Foi perto de um monte árido, rijo e infecundo, vão e nu, disforme e escalvado, odiado pela natureza, onde nem aves nem animais habitam, nem existem límpidos rios ou vivas fontes, nem galhos que sussurrem com o vento, e que por nome tomou Monte Félix, por antífrase de Monte Infeliz. A natureza colocou-o não longe de onde a Abissínia é separada do deserto arábico pelo Mar Vermelho, em cuja margem ocidental foi em tempos fundada a cidade de Berenice.
Dali se avista o cabo em que termina a costa africana vinda do sul, chamado Cabo dos Aromas. Dos Aromas na Antiguidade, pois com o tempo a língua dura e tosca dos habitantes locais apôs-lhe outro nome. Aqui o meu destino implacável me trouxe um dia, ao estreito por onde as águas passam céleres. Nesta zona do mundo tão distante, hostil e adversa, quis o Fado que da minha breve vida ali gastasse um também breve tempo, para que ela fosse dividida pelas várias partes do mundo.
Aqui me encontrei consumindo dias infelizes. Amargurados, coagidos, funestos e sós, plenos de aflição, de mágoa, e de raiva: eram meus inimigos não só a vida, o sol candente, as águas gélidas, os ares insalubres, húmidos e pesados, mas até os meus pensamentos, com que me poderia evadir da realidade, viraram-se igualmente contra mim, avivando-me a memória desses dias mais felizes, embora fugazes, que outrora passei. Isto para me duplicar o sofrimento, mostrando-me que também existem no mundo tantas horas de felicidade.
Aqui estive eu perdendo o meu tempo e a minha vida com as minhas cogitações. E tão alto elas me erguiam nas asas do pensamento, que eu me despenhava (atentai quão grande era a queda) de alegrias sonhadas e vãs, no desespero de não as ver chegar jamais. Tanta meditação levava-me a prantos e lamentações que cortavam os ares. Aqui a minha alma prisioneira estava em sangue e em ferida, cercada só por penas e aflições, à mercê dos golpes de um Destino cruel, feroz, implacável e tenaz.
O corpo também não tinha onde repousar, nem esperava já achar lugar onde pudesse descansar a cabeça. Tudo lhe era penoso e motivo de sofrimento. Mas não de morte, para que sofresse até ao fim o que o Fado acirrado lhe decretara. Parece até que consigo amansar este mar revolto com os meus choros, e até a ventania amaina. Somente o Céu rigoroso, os astros e o destino sempre atroz se divertem a perseguir-me constantemente, mostrando-se poderosos e enraivecidos contra um ínfimo animal terrestre.
Se como resultado de todo este sofrimento pelo menos eu soubesse que a bem-amada de olhos belos se recordava de mim; que esta voz magoada chegaria aos ouvidos angelicais daquela em cuja vista eu vivia; e que ela, refletindo um pouco, reviveria os tempos idos dos meus verdores da mocidade, dos meus prazenteiros males e desvarios por ela sofridos e desejados, e, mesmo que demasiado tarde, algo lamentaria por ter sido tão distante para comigo.
Bastar-me-ia isto saber para alcançar a paz para o resto da minha vida e aliviar os meus males. Ah, Senhora, Senhora. E tão poderosa sois que as vossas deliciosas falsidades me alimentam. Assim que penso em vós, logo se desanuviam as agruras e as dores, e só por lembrar-me de vós volto a sentir-me forte e valoroso contra a face assustadora da própria morte; e logo ganho a esperança de que, recuperada a serenidade mental, o meu grande sofrimento por vós se transforme em doces e ternas saudades.
E com as saudades me acho perguntando por vós aos amoráveis ventos que passaram pelo lugar onde estáveis; às aves que perto de vós voaram, se vos viram, em que vos ocupáveis, o que dizíeis, onde, como, a quem e a que dia e hora. Assim se abranda a fadiga da vida, que se revigora para vencer a sorte e as agruras só pela esperança de rever-vos, servir-vos e desejar-vos. E o tempo diz-me que não há mal que nunca acabe: mas o desejo inflamado que nunca cessa, esse volta sem contemplações a abrir-me as feridas à dor.
E assim vivo eu; e se te perguntarem, Canção, porque não morro, deves responder-lhes que estou vivo morrendo de amor.
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