terça-feira, 24 de março de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»


I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:
  -- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Algarves, que não há-de ser preciso pedir-se auxílio a Inglaterra, e trazei-me o meu servidor. As alvíssaras são de tentar...
  -- Não me encanta a riqueza.
  -- Outras mercês vos serão dadas.
  -- Outras... de vós, meu amo, as boas graças me bastam. Sou rico, louvores a Deus, e a minha fidalguia toca em Covadonga e no Duque de Fanhões.
  -- Que vo-las dê então D. Floripes -- pronunciou el-rei num assomo de enfadamento perante tal prosápia.
  -- Dela as aceitarei de bom grado.
  -- Pois que vo-las dê!
  -- Que lhe posso eu dar, nobre senhor? -- perguntou Floripes.
D. Raimundo, sem tornar resposta, envolveu-a num longo olhar que, para ser terno, só lhe faltava a languidez dos poetas que deram aqui há anos a alma ao Criador, com o verso de pé quebrado.
  -- Meus moinhos que moem prata?
  -- !
  -- Três quintas, onde se criam nabos que põem o ramo no mercado, sitas mesmo à beira-mar?
  -- O meu castelo da Lobata?
  -- !
  -- As minhas jóias sem par?
  -- !
  -- Que prémio desejais, senhor?
As damas, que o sentiam insatisfeito, ofereceram uma a uma as suas prendas:
  -- Dou uma colcha de Sofala.
  -- E eu, um corcel arreado.
  -- Eu, um brilhante e uma opala.
  -- Um punhal, eu, adamascado.
  -- Um gomil de oiro para se lavar.
  -- Toalhas de damasco e lhama para se limpar.
  -- Pedi por boca, homem de Deus ou de Satanás...!
El-rei disse, notando a leve melancolia de que parecia ensombrar-se a figura de D. Raimundo:
  -- Estareis vós enamorado?
  -- Real senhor, assim quis minha sina.
  -- De D. Floripes?
  -- Sim, de D. Floripes.
  -- Estava a dizer-me o dedo mindinho. Já vai nos trinta... Para quem está ela a guardar-se...?! Que fale, eu a autorizo...
Entre soluços, pálida, a donzela proferiu:
  -- Se outro prémio vos não seduz, será vossa a minha mão. Mas fazei-me a mercê de escolher melhor...
D. Raimundo abanou a cabeça:
  -- Nenhum outro me seduz.
Tudo assente, e já noivo de Floripes, partiu dali o cavaleiro à testa de poderosa milícia. E, volvidos muitos dias, regressou, trazendo após rija referta com os bandoleiros, segundo contaram testemunhas que não arredaram da corte, o nobre senhor de Montalvo. Vinha o mesmo, como sempre orgulhoso e fero, mais crescidos apenas os cabelos no cachaço e na venta, e as unhas com que se coçava.» ...

                                                                                                     (continua)


"Verso de pé quebrado"

• [Literatura] O que peca contra as regras usuais de métrica ou de ritmo."verso", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2024, https://dicionario.priberam.org/verso.

https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/consultorio/perguntas/verso-de-pe-quebrado/9416 
 
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verso
substantivo masculino
1. Rubrica: versificação.
subdivisão de um poema, ger. coincidindo com uma linha do mesmo, que obedece a padrões de métrica (pése de rima (variáveis no tempo e no espaço), ou prescinde deles (versos brancos e livres), caracterizando-se por possuir certa linha melódica ou efeitos sonoros, além de apresentar unidade de sentido.
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 59) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Como el-rei tivesse grande estima por seu fiel vassalo D. Beltrão de Montalvo, mandou pregoar por cidades e lugares do reino uma recompensa de dez mil cruzados a quem lhe trouxesse com vida o nobre desaparecido. Acorreram príncipes das sete partidas, militares e aventureiros de ofício, e luzida e valorosa cavalgada partiu a bater os montes. Floripes, que se acolhera à corte em corpo bem feito de açafata, celebrada por uns, adorada por outros, grata a todos, chorava noite e dia, não havendo lenimemto de palavras, piscadela de olhos, toque de bandurras, odes votivas de poetas que lhe minorassem a paixão.
Ao cabo de ano, contado hora a hora pelas suas lágrimas, voltaram os expedicionários um a um, estropiados e desiludidos. A ninguém fora dado ganhar a alta e perigosa cartada de dez mil cruzados. Só um faltava: o alferes, mas desse não havia novas certas. Sabia-se que porfiava, e a ideia deste sacrifício passava na alma de Floripes como vaporoso e suave bálsamo. Continuamente, perguntava em seu cismar: 
  -- Trá-lo-á o bom alferes? E que bravo e simpático homem! Nem mesmo tilintava com o sabre!
E passaram meses, e passou outro ano, sem lhe chegar rumor dele, ou do pai.
Estavam perdidas as esperanças quando, a hora inesperada, um fidalgo arraiano pediu audiência a el-rei, nestes termos:
  -- D. Raimundo de Resquitela, de parte de D. Beltrão de Montalvo.
Alvoroçou-se a corte que tal ouviu, e o fidalgo fronteiriço foi chamado.
  -- Julguei que era extinta a estirpe dos Resquitelas -- observou el-rei para o camareiro. -- Se o não é, anda certamente abastardada. Estes plebeus metem-se como piolho na púrpura. Há-de ser preciso esborrachá-los não entre as unhas dos dois polegares, como contam que se via na corte de D. Carlota, mas a cachamorra.
Disse el-rei para D. Raimundo de Resquitela, homem dos quarenta, cara dura torrada do suão dos altos, mal foi introduzido:
  -- O meu castelão não é descendente daquele D. Abúndio de Resquitela, homem terso e duro, das hostes do bem-aventurado D. Nuno, que salgava os fígados dos castelhanos, e os dava a comer em chouriços aos vilões?
  -- É essa uma tradição fabulosa, senhor, inventada por um historiador espanhol, falho de imaginação. Mas sou, sou tetraneto desse valente espadeiro.
  -- Sabeis então onde está D. Beltrão?
  -- Sim, real senhor.
  -- Onde está e porque não veio convosco?
  -- Era arriscado empreendimento, para mim só, trazê--lo...
  -- Dar-vos-ei uma força. E onde pára?
  -- Numa serra, distante cinco léguas, das velhas do castelo que me foi berço. Onde só alcançam as águias...» ...

