terça-feira, 31 de março de 2026

«ANATOLE FRANCE -- Conferência». 1923.

 BIBLIOGRAFIA

 
 



[...]

«Com efeito, de todos os escritores de vulto, Anatole foi, a par de Romain Rolland, aquele que reagiu contra a maré nacionalista que assoberbou e assoberba a França. Quando a febre patriótica aí mais exaltava os ânimos, fazia ele a apologia do bolchevismo e a sua profissão de fé comunista; quando o rancor mais afogava as almas, pregava a concórdia e a clemência para com os vencidos, os detestados alemães; verberava, ao mesmo tempo, a guerra, as represálias e as traficâncias diplomáticas dos políticos de ambição napoleónica, e, com discreta ironia mofava das glórias militares. Numa palavra, Anatole tomava uma posição de reptador para com o espírito de violência e de reacção política desencadeado na sua terra.

No último livro La Vie en Fleur lêem-se estas frases desassombradas: «Os grandes industriais e os grandes financeiros têm interesse em serem belicosos não só pelos lucros que lhes trazem os fornecimentos de guerra como pelo incremento que o conflito traz aos seus negócios. De povo para povo, crê-se cegamente na vitória; duvidar, seria crime de lesa-pátria. As guerras, na maioria dos casos, são decididas por meia dúzia de sujeitos. A facilidade com que arrastam o povo é inacreditável; ainda que gastos e regastos, os meios a que recorrem não falham nunca. É da praxe lançar primeiro a público os enxovalhos recebidos do estrangeiro e que só podem ser lavados com sangue, quando, em boa moral, as crueldades e perfídias que a guerra engendra, muito longe de honrar o povo que as praticou, só o podem cobrir de imortal infâmia; esfalfam-se, em seguida, a demonstrar que o interesse está em pegar em armas, quando é certo que as pátrias saem arruinadas das guerras, que apenas enriquecem um número restrito de indivíduos. Mas não é preciso consumir tanta palavra; basta rufar o tambor, desfraldar a bandeira, e a multidão voa ao matadoiro... Compare-se, também, a guerra e a paz. Os trabalhos da paz são monótonos e demorados, demandam grande paciência e esforço, pouca glória valendo à maioria dos que os exercem. As obras da guerra são prestas, fáceis, ao alcance das inteligências obtusas. No comando, mesmo, não se exige grande entendimento; na soldadesca, nenhum. Toda a gente está apta para a guerra».

Mais adiante, no mesmo livro, dirá em apoio desta opinião, extraordinária na hora e no momento em que foi pronunciada: «O mundo ficou depois da queda de Roma nas mãos dos bárbaros. E os bárbaros ainda hoje, longe de cuidarem em reatar a obra de César e de Augusto, condenam a ideia de paz, com receio de encontrar um estorvo à satisfação dos seus apetites de rapina. Homem que pregasse a necessidade duma anfictionia a bem da tranquilidade universal seria escarnecido pelas pessoas de bem da sua pátria e de todas as pátrias, por querer tirar aos patriotas o seu privilégio mais dilecto: matar para roubar».
[...]
(pp. 70-73)


Santo Amaro de Oeiras, Abril de 1923.




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 “anfictionia”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/anfictionia 

segunda-feira, 30 de março de 2026

OPINIÕES e CRÍTICA LITERÁRIAS: [ I @ 4 ] - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos.

 

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

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OPINIÕES e CRÍTICA LITERÁRIAS: [ I @ 3 ] - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos.

 

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

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OPINIÕES e CRÍTICA LITERÁRIAS: [ I @ 2 ] - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos.

 

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

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OPINIÕES e CRÍTICA LITERÁRIAS: [ I @ 1 ] - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos.


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https://ensina.rtp.pt/artigo/jardim-das-tormentas-o-primeiro-livro-de-aquilino-ribeiro/ 
Correção:

«... em Paris em Berlim, cidades de exílio»

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AQUILINO - Páginas do exílio (1908-1914) * 1º volume, Jorge Reis, Paris, Nov. de 1987
AQUILINO - Páginas do exílio (1927-1930) * 2º volume, Jorge Reis, Paris, Março de 1988

 Cronologia Sumária de 1907 a 1914  


1907 
  -- Entra para um  canteiro da Carbonária e é admitido no corpo redactorial  da VanguardaColabora igualmente na Voz Pública, do Porto, e em  A BEIRA, de Viseu.
  -- Tendo aceitado esconder um caixote de bombas no seu quarto de hóspede, na Rua de Carrião, no dia 17 de Novembro, foi preso por bombista devido à explosão dos engenhos infernais, que custou a vida ao Dr. Gonçalves Lopes.

