terça-feira, 29 de setembro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 3 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958



      (Continuação)

    Desta sarrafusca literária, deste maremoto verbal, resultou ficar o nome do senhor Dr. Júlio Dantas um dos mais falados do país e justamente popularizado.

    O senhor Dr. Júlio Dantas naturalmente não meteu o "bâton dans les roues" do carro da fama, embora não fustigasse os corcéis. O meu antecessor, no caso dos "Filhos de Inês de Castro", travou, levado duma prosápia que não deixava de ter a sua galhardia. Estava-lhe na massa do temperamento, parece-me bem, e algumas vezes procederia a sabor do seu orgulho e ao arrepelo das coisas.

    "Os Filhos de Inês de Castro", quem os leu? Desde aqueles dias plácidos da Rua da Glória, o mundo deu muita volta; eu tive o meu exílio juvenil em França, e perdemos-nos de vista. Mais tarde, divisei-o como repórter, melhor, como aedo, nas hostes de Paiva Couceiro, em transe de cantar-lhes as proezas e vitórias. Provêm dessa fase livros de reportagem, que ouço dizer serem do melhor da sua lavra. Dentro do limite do tempo e ao ritmo que o espírito de hoje consente pesagens e rectificações, deitei um olho rápido a essa obra. De facto, surpreendeu-me a sua linguagem incisiva, presta, que ouço chamar ainda ao meu barbeiro e aferidor, como vêem, de coisas e loisas, escovada. Linguagem escovada. Em muitos livros se narram, cantam e esmiuçam as marchas e contra-marchas, refertas e combates, estratagemas e planos guerreiros, retiradas e avanços, galopadas colectivas e façanhas singulares da falange insurrecta. Às vezes, figura-se-me ver levantar-se Agamémnon indignado e lançar o guante. Outras vezes é Heitor generoso que surge no arraial e fala a linguagem do bom senso ou da serena coragem. Ao fim e ao cabo da notável Odisseia, poderá perguntar-se o leitor desprecavido: Em que pira foram incinerados os heróis?

    Não houve pira porque não houve mortos. Os mortos desta epopeia foram-no por desastre ou natural consumpção. E quase poderia dizer: felizes os povos em que as batalhas e os dissídios deflagram, se processam e se extinguem sem derrame de sangue, como nesta guerra fratricida!

    A carreira do meu antecessor perde-se aqui, a meus olhos, tendo cortado por França, pela Itália, pelo Brasil. Em França traduziu Henry Bordeaux e outros autores e, como muitos nobres emigrados, comeu "de la vache enragée". Regressado a Lisboa, escreveu no "Diário de Lisboa" a crónica financeira e dirigiu uma casa de impressão, a Ottosgráfica. Pelo Brasil passou meteoricamente. Dizia-me um ilustre homem de letras, seu admirador e anotador da vida moderna no que tem de fluido e subcorrente: -- "Joaquim Leitão apareceu um dia aqui, na Rua Gonçalves Dias, de coco, luvas e bengala. Para nos 'épater' ou para nos arreliar? Não sei bem para que foi, mas nem nos assombrou nem produziu o menor engulho. Tanto assim que todos nós da Academia Brasileira de Letras ficámos seus amigos e admiradores e votámos por unanimidade a sua candidatura de sócio".

    De verdade o Brasil mental, que emerge garboso e fecundo daquela imensidão de cidades, rios, campos e floresta, que fala nos colóquios, tem voz nas Câmaras, assento na Academia, acarinhava Leitão como a um dos detentores da camisola amarela da lusitanidade. Ele por sua vez não ocultava o seu facataz pelo Brasil. O seu derradeiro artigo, inserto num jornal do Porto, era um madrigal ao Brasil e aos homens eminentes da Academia Brasileira de Letras.