                                                                                                           (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 58) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

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«Sentaram-nas nos joelhos e em deleitoso colóquio e bebendo vinhos generosos, que não eram dos mata-ratos fabricados em Cale ou Brachium Argentum, entretiveram o serão. O soldado galanteava a loira e seduzia a morena. Seus olhos diziam a uma: amo-te, e à outra: fosse eu rei, fazia-te rainha. E tão discretamente procedia que uma supunha: é a mim que ele ama! e a outra acreditava: está mesmo pelo beiço!
Cantavam já os galos e o alferes de cavalos propôs: 
  -- Vá; cada uma escolha o seu galã.
  -- Eu quero o soldado! -- gritou uma.
  -- Eu quero o soldado! -- exclamou outra.
Ficaram os dois interditos perante situação tão caprichosa. O soldadinho falou primeiro:
  -- Não tem siso o que dizeis. Eu não me posso partir e, já que ambas me elegestes, nenhuma, nem ambas, posso eu querer. Se vos quisesse a ambas, ofenderia o meu alferes; se preferisse uma, magoaria a outra.
Foram-se por donde vieram, cismando o alferes:
  -- A conquistar moças é homem, mas o seu desapego é de mulher; carambinha, minha Nossa Senhora, grande mistério há aqui!
Temerariamente se aventurou o alferes com o destacamento aos lugares mais ermos e selvagens. No meio dos bosques encontraram por fim os bandidos e rija peleja se travou. Nela caíram muitos combatentes dum lado e doutro e entre eles o soldadinho. Largou o alferes o mais aceso da luta para ampará-lo, pedindo-lhe ele em voz entrecortada:
  -- Enterrem-me vestido como estou.
O oficial volveu com grande cólera e dor ao combate e, mal os bandidos foram desalojados, o seu primeiro cuidado foi conduzir a ordenança para uma cabana que ali havia. Ao examinar-lhe as feridas do colo, longe da ardilosa curiosidade que o perseguia, depararam-se-lhe, como uma peanha à medalha em que figurava D. Beltrão de rabona, calção e cabeleira de canudos, dois seios formosíssimos de donzela, como seriam pombos brancos e gémeos, comprimidos, comprimidos, mesmo agachadinhos de medo numa condessinha. E reconhecendo que tinha diante de si D. Floripes de Montalvo, sentiu a alma presa de grande comoção e enternecimento. E, a partir daquele instante, pôs-se a amá-la com delicado e recatado amor.» ...

                                                                                                      (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 57) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

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«Nasceram certas dúvidas no espírito do oficial quanto àquele maduro de soldado; mas os modos fidalgos do demonico acobardavam-no de tentar uma inquirição a fundo. Reservou-se, todavia, observá-lo e consigo foi ruminando:
  -- Raios partam o Diabo! As mãos parecem de rapariga, mas o alento é varonil. A voz é de donzela, mesmo uma donzela virgoleira, mas o garbo de cavaleiro. Uma destas?! Não sendo homem, não sendo mulher, só querubim.
Ao primeiro combate que sustentaram, o soldadinho foi freneticamente destemido. Era o ginete dele que corria na dianteira e a espada dele a mais afoita a acutilar. Um dos bandidos viu pela última vez a lua estanhada; o golpe fora, porém, tão penetrante que nem um suspiro lhe puderam apurar da gorja de moribundo. E a malta desapareceu entre as serranias, sem dar azo a desvendar-se o destino desconcertador do senhor de Montalvo. O soldadinho, que tão ousado se mostrara durante a refrega, pôs -se a chorar em fonte, e o alferes disse de novo para consigo:
  -- Tinha graça se fosse mulher!
Porque a combater era um alemão, e a chorar uma menina. Resolveu por isso experimentá-lo, e com esse fim levou-o a uma feira. Passando diante das tendas, onde se vendia oiro lavrado, disse-lhe:
  -- Formosas jóias, amigo. Não gostas?
O soldado desviou o olhar de brincos e trancelins para os cutileiros:
  -- Formosas, não há que ver. Mas eu cá aprecio mais daquilo, aquelas facas de mato e os alfanges de guerra.
As mulheres adoram os enfeites -- considerou o oficial -- e o soldado prefere as armas. Será homem? Mas que ratão!
Uma tarde, que acamparam nas cercanias de grande terra, o alferes veio ao encontro do soldadinho e, batendo-lhe no ombro, perguntou: 
  -- Sabes ser discreto?
  -- Como um morto.
  -- Gostas de mulheres?
  -- Como um turco.
  -- Vem daí. Eu sei de duas beldades, meias pecadoras, de se lhes lamber o beiço, que não terão dúvidas de nos abrir a porta.
Galoparam os dois à rédea solta, cada um mais veloz que o outro, porque as duas tiranas moravam algures num palacete que lhes oferecera certo rajá e elas tinham convertido em afrodision. Uma delas, muito esbelta e composta, tinha tez e cabelos da cor do trigo a sazonar; a outra, miudinha e enxuta, era morena e a íris dos seus olhos reluzia mais que a baga preta do loureiro.» ...
                                                                                                                   (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 56) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...)«Por ordem de el-rei, uma força partiu a bater as serranias do Norte, que os bandidos infestavam, e onde se presumia guardassem em reféns o mui nobre e leal senhor D. Beltrão.
Era ponto de fé que longa e engenhosa traça, com o fim de roubar e matar, explorando a soberbia do fidalgo, fora aquela dos cavalos que corriam mais que o vento. Se ele era a única vítima, a grande milagre deviam Floripes e o morgado a salvação. À pequena valera-lhe enfiar o cavalo por um tremedal, e ao noivo ser cuspido da sela, embora a troco de duas costelas partidas. Ela chorava, o morgado ria, agradecendo aos santos ter escapado a tais alhadas, comendo agora as boas alheiras dos seus cerdos, temperadas a verdasco de Santo Tirso, oferta congratulatória do abade da freguesia.
Ignorava-se, de todo, a sorte de D. Beltrão, posto corressem rumores de que, roubando-lhe a liberdade, lhe houvessem poupado a vida e terem-no de conserva a engordar como um peru que havia de dar para os gastos da consoada.
Floripes chorava noite e dia, agastando-se sem repouso a espreitar o horizonte por onde os soldados podiam voltar dum momento para o outro, mas não voltavam, com o paizinho resgatado. Ao cabo de largo mês, só o alferes apareceu, crivado de dardos, tendo perdido metade da gente em peleja com os bandidos.
Ficou el-rei muito em cólera com a notícia do desastre e, por sua ordem, depois de um conselho de ministros a que foi chamado a dar seu parecer o proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira, que metia nas Pandectas o mesmo nariz sábio com que especulava a madre das éguas reais, segunda e bem equipada expedição se organizou. Estava esta para abalar quando, em ardido galope, se apresentou um moço imberbe e de elegante parecer por baixo do uniforme da ordem:  -- Eis a minha guia de marcha.
O alferes, reparando na bela afoiteza do adolescente, interrogou admirativo:
  -- Soldado raso?
  -- Porque não?
  -- Pensaste bem nos trabalhos que vais ter?
  -- Não olho a isso; sou tropa como os mais.
O alferes, depois de ler a guia, tornou:
  -- Mas porque te alistas tu, rapaz, numa expedição donde não vem glória e só riscos?
  -- É segredo, meu alferes.
Partiram. O soldadinho era dos mais animosos na marcha, embora fosse de parecer melancólico e reservado. Mas as suas finas maneiras de pronto cativaram a soldadesca e não menos o alferes, que o escolheu para ordenança.» ...                     
                                                                                                                (continua)

