar os costumes e tradições do outrora onipotente Império Romano dos césares, legou ao mundo um documento jurídico que está na base do direito civil das nações ocidentais: o Pandectas ou Digesto.

Esse documento é uma compilação do direito romano elaborada por uma comissão de 17 juristas instituída por Justiniano. Durante três anos, essa comissão analisou 2 mil livros, para deles extrair comentários de juristas romanos sobre direito civil – como os celebrados Ulpiano (150-223) e Paulo (180-235) –, feitos ao longo de 1.300 anos. O trabalho resultou em 50 livros na versão final, que foram reunidos sob o nome de Pandectas ou Digesto e promulgados por Justiniano no dia 16 de dezembro de 533. Em vigor por quase mil anos em Constantinopla – até a tomada da cidade pelos turcos, em 1453 –, essa obra influencia o direito ocidental até hoje. No Brasil, ela é a base de aproximadamente 4/5 do Código Civil, de 2002.»

Digesto ou Pandectas, do imperador Justiniano, volumes I, II e III, tradução de Manoel da Cunha Lopes e Vasconcellos, Editora YK.

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 55) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»


(...) «Logo que Azagaia sossegou, o cavaleiro disse: 
  -- Vamos lá! O seu, menina, é realmente um animal catita, mas contra este é como a ovelha para a gazela. Custa-lhe a mão de sua filha, senhor D. Beltrão de Montalvo.
  -- Basta de insolências! -- trovejou o fidalgo.
  -- Partamos! -- proferiu o facecioso troquilhas por entre dentes.
Abalaram os dois corcéis; logo às primeiras upas Azagaia deixou adiantar Vingança a perder de vista; a sua inferioridade foi tão manifesta que o mais subtil letrado, da escola tomística, não saberia sofismá-la. 
Satisfeito em realizar os desejos, ainda que agastado pela derrota, propôs D. Beltrão:
  -- Pode entregar as rédeas, que vão ser-lhe contados os seis mil cruzados...
  -- Seis mil cruzados?! Mais me custou a criação.
  -- Sejam oito mil.
  -- Puh! Pouco menos que isso gastam à manjedoira.
  -- Homem, essa! Comem pérolas... caviar?
 -- Comem erva e fava... e até grão, mas há seis veterinários ao seu serviço, e todas as manhãs vem esse grande proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira que lhes palpa a mouçó, lhes coça as partes, lhes examina a espéculo o ânus, como faz ao seu rei...
  -- Dez mil, quer?
  -- Mais gastei a adestrá-los.
  -- Quanto pede?
  -- Quanto já pedi, senhor D. Beltrão.
O fidalgo, engasgado de cólera após estas palavras atrevidas, chamou a criadagem, que era um exército. Arrancaram as rédeas das mãos dos pajens e, a um sinal de D. Beltrão, o mordomo desatou uma barriguda saca de coiro. E, enquanto contava dez mil cruzados ao cavaleiro, que sorria, o fidalgo proferiu, abanando a cabeça em ameaça:
  -- Podia-lhe fazer amargar as impertinências, senhor... senhor quê? Vamos, senhor coudel, e, vê, mando-o em paz com a quantia que ofereci. Dez mil cruzados, Baptista, nem mais um ceitil... Já sabia, não tem que se queixar. Vá... vá, diga o que quiser, mas não esqueça que muito paciente foi D. Beltrão Montalvo de Trastâmara, do ramo lusitano de Riba-Doiro, estreme de malado e bastardia!
Para coroar a façanha, D. Beltrão convidou Floripes e o noivo, que assistira embasbacado a todos os lances, a montarem os estranhos corcéis. Ele cavalgou Vingança, Floripes Relâmpago e o morgado Tigre. Mas antes que dessem brida, ouviu-se zumbir no ar um assobio cadenciado e musical e os cavalos arrancaram. À carga cerrada, primeiro, nem demónios a fugir para o meio do inferno. Depois os lacaios viram-nos tresmalhar e correr para a linha do horizonte como galgos endiabrados. Quando volveram olhos para o que estava à sua volta, cavaleiros e pajens dos cavalos enfeitiçados haviam desaparecido. Azagaia corria em roda, crinas eriçadas, nitrindo lamentosamente, mais desesperado que a burra de Balaão antes de conseguir convencer o amo dos verdadeiros desígnios de Deus.»...                                           
                                                                                                           (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 54) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Floripes saltou sobre a sela, como um pássaro salta para um ramo. O homem disse, assentando uma palmada na garupa do seu morzelo: 
  - Este é o mais maneirinho dos três; tem a graciosa andadura duma dama da corte de Trebizonda, e corre como o vento dos ciclones. Chama-se Tigre. Se lhe agrada, custa-lhe dois mil cruzados... dois mil cruzados e o mais que se verá...
  -- O mais que se verá... quê?
  -- A carta do rei Ordonho com o seu alvará de fidalgo... mesmo que esteja roída dos ratos... Sou coleccionador.
Sorriu o nobre da bravata, por lhe parecer amenidade de vilão cobiçar-lhe o pergaminho mandado lavrar e assinado pelo punho de el-rei e de sua senhora D. Cunegundes Coração de Leoa, e Floripes e o cavaleiro emparelharam, prontos a despedir.
Observou-lhe o desconhecido:
  -- Menina, vergonha terei em vencê-la...
  -- Ora essa! Vergonha tenho eu, montada no meu cavalo, de não me considerar uma amazona capaz de correr com o senhor cavaleiro.
  -- Seja.
Os cavalos abalaram e Azagaia foi batido por dois galões.
  -- Entendido -- respondeu D. Beltrão -- terá os dois mil cruzados e uma boa gorjeta para os pajens. Corra agora os outros cavalos com Azagaia.
Os palafreneiros apresentaram o segundo cavalo e o cavaleiro declarou:
  -- Pus-lhe o nome Relâmpago, porque mal arranca desaparece. É tão valente e tão dócil que se deixa montar por um abade com a ama à frente, dois afilhados na garupa e os alforges carregados com os folares da Páscoa. Também é mais caro... dois mil cruzados... e o paço.
O fidalgo reprimiu uma injúria ante a graça descortês, e os ginetes partiram. Segunda vez perdeu Azagaia por quase um quarto de pista.
  -- São extraordinários os seus cavalos, não haja dúvida. O senhor não lhes deu por aí alguma mistela mágica a beber?
  -- Água da fonte e um cálice de vinho fino. Os meus cavalos têm paladar como um lorde de Inglaterra.
  -- Vê-lo-emos. Este terceiro, pachorento como um rocim, não tem ar de defrontar o meu...
  -- Pois deixe repousar o seu cavalinho. Este alazão tem manhas de palafrém, baixa-se para um menino montar, e não há nada mais galgaz. É o que lhe digo... voa como o pensamento e dá pelo nome de Vingança...
  -- Lindo nome! -- gracejou Floripes.
  -- Lindo; e que amor! Traga trinta léguas dum ímpeto e o passo dele é mais macio que andar de liteira levada aos ombros de quatro galegos de Redondela. Precisa, porém, de trato fidalgo e vinho; este bebe como um rei de armas.» ...

 (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913 (...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:   -- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Alg...