    Depois o meu antecessor consagrou-se a esta nobre Casa do Abade Correia da Serra. À Academia com o seu Presidente. Ambos se consubstanciavam para ele e constituíam o tema da sua idolatria. Compreende-se. Pode dizer-se, sem desdouro para ninguém, que nestes dois decénios a Academia é Júlio Dantas. À parte  a manifesta actividade que tem desenvolvido aqui no seu lugar de maioral, há a sua obra intercorrente e ignorada em prol do idioma. Se esta não fica a constituir uma das suas coroas de glória, a nação lhe será grata pela árdua batalha que travou e em que empenhou todas as armas. Que são os nossos aplausos em causa tão alta?

    Tenho para mim que o maior título de nobreza que um povo pode apresentar à barra da História é a sua língua. Quando a poder de engenho e no fluxo dos séculos conseguiu fabricar o instrumento maravilhoso que é um idioma culto, no qual, em última análise, ele está presente com a sua idiossincrasia, realizou uma obra que se pode comparar, traduzida para a esfera individual, ao que Leonardo da Vinci obteve com as tintas ou Newton com os cálculos astronómicos. Como património vale mais de que os territórios, as cidades, os tesouros que pode guardar a sete chaves nas suas torres da Marca, por natureza contingentes e caducos. Ela não, modifica-se, evolui, pode ter cultores que a abastardem, mas no que nunca se degrada é no ouro que a literatura foi deixando à margem do rio histórico. Acaso os escritores decadentes do latim-latão empanaram o brilho que resplende de uma página de Horácio ou de Virgílio? Não há discrepância possível. O mal está em que, sendo a língua um bem comum, o indivíduo não dá conta do tesouro que lhe coube em herança e desfruta-o à toa. Com efeito, um homem que maneja com habilidade a sua língua acha-se particularmente adestrado para a luta pela vida, pois que o Mundo, por enquanto, é campo de liça. Um arengador competente leva o auditório onde lhe der a gana. Nunca hei-de esquecer, em Shakespeare, o discurso de Marco António ao povo que, começando por conceder a Bruto todas as boas intenções e bizarrias, acaba por mover contra ele as fúrias vingadoras que é capaz de açular o génio do mal. A palavra como a lança longe alcança. De facto, a língua, para quem souber usar dela como o espadachim da sua lâmina, lhe conhecer os botes secretos e os souber aplicar a tempo, nunca o deixa em maus lençóis. No foro, no parlamento, no comício, na assembleia de accionistas, mesmo na vida sentimental.



(pp. 316 a 319)

  (Continua)


quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 2 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958



      (Continuação)

      Pois nesse comício, pró-Gorki, em 1906 -- numa altura da vida portuguesa em que o pão, o rico pão, genuinamente "frumentum triticeum" custava 35 reis, e uma pescada, grande e comprida como a braçada dum homem, não ia além dos seis vinténs, quando as nobres causas galvanizavam o mundo -- Joaquim Leitão pediu a palavra. O auditório, depois de esgotados os tropos de circunstância e as infalíveis prosopopeias, parecia sonolento e amortecido. Melena romântica, como asa de corvo, sobre o parietal, um belo desgarre, verbo fluente e exaltado -- tal se apresentou o ignorado orador, o Iokanam que rompia a anatematizar o tetrarca de todas as Rússias. O que disse ser-me-ia agora impossível reproduzi-lo. Mas devia ter falado a sabor das paixões que ali nos levavam, pois que a sala se ergueu como um só homem. Devia ter pedido a cabeça do Czar e dos demais tiranos do mundo e invocado os manes dos grandes revéis, desde Spartacus a Amílcar Cipriani. Foi o triunfador daquela algarada.