Pandectas imagem comentarios.pnghttps://books.google.pt/books?id=Vo44AQAAMAAJ&printsec=frontcover&redir_esc=y#v=onepage&q&f=false 

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https://jornal.usp.br/cultura/professores-da-usp-editam-o-pandectas-de-justiniano/ 

Professores da USP editam o “Pandectas”, de Justiniano

Maior obra jurídica do imperador bizantino é lançada pela primeira vez em língua portuguesa

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O Pandectas, de Justiniano, em língua portuguesa: no total, obra terá sete volumes – Foto: Reprodução

«O governo do imperador Justiniano (482-565), que comandou o chamado Império Romano do Oriente por 38 anos – desde 527 até sua morte –, foi marcado por grandes realizações e por iniciativas típicas de um déspota intransigente. Se, por um lado, abafou com mão de ferro revoltas como a de Nike, instituiu pesados impostos nas terras sob seu domínio, baniu o Talmude das sinagogas e, em 529, fechou a Academia de Platão, em Atenas, por outro lado, ele levou às maiores alturas a glória do Império Bizantino, com sede em Constantinopla – hoje Istambul, na Turquia –, expandiu o seu território por todo o Mediterrâneo e, na tentativa de preservar os costumes e tradições do outrora onipotente Império Romano dos césares, legou ao mundo um documento jurídico que está na base do direito civil das nações ocidentais: o Pandectas ou Digesto.

Esse documento é uma compilação do direito romano elaborada por uma comissão de 17 juristas instituída por Justiniano. Durante três anos, essa comissão analisou 2 mil livros, para deles extrair comentários de juristas romanos sobre direito civil – como os celebrados Ulpiano (150-223) e Paulo (180-235) –, feitos ao longo de 1.300 anos. O trabalho resultou em 50 livros na versão final, que foram reunidos sob o nome de Pandectas ou Digesto e promulgados por Justiniano no dia 16 de dezembro de 533. Em vigor por quase mil anos em Constantinopla – até a tomada da cidade pelos turcos, em 1453 –, essa obra influencia o direito ocidental até hoje. No Brasil, ela é a base de aproximadamente 4/5 do Código Civil, de 2002.»

Digesto ou Pandectas, do imperador Justiniano, volumes I, II e III, tradução de Manoel da Cunha Lopes e Vasconcellos, Editora YK.

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 55) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»


(...) «Logo que Azagaia sossegou, o cavaleiro disse: 
  -- Vamos lá! O seu, menina, é realmente um animal catita, mas contra este é como a ovelha para a gazela. Custa-lhe a mão de sua filha, senhor D. Beltrão de Montalvo.
  -- Basta de insolências! -- trovejou o fidalgo.
  -- Partamos! -- proferiu o facecioso troquilhas por entre dentes.
Abalaram os dois corcéis; logo às primeiras upas Azagaia deixou adiantar Vingança a perder de vista; a sua inferioridade foi tão manifesta que o mais subtil letrado, da escola tomística, não saberia sofismá-la. 
Satisfeito em realizar os desejos, ainda que agastado pela derrota, propôs D. Beltrão:
  -- Pode entregar as rédeas, que vão ser-lhe contados os seis mil cruzados...
  -- Seis mil cruzados?! Mais me custou a criação.
  -- Sejam oito mil.
  -- Puh! Pouco menos que isso gastam à manjedoira.
  -- Homem, essa! Comem pérolas... caviar?
 -- Comem erva e fava... e até grão, mas há seis veterinários ao seu serviço, e todas as manhãs vem esse grande proto-alveitar D. Hyacintho Ferreira que lhes palpa a mouçó, lhes coça as partes, lhes examina a espéculo o ânus, como faz ao seu rei...
  -- Dez mil, quer?
  -- Mais gastei a adestrá-los.
  -- Quanto pede?
  -- Quanto já pedi, senhor D. Beltrão.
O fidalgo, engasgado de cólera após estas palavras atrevidas, chamou a criadagem, que era um exército. Arrancaram as rédeas das mãos dos pajens e, a um sinal de D. Beltrão, o mordomo desatou uma barriguda saca de coiro. E, enquanto contava dez mil cruzados ao cavaleiro, que sorria, o fidalgo proferiu, abanando a cabeça em ameaça:
  -- Podia-lhe fazer amargar as impertinências, senhor... senhor quê? Vamos, senhor coudel, e, vê, mando-o em paz com a quantia que ofereci. Dez mil cruzados, Baptista, nem mais um ceitil... Já sabia, não tem que se queixar. Vá... vá, diga o que quiser, mas não esqueça que muito paciente foi D. Beltrão Montalvo de Trastâmara, do ramo lusitano de Riba-Doiro, estreme de malado e bastardia!
Para coroar a façanha, D. Beltrão convidou Floripes e o noivo, que assistira embasbacado a todos os lances, a montarem os estranhos corcéis. Ele cavalgou Vingança, Floripes Relâmpago e o morgado Tigre. Mas antes que dessem brida, ouviu-se zumbir no ar um assobio cadenciado e musical e os cavalos arrancaram. À carga cerrada, primeiro, nem demónios a fugir para o meio do inferno. Depois os lacaios viram-nos tresmalhar e correr para a linha do horizonte como galgos endiabrados. Quando volveram olhos para o que estava à sua volta, cavaleiros e pajens dos cavalos enfeitiçados haviam desaparecido. Azagaia corria em roda, crinas eriçadas, nitrindo lamentosamente, mais desesperado que a burra de Balaão antes de conseguir convencer o amo dos verdadeiros desígnios de Deus.»...                                           
                                                                                                           (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 54) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 

I - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Floripes saltou sobre a sela, como um pássaro salta para um ramo. O homem disse, assentando uma palmada na garupa do seu morzelo: 
  - Este é o mais maneirinho dos três; tem a graciosa andadura duma dama da corte de Trebizonda, e corre como o vento dos ciclones. Chama-se Tigre. Se lhe agrada, custa-lhe dois mil cruzados... dois mil cruzados e o mais que se verá...
  -- O mais que se verá... quê?
  -- A carta do rei Ordonho com o seu alvará de fidalgo... mesmo que esteja roída dos ratos... Sou coleccionador.
Sorriu o nobre da bravata, por lhe parecer amenidade de vilão cobiçar-lhe o pergaminho mandado lavrar e assinado pelo punho de el-rei e de sua senhora D. Cunegundes Coração de Leoa, e Floripes e o cavaleiro emparelharam, prontos a despedir.
Observou-lhe o desconhecido:
  -- Menina, vergonha terei em vencê-la...
  -- Ora essa! Vergonha tenho eu, montada no meu cavalo, de não me considerar uma amazona capaz de correr com o senhor cavaleiro.
  -- Seja.
Os cavalos abalaram e Azagaia foi batido por dois galões.
  -- Entendido -- respondeu D. Beltrão -- terá os dois mil cruzados e uma boa gorjeta para os pajens. Corra agora os outros cavalos com Azagaia.
Os palafreneiros apresentaram o segundo cavalo e o cavaleiro declarou:
  -- Pus-lhe o nome Relâmpago, porque mal arranca desaparece. É tão valente e tão dócil que se deixa montar por um abade com a ama à frente, dois afilhados na garupa e os alforges carregados com os folares da Páscoa. Também é mais caro... dois mil cruzados... e o paço.
O fidalgo reprimiu uma injúria ante a graça descortês, e os ginetes partiram. Segunda vez perdeu Azagaia por quase um quarto de pista.
  -- São extraordinários os seus cavalos, não haja dúvida. O senhor não lhes deu por aí alguma mistela mágica a beber?
  -- Água da fonte e um cálice de vinho fino. Os meus cavalos têm paladar como um lorde de Inglaterra.
  -- Vê-lo-emos. Este terceiro, pachorento como um rocim, não tem ar de defrontar o meu...
  -- Pois deixe repousar o seu cavalinho. Este alazão tem manhas de palafrém, baixa-se para um menino montar, e não há nada mais galgaz. É o que lhe digo... voa como o pensamento e dá pelo nome de Vingança...
  -- Lindo nome! -- gracejou Floripes.
  -- Lindo; e que amor! Traga trinta léguas dum ímpeto e o passo dele é mais macio que andar de liteira levada aos ombros de quatro galegos de Redondela. Precisa, porém, de trato fidalgo e vinho; este bebe como um rei de armas.» ...

 (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 53) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 - Jardim das Tormentas. 1913

(...) «Estava à porta o dia do casamento, e caprichou D. Beltrão oferecer ao genro montada que emparelhasse com o cavalo Azagaia de Floripes. Era este Azagaia um bicho a que pouco faltava para voar. Mais garboso e ardido não se encontrava com duas razões. Pégaso é que devia chamar-se. Mas D. Beltrão e seus eguariços não eram nada fortes em poética, antes grossos, grossos como frecheiros. Levado na sua, expediu D. Beltrão a feiras e coudelarias chalantes que lhe trouxessem por todo o preço animal daquela igualha. Vieram cavalos de muitas bandas, valiosos como condados, imponentes como andores, nenhum, porém, competia com Azagaia, senão na ligeireza, na estampa.
  -- Melhor! melhor! -- lançava aos lacaios, de cenho franzido.
Procuraram por longe, na planície, onde era de lei que houvesse cavalos galgadores, na serra, onde às vezes se criam mastodontes que metem medo aos próprios cavalos das estátuas equestres. Sempre Azagaia se lhes avantajava, sem rebaixamento doutras prendas, no porte, no galope ou no brio. Trouxeram-lhe sem utilidade hacaneias soberbas de infantas e ginetes ardentes de guerra. Um judeu descobriu-lhe um alazão alto como torre, para estabular o qual fora preciso rasgar as portas da estrebaria. Mas tinha dois dentes cariados e a cauda carecia do indispensável donaire cometário.
  -- Outro! -- exclamava iracundo e soberbo D. Beltrão.
Esgotaram-se as buscas e, por pregoeiros solertes, a soma de dois mil cruzados foi oferecida a quem apresentasse cavalo capaz de ganhar a Azagaia de algum modo, fosse lá como fosse, na vivacidade ou na cortesia. Acudiram mais corcéis de todas as raças e de muitos reinos, garranos ardegos como touros, facas duma gracilidade de rapariga; nenhum enchia as medidas do tetrarca de Montalvo.
  -- Teu noivo nunca poderá sair a passeio com Azagaia à estribeira -- dizia desalentado e no fundo ufano para Floripes. -- É bicho para envergonhar a mula do Papa se é certo o que rezam as grandes crónicas do Vaticano.
Certo dia, bateu à aldraba um senhor de finas maneiras, tendo consigo três cavalos com os seus pajens.
  -- Trago-lhe três cavalos, três estacas, senhor D. Beltrão; qualquer deles bate Azagaia.
Sorriu o orgulhoso velho, se bem que os brutos fossem de generosa aparência, e mandou aparelhar Azagaia.» ...