1908 
  -- Consegue evadir-se do calabouço do Caminho Novo, na madrugada de 12 de Janeiro, e escondido «nas águas-furtadas dum prédio pombalino a 150 metros da Parreirinha pelas escadinhas de S. Francisco», trava conhecimento com Anatole France e publica, na Ilustração Portuguesa de 27 de Abril, uma crónica intitulada «As Feiras».
  -- A 31 de Maio toma em Lisboa o comboio ronceiro para o Entroncamento a fim de, no dia seguinte, «com valise e monóculo a armar ao janota» subir para o Sud-Express e seguir para Paris. Chega à Cidade-Luz a 3 de Junho e é acolhido pelo pintor Manuel Jardim, na Rue Pierre Nicole, «no coruto de Montparnasse», a dois passos da Clôserie des Lilas e do Bal Bulier.

1909 
  -- Vive no ambiente  dos artistas plásticos e calcorreia passo a passo ruas e boulevards à descoberta desse novo mundo. Reata a colaboração em A BEIRA e na ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA.

1910 
  -- Logo após a Proclamação da República em Portugal, dá uma saltada a Lisboa. Estabelece contacto com A CAPITAL com vista a uma futura colaboração e munido com os seus diplomas regressa a Paris com o fito de ainda se matricular na Faculdade de Letras ness ano lectivo de 1910-1911.
  -- Instalado agora na Rua Descartes, frequenta a Bibliothèque Sainte-Geneviève, onde à ilharga de um ex-vizinho russo -- Monsieur Oulianov -- escreve uma boa parte de JARDIM DAS TORMENTAS.

1911 
  -- Conhece uma sua colega alemã, Grete Tiedemann, de quem se enamora.
  -- Com Manuel Jardim, Anjos Teixeira, Magalhães Lima e Leal da Câmara imagina publicar uma revista destinada a explicar o movimento republicano português à França e a abrir as janelas de Portugal aos ares civilizados da Europa. O seu título seria O GÉNIO LATINO.

1912 
  -- Reside uns meses na Alemanha. Casa-se e dedicará aos sogros o seu primeiro livro que não tardará a ser publicado graças ao empenho de Malheiro Dias.

1913 
  -- Casado de fresco, regressa a Paris, aluga casa na Rue Hallé e mais tarde, na Rue Dareau, para, tranquilamente, prosseguir a sua carreira de jornalista e de «escrevedor de histórias».

1914 
  -- A 26 de Fevereiro, nasce-lhe o primeiro filho, Aníbal Aquilino Fritz Tiedemann Ribeiro.
  -- A 26 de Setembro, regressa a PortugalÉ a Guerra!

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  Cronologia Sumária de 1927 a 1932  

1927 
  -- Toma parte no golpe militar de 7 de Fevereiro contra a Ditadura. Perseguido, refugia-se na Beira e, seguidamente, em ParisNo fim do ano regressa à Soutosa, em virtude do estado de saúde da esposa que falece pouco depois.

1928 
  -- Tenta levantar o Regimento de Pinhel... Preso em Contenças, evade-se «na noite de 15 de Agosto do Presídio Militar de Fontelo, Viseu» e, mais uma vez, torna a Paris, nesse mesmo dia 15 de Agosto.
Silêncios e Memórias: [1696.] ANTÓNIO JOSÉ PEREIRA DE OLIVEIRA E A FUGA DA PRISÃO DE AQUILINO RIBEIRO [I] || AGOSTO DE 1928
http://silenciosememorias.blogspot.com/2018/01/1696-antonio-jose-pereira-de-oliveira-e.html 

1929 
  -- Membro da Liga de Defesa da República.
  -- Percorre os campos de batalha da Flandres. 
  -- Casa-se em Junho, com a Senhora D. Jerónima Rosa Dantas Machado, filha do ex-Presidente Bernardino Machado, figura de destaque entre os exilados portugueses. 
  -- Em Julho, o casal deixa Paris para se instalar em Ustaritz, nos arredores de Baionne.

1930 
  -- Termina e publica O Homem que matou o Diabo.
  -- A 6 de Abril nasce-lhe o segundo filho, Aquilino Ribeiro Machado.
  -- Colabora na Ilustração.

1931 
  -- A família parte para a Galiza: primeiro Vigo e, depois, Tui.
  -- Publica Batalha sem fim.

1932 
  -- Publica, já de regresso semiclandestino a Portugal, As três mulheres de Sansão.