   Dali, daquela hora de incruento tumulto, nos ficamos a conhecer. As nossas relações foram todavia passageiras. Morava ele na rua da Glória, um rés-do-chão, onde eu às vezes, ao chegar, ouvia o berço do filho recém-nascido a bater as duas mansas pancadas pendulares, num ambiente de silêncio e penumbra. Ao tempo Joaquim Leitão fazia traduções para a Viúva Tavares Cardoso, dona da livraria deste nome, que viera a ser sua sogra. Ao público selecto dava Tolstoi, os "Cossacos", "Ana Karenine"; ao público comum os "Escândalos de Paris", de Dubut de Laforest, que se vendiam como manteiga. Em casa dele encontrei o bravo mosqueteiro das letras Faustino da Fonseca. Faustino era um homem visceralmente bom, honesto, singelo, e bem dotado de dons do entendimento. "A Descoberta do Brasil", de que é autor, está à cabeça duma série de trabalhos em que aquele problema começou a ser encarado à luz de um critério racional, deseivado de maravilhoso. Do consórcio de Faustino com Leitão derivou um romance "Os filhos de Inês de Castro", que não vejo figurar entre as obras do meu antecessor. Enjeitou-o? Folheando-o, é verdade que de modo perfunctório, nele não se me deparou coisa, quanto a forma ou pensamento, de que houvessem de envergonhar-se os autores. Para a sua composição, Faustino da Fonseca fornecera o plano da intriga, carreara os materiais, e Leitão metia ao banco e torneava. Lembra-me que esse livro veio a lume e passou despercebido, em despeito da pequena concorrência do mercado literário nacional. Porque o merecesse? Leitão, que tinha e sempre teve a sua filáucia,  não se dignou oferecê-lo aos jornais, a título de represálias por qualquer desaguisado. O resultado foi cair sobre ele o pesado silêncio que chamam tumular. Leitão esqueceu que tudo hoje tem de passar pela tuba do pregoeiro. No lançamento dum livro, crítica é uma coisa e publicidade é outra. Em verdade, se aquela não é absolutamente indispensável como aparelho de correcção quando o escritor possui personalidade, o mesmo não se pode dizer quanto à propaganda do nome, ou audiência da parte do público. Algures li que Hemingway fabulou há coisa de dois anos um desastre de avião nas selvas de África para chamar a curiosidade mundial sobre o seu nome. Comparando-se tal forma de reclamo com o dimensional publicitário em uso entre nós, estamos no princípio da arte. Eu fui um dos que foi no bote, para empregar a linguagem do meu barbeiro. Não há dúvida que se introduziu nos costumes este processo de bufarinhar a veniaga, e o fabricante de lenços, de pó para matar pulgas ou de máquinas para virar montanhas, desentranham-se em fantasia publicitária. A imprensa, tão justamente chamada alavanca do progresso pelo Conselheiro Acácio, teria inevitavelmente que desempenhar este papel, se é que não o monopoliza. Para o escritor, o silêncio é a pior condenação. Digam mal dele, neguem-no, caluniem-no, mas não o ignorem. Há uma justiça imanente, como há uma verdade relativa, como há uma força oculta, latente em tudo, que à sua hora vem à superfície, tal o poder germinativo do hilo no grão de trigo que foi encontrado dentro do túmulo dum Faraó e que, lançado à terra, tendo passado por ele tantos milhares de anos, germinou e floresceu. Mas a justiça a largo praso, para lá dos limites da vida humana, não interessa ao escritor. Tudo aliás no nosso tempo é condicionado pela rapidez. Há que andar depressa. A fama, condicente com este postulado, ressalta do entrechoque das opiniões e da controvérsia à sua hora. Recordo-me que à altura em que eu começava a rondar pelo adro de Palas Ateneia, onde ninguém me levou, onde me encontrei não sei como, era uma obra do Senhor Dr. Júlio Dantas, "Um Serão nas Laranjeiras", que agitava a opinião pública da nossa terra, que não somente o arraial literário. Hoje, que se ouve apenas o chuto nos campos do foot-ball e a algazarra beduína das multidões, poderá formular-se com um certo cepticismo: o quê, a opinião pública? Sim, senhor, responderei eu, a opinião pública. Há coisa de meio século aquela comédia do senhor Dr. Júlio Dantas era ventilada com tanto calor como hoje a elasticidade da perna do amigo Barrigana ou a cadela que foi no Sputnik. Aquela belíssima peça de costumes era o tema das conversas, na família, "inter pocula" nos cafés e restaurantes, nos soalheiros da praça, e com toda a espécie de dialéctica, inclusive o sopapo. Na casa de hóspedes da Rua do Crucifixo, onde eu tinha cama e mesa por uns vinte mil réis mensais, havia dois partidos, pró e contra. Um dizia branco, outro dizia preto, uns conscientes, outros à toa, todos a capricho, tal como leio que acontecia em Bisâncio no hipódromo. As nossas refeições à mesa redonda eram mais truculentas e renhidas que as dos doze Pares ou do Rei Artur à volta do S. Graal, gente esta de aventura e bulha que não era nada cómoda e naturalmente inclinada à violência. Ainda há testemunhas idóneas que podem vir depor. Eu batia-me, não o digo por cortesania, mas como quem recorda um facto dos bons velhos tempos, batia-me pelo Sr. Dr. Júlio Dantas, que nunca me tinha visto mais gordo e que eu só vim a conhecer como inspector das Bibliotecas e Arquivos numa das minhas vindas de Paris, era eu estudante da Sorbona.