 (continua)


ANTOLOGIA _ A1 ( I - 52) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»


(...) «Mas o tumulto na noite aproximava-se, arremetia para a escadaria... Vozes roufenhas discutiam, praguejavam. Uma muralha de ombros veio colar-se contra a porta, impando, descarregando o alento todo. Os gonzos nem rangeram sequer.

A voz do mendigo clamou:
  -- Está bem, está bem, nós vamos embora, mas entregue o candeeiro...
  -- Que candeeiro!
  -- A mão, que era de minha avó...
  -- E arde?
  -- Arde, mas não queima.
  -- Deixá-lo, não lhe pego...!
  -- Vai a porta dentro!...
A mão continuava a arder sobre o escabelo, lívida como o luar e, como o luar, não queimando a sua chama. Floripes tentou apagá-la, mas nem a fole de ferreiro tremeria aquela sinistra luz.
  -- Entregue a mão do finado, que lhe dá azar... -- tornou a voz.
  -- Pois sim -- respondeu Floripes reflectindo. -- Passe a sua mão pela gateira...
O homem assim fez, e ela lha cortou cerce com o machado que ali estava. E o sangue, esparrinhando e alagando tudo, apagou a mão morta incandescente. Ainda que às escuras e morta de medo, Floripes tinha esperanças que o pior já passara. Lá fora, no escuro, a quadrilha debandava em pressurosa tropeada. E foi tal o escarcéu que a aia despertou por fim. Logo que de tudo foi ciente, proferiu:
  -- Fui lograda com a laranja. Não sei o que me subiu à cabeça, quando a comi, que tombei na cama como uma defunta. Agora, menina, só lhe peço que me deixe guardar essas duas mãos para memória...
  -- Pois guarda... mas salga-as bem salgadas. Se lhes não deitas uma arroba de sal em cima, largam para aí um fedor que não há há quem pare com a peste.
Regressou D. Beltrão com a promessa de el-rei vir ser padrinho de Floripes. Muito maravilhado ficou do que sucedera; mas como aquilo era alto feito para ser lavrado no brasão de sobresselente, nem com a palavra mais branda castigou a quebra de suas ordens.» ...
                                                                                                                                                   (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 51) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

 

(...) «Acomodaram pois o pobrezinho ao braseiro e, satisfeitas daquela boa acção, foram deitar-se. Dormiam na mesma alcova, pudera, que a aia era muito medrosa. Ela caiu logo a dormir como pedra num poço. A donzelinha, essa, por mais que tentasse engodar o sono, não adormecia. Altas horas, vagueava a sua fantasia entre o noivo, ocupado dos calondros e quem sabe lá se a apalpar o patriotismo das moças da jorna, e o pai, baldeado nas liteiras a caminho da corte, sentiu estalar o soalho. Apurando o ouvido, percebeu que era alguém que penetrava no aposento a furta-passo. Bem quis erguer-se, bradar por socorro, mas faleceu-lhe o ânimo e a mais não atinou que a fingir-se adormecida. Um vulto surgiu, parou, errou, debruçou-se sobre ela, depois sobre Anastácia, suspendeu-se à escuta e, afinal, sumiu-se por onde viera. Quando abriu os olhos, já o resplendor duma luz branca se coava pelas salas silenciosas. Floripes afoitou-se a deixar-se escorregar da cama e, pé ante pé, foi abanar a aia pelo braço. Mas nem a safanão, nem a beliscão, nem a murro acordou a dorminhoca empedernida.
Então, enchendo-se de ânimo, saiu da alcova a ver o que se passava. Jesus! Na sala que deitava para o pomar a mão dum finado ardia derramando uma luz alva, fosforescente que nem mil vaga-lumes em cima duma couve troncha. E pela porta, aberta de par em par, um homem -- em que reconheceu o mendigo coxinho -- direito e membrudo apitava.
Apitou primeiro o grande ladrão, uma, duas vezes, a medo; à terceira vez, estridentemente. Lá fora apenas o vento zumbia, veloz e fino como balas disparadas de mosquete.
Apitou quarta vez, com tanta sanha, que a noite de lés a lés pareceu uma peça de chita negra a rasgar-se de cima a fundo. Ouviu-se no mesmo instante, lá para a mata, desencadear-se tropel formidável, ao passo que a silhueta do homem destacava no terreiro através das ombreiras altas. E Floripes -- que lera os romances da Madressilva -- deu um salto; em sua mão exaltada os ferrolhos correram expeditamente, depois a chave e a grossa tranca de carvalho que se recolhia no muro como em bainha.
  -- Desta estou eu salva! -- considerou. -- A porta chapeada de ferro não cederia a um aríete romano. Toca a chamar os criados...» ...
                                                                                                                                                      (continua)
 
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Nótula:

