(...) «Logo que Azagaia sossegou, o cavaleiro disse:
-- Vamos lá! O seu, menina, é realmente um animal catita, mas contra este é como a ovelha para a gazela. Custa-lhe a mão de sua filha, senhor D. Beltrão de Montalvo.
-- Basta de insolências! -- trovejou o fidalgo.
-- Partamos! -- proferiu o facecioso troquilhas por entre dentes.
Abalaram os dois corcéis; logo às primeiras upas Azagaia deixou adiantar Vingança a perder de vista; a sua inferioridade foi tão manifesta que o mais subtil letrado, da escola tomística, não saberia sofismá-la.
Satisfeito em realizar os desejos, ainda que agastado pela derrota, propôs D. Beltrão:
-- Pode entregar as rédeas, que vão ser-lhe contados os seis mil cruzados...
-- Seis mil cruzados?! Mais me custou a criação.
-- Sejam oito mil.
-- Puh! Pouco menos que isso gastam à manjedoira.
-- Homem, essa! Comem pérolas... caviar?
-- Comem erva e fava... e até grão, mas há seis veterinários ao seu serviço, e todas as manhãs vem esse grande proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira que lhes palpa a mouçó, lhes coça as partes, lhes examina a espéculo o ânus, como faz ao seu rei...
-- Dez mil, quer?
-- Mais gastei a adestrá-los.
-- Quanto pede?
-- Quanto já pedi, senhor D. Beltrão.
O fidalgo, engasgado de cólera após estas palavras atrevidas, chamou a criadagem, que era um exército. Arrancaram as rédeas das mãos dos pajens e, a um sinal de D. Beltrão, o mordomo desatou uma barriguda saca de coiro. E, enquanto contava dez mil cruzados ao cavaleiro, que sorria, o fidalgo proferiu, abanando a cabeça em ameaça:
-- Podia-lhe fazer amargar as impertinências, senhor... senhor quê? Vamos, senhor coudel, e, vê, mando-o em paz com a quantia que ofereci. Dez mil cruzados, Baptista, nem mais um ceitil... Já sabia, não tem que se queixar. Vá... vá, diga o que quiser, mas não esqueça que muito paciente foi D. Beltrão Montalvo de Trastâmara, do ramo lusitano de Riba-Doiro, estreme de malado e bastardia!
Para coroar a façanha, D. Beltrão convidou Floripes e o noivo, que assistira embasbacado a todos os lances, a montarem os estranhos corcéis. Ele cavalgou Vingança, Floripes Relâmpago e o morgado Tigre. Mas antes que dessem brida, ouviu-se zumbir no ar um assobio cadenciado e musical e os cavalos arrancaram. À carga cerrada, primeiro, nem demónios a fugir para o meio do inferno. Depois os lacaios viram-nos tresmalhar e correr para a linha do horizonte como galgos endiabrados. Quando volveram olhos para o que estava à sua volta, cavaleiros e pajens dos cavalos enfeitiçados haviam desaparecido. Azagaia corria em roda, crinas eriçadas, nitrindo lamentosamente, mais desesperado que a burra de Balaão antes de conseguir convencer o amo dos verdadeiros desígnios de Deus.»... (continua)
Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca» [Aquilino Ribeiro]
terça-feira, 24 de março de 2026
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 55) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»
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