(pp. 312 a 316)

  (Continua)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 1 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958




      E sou, acima de tudo, na qualidade de artífice das letras, um escultor de presépios, e neste mister apenas me prevaleço duma virtude: ser eu, bem eu, com mãos próprias e olhos próprios. Na minha oficina entra particularmente o pinho dos meus pinhais e o castanho dos meu souto; o desenho é tosco tantas vezes; as roupagens mal delineadas. Não emprego postiços porque não sei, e detesto o ouropel. O prefabricado, muito em voga na construção de hoje, não entra na minha carpintaria. Sem metáforas: nunca eu, construindo um romance, uma novela, escrevendo uma simples croniqueta, prestei a menor vénia a preconceitos, conveniências sociais, ou a quaisquer princípios de ordem política ou doutrina de escola. De pena na mão, procuro ser independente, original, inteiriço como um bárbaro.

      Entendo que foram estas as qualidades que assinalaram o meu nome a esta douta corporação, donde, por ela reconhecidas, precede o galardão que me confere, recebendo-me no seu grémio. Por tal prova de apreço me confesso jubiloso e desvanecido. As minhas homenagens vão em primeiro lugar para o nosso Presidente e insigne homem de letras, Sr. Dr. Júlio Dantas, que lavrou com sua mão de artista embora com benevolência de grã-senhor, o parecer favorável ao meu acesso a académico de número. Depois para o Sr. Secretário-Geral, Sr. Dr. António Pereira Forjaz, gentilhomem no cargo e pessoa de cientista e letrado, e ainda para o Sr. Dr. Laranjo Coelho, digno intelectual, secretário da Classe de Letras tão efusivo e amável com a minha eleição. (...)

[...]

      Segundo a praxe, se não é que segundo o Estatuto, caber-me-ia fazer o elogio histórico do falecido académico Joaquim Leitão, cuja cadeira vim ocupar. É óbvio que, não se transmitindo estes lugares por disposição testamentária, mas recebendo-se dos confrades vivos, o elogio não constitua mais que um imperativo platónico. Mas não se tratando de missa de réquiem, decorrente do bem de alma, nem nada que se pareça, noto que se lhe atribui a solenidade desses sufrágios. Em tanto que acto interior, eu me associo reverentemente, que mais não fosse oprimido pela irremissível fatalidade: 'hodie mihi cras tibi'.