«De onde vem o nome vaga-lume?
«Segundo o Dicionário Etimológico, a origem da palavra vaga-lume advém do português caga-lume ou caga-fogo, contudo, “com o passar do tempo, por questões de pudor e censura, trocou-se a letra ‘C’ por ‘V’. Assim, ‘vaga’ passou a representar o verbo ‘vagar’, que significa ‘andar sem rumo'”. Sendo assim, é possível definir que vaga-lume seria o mesmo que “luz que anda sem rumo”. “O lampejante bichinho é um eufemismo vivo, porque ‘lume’ significa ‘fogo’, ‘brilho’, ‘luz'”.
Deonísio da Silva, em seu livro “De onde vêm as palavras”, afirma que o escritor Machado de Assis foi quem aprovou a inserção da palavra em nosso vocabulário e dicionário, no século XIX.»
https://olhardigital.com.br/2022/12/30/ciencia-e-espaco/inseto-iluminado-descubra-a-razao-pela-qual-o-vaga-lume-se-acende/

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 50) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

(...) «Fixou-se a data dos esponsais e D. Beltrão, chamando Floripes a capítulo, disse-lhe:

  -- Menina, o teu casamento deve celebrar-se com pompa digna dos Montalvos. As nossas burras estão cheiinhas, louvores a Deus e a el-rei, que é seu almotacé. Na nobreza da nossa família, que remonta aos Trastâmaras, não há dente de linhagista que morda, seja ele o Figueiroa. Para grandes empresas grandes honras: vou-me à corte pedir a el-rei, nosso amo, que venha ser teu padrinho. Por certo se há-de lembrar do seu velho servidor e rico-homem. 
Dito e feito. Em luxuosa equipagem partiu para a capital, recomendando que, durante a ausência, as portas não se abrissem nem a dona nem a conde -- vejam lá o precatado! -- nem mesmo a enfermo que de socorro necessitasse. Menina e aia prometeram cumprir à risca as disposições do fidalgo, tanto mais fácil que o solar era grande como uma vila e divertido como uma feira. E de facto nos primeiros dias não houve sequer tentação com que lutar. Ocorreu, porém, estando uma tarde à varanda, avistarem um pobrezinho -- como aqueles em que se disfarçava Nosso Senhor quando ia pelo mundo -- traulitando pela rua fora em suas muletas, além de manquitó, cortado de frio.
Quando as fisgou à barbacã, tanto gemeu, tanto chorou, que elas se compadeceram e, ainda que com pesar de transgredirem as ordens do senhor, o chamaram para dentro do paço. Acalentaram-no com um bom lume, umas gordas migas, e o homem entesou-se em sua corcova de velho lázaro. Pôs-se, então, a contar a sua história, que era o fadário simples e chão do bom pedinte. Era da Terra Quente e ia de jornada para Santa Eufêmia, onde o pão é alvo e as esmolas às portas ainda mais taludas que as abóboras em cima do telhado do tio Rodrigues. Mas tinha-se extraviado no caminho e há três dias que andava à toa, morto de fome e de enfado.
As falas dele eram doces e coloridas, e entretiveram-se a ouvi-lo por muito tempo, quer a dar traça de fidalgos e bons abades que medravam pelos mundos de Cristo anafados e virtuosos, quer a contar passos da sua vida, mais singelos, aliás, que dum santo-justo. Já noite cerrada, Floripes disse-lhe:
  -- Olhe, aqui se lhe faz a cama e aqui dorme quentinho ao borralho. Não o mandamos sair por uma noite destas, Deus nos livre! Faz muito escuro e os lobos andam sobejos, mas há-de guardar segredo. O pai D. Beltrão, se o soubesse, era capaz de nos esfolar vivas.» ...
                                                                                                                                                                                                (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 49) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913

os senhores de Montalvo.jpg

D. Beltrão era um velho sobranceiro, sempre a impar de orgulho, não se sabia se da fazenda mais que de Floripes, a graciosa, ou das cinzas dos avós, caldeadas de santo e navegador. Todas as manhãs, o seu regalo era subir ao mirante e, olhando em roda, proferir, num alarde de bazófia, diante de gregos e troianos e, se não havia tal séquito, com os seus botões, que eram de metal amarelo e falavam, como sempre foi condão de botões em casacas verdes: 
  -- Tudo quanto se avista é cá do Beltrão.
Mas para lá do campo descoberto, possuía ainda vinhedos, olivais e terras de granjearia, em que mourejavam feudátarias dez aldeias de ratinhos.
Assim prendada de dotes naturais e de fortuna, era sina de Floripes tornar-se o alvo de bastos e magníficos pretendentes. Durante dois meses -- que tantos esteve sua mão em hasta -- a estrada velha de laje que ligava o solar com a igreja e outras baronias faiscou ao tropel dos cavaleiros. E, diante das varandas alpendradas, em justa assanhadíssima de jaguares renhiu o garbo duns com as arcas de oiro doutros. Após laboriosas inculcas, optou D. Beltrão por um abastado gentil-homem que, nas suas quintas, podia dizer, embora fosse discreto como um raposo, espalmando à sua maneira o punhaço no peito, em ares de competição:
    -- Quem é o primeiro morgado da Riba-Tâmega, quem é?!» ...

                                                                                         (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 48) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»

(...) «E Eva, à semelhança, tentou enliçar-se nos braços rijos de Adão. A nuvem misteriosa, recurvando as pontas, lançara sobre o parque um velário, onde as laranjas quase luziam como pequeninos sóis a distância. Um suspiro de mil suspiros errava no ar.

