Santo Amaro de Oeiras, Abril de 1923.
I - Jardim das Tormentas. 1913. Contos [onze].



Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca» [Aquilino Ribeiro]






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Correção:
«... em Paris e em Berlim, cidades de exílio»

AQUILINO - Páginas do exílio (1908-1914) * 1º volume, Jorge Reis, Paris, Nov. de 1987
AQUILINO - Páginas do exílio (1927-1930) * 2º volume, Jorge Reis, Paris, Março de 1988
Cronologia Sumária de 1907 a 1914
1907
-- Entra para um canteiro da Carbonária e é admitido no corpo redactorial da Vanguarda. Colabora igualmente na Voz Pública, do Porto, e em A BEIRA, de Viseu.
-- Tendo aceitado esconder um caixote de bombas no seu quarto de hóspede, na Rua de Carrião, no dia 17 de Novembro, foi preso por bombista devido à explosão dos engenhos infernais, que custou a vida ao Dr. Gonçalves Lopes.
1908
-- Consegue evadir-se do calabouço do Caminho Novo, na madrugada de 12 de Janeiro, e escondido «nas águas-furtadas dum prédio pombalino a 150 metros da Parreirinha pelas escadinhas de S. Francisco», trava conhecimento com Anatole France e publica, na Ilustração Portuguesa de 27 de Abril, uma crónica intitulada «As Feiras».
-- A 31 de Maio toma em Lisboa o comboio ronceiro para o Entroncamento a fim de, no dia seguinte, «com valise e monóculo a armar ao janota» subir para o Sud-Express e seguir para Paris. Chega à Cidade-Luz a 3 de Junho e é acolhido pelo pintor Manuel Jardim, na Rue Pierre Nicole, «no coruto de Montparnasse», a dois passos da Clôserie des Lilas e do Bal Bulier.
1909
-- Vive no ambiente dos artistas plásticos e calcorreia passo a passo ruas e boulevards à descoberta desse novo mundo. Reata a colaboração em A BEIRA e na ILUSTRAÇÃO PORTUGUESA.
1910
-- Logo após a Proclamação da República em Portugal, dá uma saltada a Lisboa. Estabelece contacto com A CAPITAL com vista a uma futura colaboração e munido com os seus diplomas regressa a Paris com o fito de ainda se matricular na Faculdade de Letras ness ano lectivo de 1910-1911.
-- Instalado agora na Rua Descartes, frequenta a Bibliothèque Sainte-Geneviève, onde à ilharga de um ex-vizinho russo -- Monsieur Oulianov -- escreve uma boa parte de JARDIM DAS TORMENTAS.
1911
-- Conhece uma sua colega alemã, Grete Tiedemann, de quem se enamora.
-- Com Manuel Jardim, Anjos Teixeira, Magalhães Lima e Leal da Câmara imagina publicar uma revista destinada a explicar o movimento republicano português à França e a abrir as janelas de Portugal aos ares civilizados da Europa. O seu título seria O GÉNIO LATINO.
1912
-- Reside uns meses na Alemanha. Casa-se e dedicará aos sogros o seu primeiro livro que não tardará a ser publicado graças ao empenho de Malheiro Dias.
1913
-- Casado de fresco, regressa a Paris, aluga casa na Rue Hallé e mais tarde, na Rue Dareau, para, tranquilamente, prosseguir a sua carreira de jornalista e de «escrevedor de histórias».
1914
-- A 26 de Fevereiro, nasce-lhe o primeiro filho, Aníbal Aquilino Fritz Tiedemann Ribeiro.
-- A 26 de Setembro, regressa a Portugal: É a Guerra!
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(...) «Resolutamente meteram para a galeria. Nem frémito, nem sombra de vida. A tumultuária vida do mar suspendia-se nos umbrais daquela nave, escrínio da beleza pagã, rebuscada pelos homens de todos os tempos, através dos sulcos da gleba e no pó das cidades mortas. Os heróis e os seres divinos lá estavam erectos nos pedestais de pórfiro e de mármore. Mas não conservavam aquele rigor de formatura, diante da qual as gerações passaram contemplando. Vénus, Tritões e Martes apareciam baralhados em pávida assembleia.
Os escafandristas removeram as estátuas por cima do ossário, que rangeu e se esfarinhou como grãos de trigo sob a mó. Feito o quê, voltaram dentro à colheita inspirada. E, subitamente, enxergaram no topo da escada, que a mão de Apolo lhes parecia apontar, a Vitória de Samotrácia, alando-se na augusta trirreme. E todos, à uma, se precipitaram para aquele símbolo que significava, submerso, um eclipse no prestígio dos homens.
Dos lados, porém, dois monstros marinhos surgiram fendendo a água e vomitando baba e fogo. Tinham cabeça e crinas de cavalo e barbatanas largas como asas de avião Junker. E, desenrolando-se de anéis duma grossura de robles, não tinha fim a cauda que espadanava entre os mármores.
Descarregaram os mergulhadores as espingardas e, abrigados por detrás de Antínoo e dos frisos de Delfos, despediram-lhes golpes furiosos de machado. E a cauda das serpentes, feridas de morte, derribou as abóbadas e pulverizou os mármores na água ensanguentada.
Caíram alguns homens, mas os homens venceram. E a ilha verde dos Contins e dos Horner possuiu a Vitória Alada, a Vitória que significava o acúmen do génio helénico, e ficaria agora celebrando a continuidade heróica do esforço humano.
Rosa, que perdera José, as mulheres que perderam os amantes, desfaziam-se em lágrimas. Sereno por entre os soluços duns e os hosanas dos outros, Horner proclamava:
-- É a vida! É a vida!»
Paris, 1910-1912.