      Porém, o elogio do meu antecessor, obrigado às três dimensões, eu me declaro incompetente para o fazer. Escusado é alegar que o homem de letras, na verdadeira acepção da palavra, é um ser complexo, infinitamente mais complexo que qualquer indivíduo vulgar de Lineu, comerciante, industrial, banqueiro, que ergueu casa, casou bem os filhos e morreu confortado com os sacramentos da Igreja, e que todavia nunca deixará, mercê de actos e até de volições de suscitar à consciência de quem lidou com ele, marçanos e não marçanos, toda a respeitável clientela, sem omitir a viúva saudosa, o seu problema ou mesmo muitos problemas. Se o homem de letras lega à posteridade uma obra vasta e polimorfa, pode dizer-se que é acidentado como uma cordilheira de muitos montes. A alguns levaria tempo a dar-se-lhes volta. Outros são inacessíveis e continuam a desafiar a escalada através das suas ravinas e escarpas, como Balzac, como Dostoieweski, como Camilo. Um conspecto de natureza geral será sempre um acto de temeridade. Depois, em arte, em literatura, por via de regra quem nos há-de julgar está ainda para nascer. O juízo final do escritor situa-se sempre além-campa. No caso de Joaquim Leitão a campa, porém, ainda não arrefeceu de todo. Demais disso, escasseiam-me o tempo e trazia o pouco engenho que Deus me deu voltado para outra rosa dos ventos, para que me arrojasse a cometer o balanço da sua obra. A crítica é uma magistratura muito séria, que requer além de pureza de intenções, competência e mão afeita a esta sorte de barbear, como já vi que lhe chamavam. Imagino que proferir o 'veredictum' sobre um trabalho, que representa muitas horas de labor mental, é mais grave e envolve incomparavelmente mais responsabilidade que num pretório sentenciar pessoas e actos. Por isso eu fujo de exercer tal sacerdócio. E, nesta hora, me limito a trazer apenas notas sucintas, correspondentes a factos que posso testemunhar, para o bosquejo do retrato do meu ilustre antecessor.


      Um estudo meritório sobre ele, que não seja mesmo mais que uma introdução, tem de ir longe, aos verdes anos, quando, estudante no liceu e anarquista como todos os rapazes do seu tempo, publicou um livro de versos "Trenos de miséria", tão generoso e sequioso de idealidade que até as gazelas punha a voar. Eu vim a conhecê-lo à volta de 1906 numa espécie de comício que se celebrou, se não estou em erro, nas salas da Associação de Lojistas, ali para a Trindade. Gorki tinha sido condenado à morte pelo Czar ou estava ameaçado de morte, e desencadeara-se pelo mundo um movimento de protesto, que acabara  por repercutir na ordeiríssima Lisboa das manas Perlequitetes. Bons tempos! Lisboa tinha a inocência e pacatez duma pomba, e todavia lia o "Pimpão"; em pleno Rossio, no quiosque a "Boia", os anarquistas tinham o seu club e sentavam-se nos bancos que bordavam a praça a discutir em voz alta as teorias de Marx e Kropotkine, sem que a ordem social perigasse, nem eles corressem o risco de ver a mão policial ferrar-se-lhes no cachaço. O Rossio era uma verdadeira àgora. Onde estão as árvores que davam sombra aos mendigos e aos extremistas e, sobretudo, essa saudosa liberdade? Quem diz sequer onde está o seu cadáver para que em público e raso se pergunte: quem lhe faz o funeral?


(continua)


domingo, 13 de setembro de 2026

Nascimento de AQUILINO RIBEIRO: 13 de Setembro de 1885!


Aquilino Ribeiro: (Sernancelhe, 1885 -- Lisboa, 1963).