  -- Faze-me como as serpentes e como a nuvem -- disse para Adão a tentadora e subtil. 
E o homem acedeu. Na encontrada dualidade, dor e volúpia, daquele braço, pressentiu Eva que haviam descoberto o perigoso fruto. Mas o sumo bem, que se lhes deparou, era mais forte que tudo -- Deus, a angústia, a guerra crónica. O temor de arrostar a cólera divina e o orgulho de devassar os enigmas celestes, por outro lado, mais fogo traziam ao seu fogo. A nuvem oscilou sobre eles e cambiaram as tintas; de escarlate, o ar coloriu-se do oiro do conseguimento, depois do fosco da saciedade; e a nuvem, alcandorada um instante como enorme avejão, desprendeu-se e librou-se nas alturas. Arquejantes mas risonhos, nossos pais compreenderam que haviam tragado o pomo em que se encerrava a peçonha do bem e do mal e que tudo o que Deus lhes dissera fora em tom de alegoria. Uma paz inquietadora paralisava o Jardim das Delícias. E ficaram transidos de ânsia, à espera.
Por cima deles repercutiu, a breve espaço, um formidável trovão que os atirou um contra o outro a bater os dentes de medo. Robles, castanheiros e olmos lascavam em sinistro fragor, e as aves, alucinadas, corriam o espaço, como setas na batalha dos Anjos Revéis.
Um serafim, de cenho raivoso e couraçado, veio voando do alto direito a eles. E, à espadeirada, enxotou-os para fora do horto, em volta do qual surgiram, de golpe, muros altos, insuperáveis.
  -- Perdão, senhor Anjo! -- suplicou Eva, ajoelhando. -- Pecámos por ignorância...
  -- Por ignorância!? -- ribombou a voz de Deus entre nuvens. -- Ser perverso e astucioso, já o teu coração tinha adivinhado antes de a tua carne o sentir. A mim não enganas tu! Há muito que a tua alma sofria entre o mistério e o desejo. Encontraste; agora ide, ide para o mundo sem fim, sofrer, lutar, correr por entre mil tormentas para a ténue emboscada dum gozo.
Eva soluçava; Adão, sacudindo a cabeça em rasgo de decisão, travou dela nos braços:
  -- Que importa, se descobrimos o amor e decifrámos o enigma da vida! Que importa, se conhecemos os segredos de Deus!
A criação inteira rompeu empós. E até as aves em seu cantar pareciam dizer:
  -- Também vamos, ó homem, para o mundo sem fim. Amor, és tudo!
As cancelas do divino horto fecharam-se de repelão; a terra e o céu ardiam, as ondas no mar ardiam.
Nossos pais meteram, de cabeça dobrada, contra o frio e o vento. Dos animaizinhos, não obstante não terem sido escorraçados do Jardim das Delícias, cada par, mesmo os mochos, disparou para seu souto. Ao fim do amplexo que povoou o mundo, uma voz melopaica murmurejou, subiu em acento, esplendeu num hino, a vida toda. E era um triunfal:
  -- Amor, amor, és tudo! A ti nos rendemos na dor e na alegria! Amor, és tudo!»

*** *** *** 

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 47) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»

(...) «Adão e Eva, num quebranto que lhes envincilhava os membros ágeis, contemplavam de pupila semimorta o trejeito imprevisto dos seres. A nuvem ancorara sobre eles, de todo impedindo de voar para o trono de Deus a sortida perfumaria do Éden. Como cobras sonolentas, os bálsamos rastejavam e envolviam os corpos nus e cândidos de nossos pais.

  -- Estamos enredados em hera -- balbuciou a mulher.
  -- São cordas de sol que passam pelo arvoredo -- respondeu Adão.
Eva lembrou-se que o Senhor dissera: sereis tentados a comer o pomo proibido pela conjura dos elementos. Teria batido a hora? Palpitou-lhe que sim, mas tolheu-se de advertir Adão. O que fosse, soaria.
Tudo à volta deles era suspeito: aquela languidez; os bichos a arfar; o colapso das rosas; o estado de sideracão do Jardim todo. Na riba encantada da lagoa, a libré vistosa de dois crocodilos palpitava, e, a meio dos bosques, suspiros estranhos feriam o silêncio.
  -- Ai, anda-me lume no rosto! -- gemeu Eva.
  -- Qual lume! Já te disse, são os incensos que encontram fechada a porta dos céus... -- respondeu Adão.
  -- E porque está fechada, homem? -- atreveu-se ela a dizer, quase a descair em revelar-lhe a sua apreensão.
  -- Eu sei lá! Pergunta-o ao nosso amo...
A nuvem baixou ainda, até poisar sobre a copa das árvores. Uma luz indecisa banhava o Paraíso.
  -- Que nuvem tão carregada! Abafa-me!... Ah! -- lamuriou Eva.
  -- Cala-te, é a aeronave em que Deus vem visitar-nos.
As cobras agora enroscavam-se umas nas outras e os pardais espenujavam-se, bicando-se, por entre os ramos floridos. Rolando-se enervada e brincalhona, Eva descaiu sobre nosso pai. E no peito lãzudo dele as narinas de Eva ruflaram. Depois, com meiguice nova, as suas formas cheias roçaram a musculatura seca. Ao mordê-la nos bicos dos seios, proferiu ela em voz quebrada:
  -- Rico sabor há-de ter o fruto misterioso do bem e do mal?
  -- Porquê?
  -- Se não tivesse, não era assim proibido!
Adão suspendeu-se a reflectir. Depois proferiu:
  -- Mas não era melhor que nosso amo nos dissesse: o fruto, ei-lo! Agora, amigos, vejam lá no que se metem!
  -- Quem sabe lá se uma pessoa se não tentava mais depressa!
  -- Tu serias capaz, eu não.
  -- Sei lá!
Como estivessem muito próximas, involuntariamente as fontes frescas de suas bocas juntaram-se. E pareceu a qualquer deles que era doce como o mel, um mel inefável. Adão estirou a perna num esticão nervoso; gaiata e a rir como a água nos seixos, nossa mãe apertou-lhe entre as suas, pronunciando:
  -- Olha para ali... olha como se enroscam as serpentes...!» ...

                                                                                            (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 46) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»

(...) «Às temporadas, o Senhor descia a visitar os colonos; e havia grande arraial no Jardim das Delícias, em que os animais todos, desde o grilo ao diplodoco, tomavam parte. Adão e Eva entoavam o proverbial Te Deum festivo dos súbditos, sempre agradecidos, aos monarcas, sempre paternais. Faziam coro leões, tigres, elefantes e muitos outros paquidermes, todos mais pacíficos e bem ensinados que cónegos e acólitos de catedral em dia de jubileu.