Cartas inéditas de Aquilino Ribeiro a Carlos Malheiro Dias (apresentadas e anotadas por João Bigotte Chorão)


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domingo, 29 de março de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 122) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

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(...) «Resolutamente meteram para a galeria. Nem frémito, nem sombra de vida. A tumultuária vida do mar suspendia-se nos umbrais daquela nave, escrínio da beleza pagã, rebuscada pelos homens de todos os tempos, através dos sulcos da gleba e no pó das cidades mortas. Os heróis e os seres divinos lá estavam erectos nos pedestais de pórfiro e de mármore. Mas não conservavam aquele rigor de formatura, diante da qual as gerações passaram contemplando. Vénus, Tritões e Martes apareciam baralhados em pávida assembleia. 
Os escafandristas removeram as estátuas por cima do ossário, que rangeu e se esfarinhou como grãos de trigo sob a mó. Feito o quê, voltaram dentro à colheita inspirada. E, subitamente, enxergaram no topo da escada, que a mão de Apolo lhes parecia apontar, a Vitória de Samotrácia, alando-se na augusta trirreme. E todos, à uma, se precipitaram para aquele símbolo que significava, submerso, um eclipse no prestígio dos homens.
Dos lados, porém, dois monstros marinhos surgiram fendendo a água e vomitando baba e fogo. Tinham cabeça e crinas de cavalo e barbatanas largas como asas de avião Junker. E, desenrolando-se de anéis duma grossura de robles, não tinha fim a cauda que espadanava entre os mármores.
Descarregaram os mergulhadores as espingardas e, abrigados por detrás de Antínoo e dos frisos de Delfos, despediram-lhes golpes furiosos de machado. E a cauda das serpentes, feridas de morte, derribou as abóbadas e pulverizou os mármores na água ensanguentada. 
Caíram alguns homens, mas os homens venceram. E a ilha verde dos Contins e dos Horner possuiu a Vitória Alada, a Vitória que significava o acúmen do génio helénico, e ficaria agora celebrando a continuidade heróica do esforço humano.
Rosa, que perdera José, as mulheres que perderam os amantes, desfaziam-se em lágrimas. Sereno por entre os soluços duns e os hosanas dos outros, Horner proclamava:
  -- É a vida! É a vida!»

   Paris, 1910-1912.


ANTOLOGIA _ A1 ( I - 121) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»

    

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

(...) «Os escafandros treparam aquela colina maravilhosa, deixando no campo de coral o rasto de passos sobre a neve. E, à entrada do Corredor de Pã, lobrigaram uma bateria inteira de olhos, vidrados e chatos como almofias mourescas, assestada para eles. Era ali que haviam caído os companheiros sob a chicotada tremenda dos cefalópodes. Os monstros lá estavam no covil, depois do banquete na carne dos homens.
A procurar acesso mais propício, os expedicionários abstiveram-se da escalada. E outra vez calcaram as cinzas esparsas dos estilos reais. Estavam obstruídos de vasa, de troncos e caibros decompostos, os largos pórticos; e, na ala direita do palácio, estátuas de homens ilustres mantinham um equilíbrio caprichoso, como desafio à vertigem, em seus nichos e balaustradas.
Impossibilitados novamente de avançar, em conciliábulo decidiram cometer a investida pelo vestíbulo Denon. Ora de rompante, ora marinhando pelo pedregal, treparam a rampa, alta de muitos côvados, entre cardumes de peixes que voavam. Cresceram para eles escorpiões fairando; a machete e chuço os destroçaram e, do lance, as águas se tingiram de sangue.
Por um declive rude e brusco de despenhadeiro, puseram pé na sala que fora o vestiário. O chão parecia calcetado de ossos. O pânico arrebanhara para ali os homens como em enxurrada, e seus esqueletos descreviam, na desordem e no montão, a instantaneidade do cataclismo. Jóias e oiro faiscavam sobre o ossário. Caveiras beijavam-se e caveiras mordiam-se. Tíbias cravavam-se contra o tórax como lanças. Num capacete de couraceiro viam-se entalados os quatro ossos do crânio. A morte arreganhava ali os seus variados rictos de cómica hediondez.» ...


                                          (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 120) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»


I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

(...) «A turma dos escafandros passou adiante, ladeando o plinto monumental, donde os símbolos esculturais haviam voado como folhas de Outono na ventania. E, em face, na penumbra, avultaram em tenaz os dois braços do palácio, no transe de bela e grande ruína atacada já da carcoma.