    A Q U I L I N O    

«Quem folhear os livros de Aquilino, encontra em regra, no verso de uma das primeiras páginas, a marca do autor. Essa marca é representada por uma águia, de asas abertas, encimada pela palavra "Aquilino". Sabendo nós que águia e Aquilino pertencem à mesma família, não nos causará estranheza que o romancista da Via Sinuosa e das Terras do Demo haja escolhido uma águia para marca do seu sinete. Estranheza poderá causar o facto de o romancista se chamar Aquilino -- nome tão raro como os corvos brancos. Mas, melhor ou pior, tudo tem neste mundo a sua explicação e por consequência, o nome de Aquilino não podia deixar de ter a sua. O escritor nasceu em 13 de Setembro de 1885. Nessa época, e se digo nessa época porque o calendário sob este aspecto não é imutável, o dia 13 de Setembro era consagrado a Santo Aquilino. A mãe do escritor, senhora muito religiosa, quis que o filho tivesse o nome do Santo do dia em que ele nasceu, e assim foi. Esta circunstância não veio a ter -- porque ocultá-lo? -- grande influência, sob o ponto de vista litúrgico, na vida espiritual do escritor. Se não temesse ser indiscreto, eu contaria mesmo que uma dama gentilíssima mandou, um dia, a Aquilino Ribeiro um registo de Santo Aquilino acompanhado de algumas profundas palavras de catequese. Aquilino sorriu e limitou-se a comentar:
    -- Se existe já um Santo Aquilino, para que é preciso outro?»

(... ... ...)
«Não é, porém, aquela águia de asas abertas, que constitui propriamente o ex-líbris de Aquilino Ribeiro. Aquela águia  não é senão a marca do  sinete  com que Aquilino chancela os exemplares das suas obras: o seu  ex-líbris   é diferente. Representa um cavaleiro a galope, seguido fielmente, por um cão, e tendo esta frase por legenda: «Alcança quem não cansa». Desenhou-o Leal da Câmara!
A simples citação deste nome evoca em todos nós um grande artista de múltiplas aptidões; mas evoca em mim -- e em Aquilino também -- um amigo inolvidável. Leal da Câmara!»

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

 

LUIS oLIVEIRA gUIMARAES-ex-libris.jpg

IMG_20230908_141236.jpg

 

 O HOMEM E O EX-LÍBRIS 

«Portugal tem, desde Novembro de 1953, uma Academia de Ex-Líbris. A Academia tem a sua sede em Lisboa. Carlos Lobo de Oliveira, que doutamente preside à sua direcção, dizia-me uma tarde, que esta Academia não tinha senão vinte e cinco por cento de imortalidade. Trata-se duma modéstia respeitável que, entretanto, a matemática dos factos se permite contrariar. Poderá estabelecer-se uma percentagem para a mortalidade; para a imortalidade, não. Quando as instituições são imortais,  quando os homens são imortais, são imortais cem por cento: o que pode acontecer (e, frequentemente, acontece) é que a sua imortalidade cem por cento não dura senão algum tempo. O filho dum ilustre e espirituoso membro da Academia Francesa perguntava, uma vez, ao pai, com a cândida ingenuidade dos seus nove anos:
    -- O que é ser imortal, papá?
    -- É ser da Academia...
    -- E o papá é imortal, não é?
    -- Sou, -- enquanto for vivo!

Como quer que seja, esta Academia de Ex-Líbris, à qual desejo longa e profícua existência, merece o mais justificado respeito, não só pelas pessoas que a compõem, como pelos objectivos que a norteiam. Estas palavras -- devo acentuá-lo -- revestem-se de tanto maior imparcialidade quanto é certo que eu não sou ex-librista. No tempo em que escrevi as Saias Curtas -- há tanto tempo que as saias, desde então para cá, já desceram trinta centímetros e eu já envelheci trinta anos -- pensei em arranjar um ex-líbris. Cheguei mesmo a idealizá-lo. Representaria uma bonita rapariga a ler e a fumar, recostada num maple, com a perna cruzada mostrando a liga, e, à volta, esta legenda significativa: Per omnia soecula soecolorum. Felizmente a ideia não se converteu em realidade, e digo felizmente porque graves coisas teriam acontecido se eu colocasse este ex-líbris, por exemplo, no Monge de Cister ou no Eurico, o Presbítero. Tão austeros varões pediriam a intervenção da polícia ou (o que era mais provável e mais sério ainda) acabariam por perder a cabeça pela rapariga que eu, insensatamente, lhes metera debaixo da capa.»