Sempre Deus se retirava contente, cofiando o linho alvíssimo da barba e rebolando a menina do olho na fronte sumptuosa de ancião. Duma dessas visitas, quando percorriam os três uma das alamedas do parque, abobadas de frutos, Eva rompeu a choramingar: 
  -- Mas, Senhor, temos medo de cair em erro. Que fadário o nosso! Por quem sois, por vossas bonitas barbas de prata, dizei-nos qual é o pomo proibido...!
De má catadura, o Senhor atalhou que nem era bom falar nisso, pois seriam réprobos no dia em que o soubessem. Eva, entretanto, que estava podre de mimo, rompeu a colher frutos e a lançar-lhos aos pés. E, cortando, cortando, ora as açucaradas peras, ora as romãs rubras e as camoesas ingénuas, interrogava:
  -- É este, Paizinho do Céu?
E, invariavelmente, Deus respondia, severo mas não irado:
  -- Não, Eva, não!
  -- E este meu rico Senhor?
  -- Nada, nada disso!
  -- Ah, que nos quereis perder!
  -- Que heresia, Eva, que heresia! Mais do que isso, que má criação! Já disse e redisse que seriam tentados pela conjura dos elementos, por todos os seres... todinhos, até por aquele feio bicho... -- e o Deus do Céu e da Terra apontava duas serpentes de rabo a bulir, tão cosidas uma à outra, como um calabre a destrançar, e as duas cabeças sobrepostas, que davam ideia do cabuchão dum anel.
  -- Ah,! -- e Eva, que era a finura das finuras, deu conta que, no olhito de Deus, boiava mais luminosa a sua cintila luminosa. Estariam então perto do fruto proibido? Deus, porém, não o confessava, e lá iam arrastando o temor de ser maus servos e a curiosidade de devassar um mistério de tão estupenda cubagem. Estes dois sentimentos mitigavam-lhes a beatitude exaustiva de colonos do Jardim das Delícias. E a asa do tempo já muito bem a sentiam ir revoando.
Uma tarde, à sombra fresca dos castanheiros, que davam ricas castanhas longais, sem que precisassem de as dar, cismavam na tentação em que viria colaborar a criação inteira e que tornaria suas almas seara emaranhada do saber e campo aceso de peleja. Franjada, suando um subtil torpor sobre as rosas e as abelhas, singrava no céu uma nuvem. Uma nuvem, que para eles não tinha nada de comparável, visto que a sua candidez era completa e insciente. Os cronistas mosaicos do século II viriam a compará-la a um grande avejão apocalíptico, emplumado de branco e com rémiges de fogo. Os animais, ia ela pairando, enlanguesciam em sonâmbula lassitude; já duas gazelas, na orla do ribeiro, se perseguiam, arrifando. Agastadas, as flores descaíam para terra, e no ar o pólen e os aromas, encontrando impenetrável o plafond, rebatiam-se sobre o solo e empestavam o ambiente de enjoativa mofeta. Pelas fendas das rochas -- que todas eram no Paraíso de ágata e alvo alabastro -- os lagartos confundiam suas casacas verde-gaio.» ...

                                                                                                                               (continua) 

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 45) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Triunfal»

I - Jardim das Tormentas. 1913

capa maravilhosa.jpg

(...) «Retirou-se o Padre Eterno para a excelsa morada, no meio da coorte de arcanjos e serafins, à testa da qual fungava uma filarmónica de trombetas e saxofones de oiro, tão afinada e imponente que seria capaz de competir com a charanga do Braço de Pau, que se havia de formar dali a milhões de anos na aldeia turdetana de Vila Cova à Coelheira. Adão e Eva divagando nos Jardins das Delícias, em que as árvores eram andores garridos e pasmados, e as fontes trauteavam minuetes ao espraiarem-se sobre as areias de topázio e sardágata, meditavam: 
  -- Vá lá saber-se que raio de árvore é aquela! Pois não é verdade que se parecem todas umas com as outras e, em matéria de frutos, adeus, minhas encomendas, seria preciso ser pomicultor para acertar?! Nosso bom amo sempre arma cada esparrela à gente!
  -- Assim miraculoso e vedado, muito bom deve ser tal fruto! -- murmurou Eva, relanceando olhos escrutadores aos pomos sazonados, sem grainha e sem bichos, que se lhes ofereciam dos ramos.
  -- Se deve! -- assentiu o homem, abanando a fronte, sombreada de espessa guedelha preta.
Seu enigmático patrão, outro dia que os surpreendeu em consultas ralhadas um com o outro, foi um pouco mais longe:
  -- Nesse fruto, meus meninos, estão açaimados todos os flagelos... ódio, ciúme, angústia... guerra...
  -- Só flagelos, Senhor?
  -- Flagelos... e poucos e mentidos prazeres.
  -- Mas os nossos olhos são de cegos!  -- argumentou Adão. -- Sem querer, podemos faltar às vossas ordens!
  -- Se o meu Senhor lhe pusesse um sinalzinho de alarme... -- observou Eva que era sagaz.
 -- Uma campainha, não? O alarme ser-lhe-á dado por tudo à roda: aves, flores, céu. E não lhes digo mais nada. E, desde então, no intuito de não delinquirem por ignorância, o entendimento deles palpitou por saber qual era o fruto temível e saborosíssimo que encerrava os princípios que frutificavam em angústia e guerra e em raros e falaciosos deleites. Não compreendendo do que se tratava, nem que coisa era tal monstro, experimentavam um respeitável medo. Na verdade infinita do Éden, todos os pomos eram opimos e cometedores. De cada um lhes diziam picanços e vespões, quando se banqueteavam:
  -- Oh que bem que sabe! Provem, provem!
Mas qual fosse o pomo singular, que compreendia tão tremendo laboratório, não atinavam os divinos moradores. E porque não atinassem, o receio de poderem, involuntariamente, trair o amo flutuava em seu cuidado e já enrugava a face lisa do seu mar de doçuras. E, se em corpo e alma permaneciam purinhos sem a menor mácula, começavam a sentir o gume dos dias lavrando sulcos mansos na sua felicidade.» ...

                                                                                    (continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913 (...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:   -- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Alg...