(...) «Os escafandros treparam aquela colina maravilhosa, deixando no campo de coral o rasto de passos sobre a neve. E, à entrada do Corredor de Pã, lobrigaram uma bateria inteira de olhos, vidrados e chatos como almofias mourescas, assestada para eles. Era ali que haviam caído os companheiros sob a chicotada tremenda dos cefalópodes. Os monstros lá estavam no covil, depois do banquete na carne dos homens.
A procurar acesso mais propício, os expedicionários abstiveram-se da escalada. E outra vez calcaram as cinzas esparsas dos estilos reais. Estavam obstruídos de vasa, de troncos e caibros decompostos, os largos pórticos; e, na ala direita do palácio, estátuas de homens ilustres mantinham um equilíbrio caprichoso, como desafio à vertigem, em seus nichos e balaustradas.
Impossibilitados novamente de avançar, em conciliábulo decidiram cometer a investida pelo vestíbulo Denon. Ora de rompante, ora marinhando pelo pedregal, treparam a rampa, alta de muitos côvados, entre cardumes de peixes que voavam. Cresceram para eles escorpiões fairando; a machete e chuço os destroçaram e, do lance, as águas se tingiram de sangue.
Por um declive rude e brusco de despenhadeiro, puseram pé na sala que fora o vestiário. O chão parecia calcetado de ossos. O pânico arrebanhara para ali os homens como em enxurrada, e seus esqueletos descreviam, na desordem e no montão, a instantaneidade do cataclismo. Jóias e oiro faiscavam sobre o ossário. Caveiras beijavam-se e caveiras mordiam-se. Tíbias cravavam-se contra o tórax como lanças. Num capacete de couraceiro viam-se entalados os quatro ossos do crânio. A morte arreganhava ali os seus variados rictos de cómica hediondez.» ...
(continua)
(...) «Por muito tempo, a bordo do steamer se ignorou a sorte dos atrevidos pioneiros. E, subitamente, o alarme soou, alarme frenético em que batiam as pulsações todas da angústia.
Içaram-se os mergulhadores; apenas dois despontaram à flor das ondas. E, trémulos com o que tinham visto, contaram que o velho palácio dos reis e das civilizações era toca duma fauna gigantesca, em tudo monstruosa, que ceifara de um só golpe os companheiros.
Entretanto, nova frota de aviões voou direito à turma sinistrada, varada ainda de dor e de assombro. E segundo piquete se organizou, mais forte, armado de carabinas, alfanges e lâmpadas de grande raio, e desceu ao fundo do mar, guiado pelos informes dos batiscalfos.
Apearam num jardim esplêndido em que as estátuas derrubadas ou partidas contavam o que fora a raiva destrutiva dos elementos desencadeados e a fraqueza das coisas humanas. Sátiros, ninfas e heróis haviam sido cuspidos de seus pedestais; à mistura, rolavam caveiras; viam-se juntos uma espada e um par de socos do Auvernhe. Qual delas seria a do brilhante oficial e qual a do humilde auvernhata? O arco do triunfo no Carrousel estirava-se sobre o flanco, arrombado como caixa de papelão. Jaziam por terra, mutilados, esfacelados, os soldados imperiais e a arrogante quadriga de bronze -- imagem dum post-batalha com mil corvos a cevar-se no mortulho. E, em volta das colunas coríntias de mármore cor-de-rosa, enroscavam-se hidras e moluscos nojentos.» ...
(continua)
(...) «Manhã cedo despertou a ilha, que fora o pico árido dum monte. Dos seus habitadores, uns tresmalharam pelos campos, conduzindo locomóveis e charruas de lesto rodar; outros foram para as oficinas; aqueles, ainda, montaram os dóceis hidroaviões, acenderam as caldeiras dos velozes steamers, e abalaram, mar fora, a continuar na faina que, dia a dia, lhes restituía o glorioso tesoiro da civilização submersa.
Pacientemente, haviam esvaziado alguns palácios do precioso recheio. Uma fábrica inteira tinha sido arrancada dos limos peça por peça, e erguia-se agora, excelsa sobre a terra, os seus motores, ao atroar os espaços, erguendo um canto altivo à audaz porfia dos homens. Laboratórios inteiros foram reconstituídos com seus maquinismos obedientes e intrincados, bem como os museus famosos, em que ressurgiam os mais delicados e soberanos lavores das eras antigas, salvos do imensurável túmulo.
Assim, naquele dia, a esquadrilha aérea e a esquadrilha naval tinham por missão procurar as ruínas duma das cidades mais faustosas que haviam existido no passado. O maremoto, que se seguira à catástrofe, tinha invadido a planície, e ela soçobrara debaixo das águas com seus bairros, parques e avenidas. As marés continuavam a levantar despojos, zimbórios de palácios, cofres antigos, vagões luxuosos e carros, onde os ossos chocalhavam como tentos de jogar. Os homens pesquisavam a grande metrópole, porfiando em reaver os seus sábios e artísticos tesouros. E era um exército inteiro que a ia acordar, entorpecida debaixo das algas e polipeiros.
Os hidroaviões voejaram, tornejaram, de olhos folheando as espelhentas águas. E, logo que divisaram o velho palácio encantado, que tinham em mira reconhecer, baixaram do voo sobre as ondas. Os barcos acudiram, e uma turma de homens equipou-se e desceu aos abismos.» ...
(continua)
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