Cobria aquelas lajes a soturna poeira da morte: tíbias, crânios de homens e de cavalos, farrapos desfigurados de estátuas, boucelos de cornijas. Num esquare erguiam-se ainda esqueletos de árvores lívidas e imóveis numa altitude espectral de zinco. E, nas pernadas, entre as medusas entorpecidas, as aranhas do mar descreviam requebros ligeiros. Um enorme autobus estava ali ao pé, quase intacto, misterioso, e ao volante viam-se ainda falanges descarnadas que se crispavam. Estava a derruir o pavilhão Denon. Uma barricada de destroços tolhia o acesso do vestíbulo e, sobre a aresta das suas paredes esbarrondadas, peixes fantásticos, em rodopio, fustigados pelos feixes luminosos dos projectores, moviam-se num arraial feérico de cores.

No pavilhão Daru, a Sala dos Prisioneiros Bárbaros não era mais que um montão de escombros, envoltos no cobrejão lucilante dos campos de coral. Do pragal assolador apenas emergia, aparição de quietude, a cabeça de Minerva.» ...

                                                (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 119) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»

 

 Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

(...) «Por muito tempo, a bordo do steamer se ignorou a sorte dos atrevidos pioneiros. E, subitamente, o alarme soou, alarme frenético em que batiam as pulsações todas da angústia.
Içaram-se os mergulhadores; apenas dois despontaram à flor das ondas. E, trémulos com o que tinham visto, contaram que o velho palácio dos reis e das civilizações era toca duma fauna gigantesca, em tudo monstruosa, que ceifara de um só golpe os companheiros.
Entretanto, nova frota de aviões voou direito à turma sinistrada, varada ainda de dor e de assombro. E segundo piquete se organizou, mais forte, armado de carabinas, alfanges e lâmpadas de grande raio, e desceu ao fundo do mar, guiado pelos informes dos batiscalfos.
Apearam num jardim esplêndido em que as estátuas derrubadas ou partidas contavam o que fora a raiva destrutiva dos elementos desencadeados e a fraqueza das coisas humanas. Sátiros, ninfas e heróis haviam sido cuspidos de seus pedestais; à mistura, rolavam caveiras; viam-se juntos uma espada e um par de socos do Auvernhe. Qual delas seria a do brilhante oficial e qual a do humilde auvernhata? O arco do triunfo no Carrousel estirava-se sobre o flanco, arrombado como caixa de papelão. Jaziam por terra, mutilados, esfacelados, os soldados imperiais e a arrogante quadriga de bronze -- imagem dum post-batalha com mil corvos a cevar-se no mortulho. E, em volta das colunas coríntias de mármore cor-de-rosa, enroscavam-se hidras e moluscos nojentos.» ...


                                               (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 118) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Revolução»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].

(...) «Manhã cedo despertou a ilha, que fora o pico árido dum monte. Dos seus habitadores, uns tresmalharam pelos campos, conduzindo locomóveis e charruas de lesto rodar; outros foram para as oficinas; aqueles, ainda, montaram os dóceis hidroaviões, acenderam as caldeiras dos velozes steamers, e abalaram, mar fora, a continuar na faina que, dia a dia, lhes restituía o glorioso tesoiro da civilização submersa.
Pacientemente, haviam esvaziado alguns palácios do precioso recheio. Uma fábrica inteira tinha sido arrancada dos limos peça por peça, e erguia-se agora, excelsa sobre a terra, os seus motores, ao atroar os espaços, erguendo um canto altivo à audaz porfia dos homens. Laboratórios inteiros foram reconstituídos com seus maquinismos obedientes e intrincados, bem como os museus famosos, em que ressurgiam os mais delicados e soberanos lavores das eras antigas, salvos do imensurável túmulo.
Assim, naquele dia, a esquadrilha aérea e a esquadrilha naval tinham por missão procurar as ruínas duma das cidades mais faustosas que haviam existido no passado. O maremoto, que se seguira à catástrofe, tinha invadido a planície, e ela soçobrara debaixo das águas com seus bairros, parques e avenidas. As marés continuavam a levantar despojos, zimbórios de palácios, cofres antigos, vagões luxuosos e carros, onde os ossos chocalhavam como tentos de jogar. Os homens pesquisavam a grande metrópole, porfiando em reaver os seus sábios e artísticos tesouros. E era um exército inteiro que a ia acordar, entorpecida debaixo das algas e polipeiros.
Os hidroaviões voejaram, tornejaram, de olhos folheando as espelhentas águas. E, logo que divisaram o velho palácio encantado, que tinham em mira reconhecer, baixaram do voo sobre as ondas. Os barcos acudiram, e uma turma de homens equipou-se e desceu aos abismos.»
...


                                                                     (continua)

JOÃO ABEL MANTA

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