Luís de Oliveira Guimarães, «AQUILINO RIBEIRO - Através do seu Ex-Líbris» (1955)

* * * * *   * * * * *  * * * * *   * * * * *

* * * * *   * * * * *  * * * * *

* * * * *   * * * * *


Imagens extraídas do Livro:

 «AQUILINO EM PARIS» de Jorge Reis, Ensaio (1986).  "Vega e Jorge Reis"

bilhete identidade.jpg



moço de 23 anos.jpg

á descoberta da lingua.jpg



revista o génio latino.jpg

  

Aquilino por Abel Manta (1936) col particular.jpgRetrato de Aquilino Ribeiro (1936) por Abel Manta.

Por ABEL MANTA 1A.jpgRetrato de Aquilino Ribeiro por Abel Manta

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *

 

Aquilino Ribeiro – Parte I – RTP Arquivos

Primeira parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "O homem político, democrata e amante da liberdade". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

https://arquivos.rtp.pt/conteudos/aquilino-ribeiro-parte-i-3/

 

Aquilino Ribeiro – Parte II – RTP Arquivos

Segunda parte do documentário sobre a vida e obra do escritor Aquilino Ribeiro: "Letras que dão voz ao povo. O amor pela terra, pelas suas gentes, pela vida". Inclui imagens de arquivo e depoimentos diversos.

«Aquilino possuía, como nenhum outro, a sabedoria da língua e dos segredos gramaticais e estilísticos: metáforas, sinédoques, parábolas, fábulas, analogias, um arsenal de conhecimentos que aplicava nos livros com alegre desenvoltura.»

Armando Baptista-Bastos

 

«Aquilino, no seu saber de amor feito, conhecedor profundo de aldeias e vilas, e suas gentes, campónios, fidalgos, brasileiros, padres, almocreves, da meseta lusitana, cantor do sol e da noite e dos próprios lobos companheiro. Romancista da inteligência e da coragem, da rebeldia mas também da astúcia, da paixão concentrada e também do desejo à solta, observador prodigioso, mestre da língua como nenhum outro escritor deste século.»

Urbano Tavares Rodrigues

 

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * *


«A palavra como a lança longe alcança»
                            [Aquilino Ribeiro, 1957]

* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 


Entrevista transmitida no Rádio Clube Português, na rubrica "Perfil de um Artista", a 16 de Julho de 1957. Realização de Igrejas Caeiro.
 
 
(I) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 1/4)   duração: 9:50 m.
 

 

(II) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 2/4)

 
(III) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 3/4)
 

 
(IV) Entrevista a Aquilino Ribeiro (parte 4/4)
 


... «A meia grosa de livros que escrevi foram de facto para mim, em tanto que obra de criação e exalçamento, como igual número de vinhas que plantasse. Nesta faina exaustiva tive de desatender à vida de relações, não cultivar como devia a amizade, remeter os meus à vis própria quando poderia com um pouco de arte, salamaleque, e o "quantum satis" da desvergonha cívica nacional, consagrada e triunfante, guindá-los a ministros ou banqueiros. Permiti ainda, levado na minha obsessão, que os gatunos oficiais e de mister me metessem as mãos nas algibeiras, os pirangas me ludibriassem, e toda a canzoada humana me ladrasse impunemente. Numa palavra, a vida utilitária, o arranjinho, a conveniência mundana nunca me roubaram um minuto de labor. Valeu a pena toda esta existência de sacrifício, de que ninguém se apercebeu, que ninguém me agradece, de que aliás ninguém me encomendou o sermão? Em minha consciência não sei responder.»...

Excerto da dedicatória do livro «Quando os Lobos Uivam» ao Dr. Francisco Pulido Valente, datada de Dezembro de 1958.

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 3 ]

  AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor. «Boletim da Academia das Ci...