quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 2 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958



      (Continuação)

      Pois nesse comício, pró-Gorki, em 1906 -- numa altura da vida portuguesa em que o pão, o rico pão, genuinamente "frumentum triticeum" custava 35 reis, e uma pescada, grande e comprida como a braçada dum homem, não ia além dos seis vinténs, quando as nobres causas galvanizavam o mundo -- Joaquim Leitão pediu a palavra. O auditório, depois de esgotados os tropos de circunstância e as infalíveis prosopopeias, parecia sonolento e amortecido. Melena romântica, como asa de corvo, sobre o parietal, um belo desgarre, verbo fluente e exaltado -- tal se apresentou o ignorado orador, o Iokanam que rompia a anatematizar o tetrarca de todas as Rússias. O que disse ser-me-ia agora impossível reproduzi-lo. Mas devia ter falado a sabor das paixões que ali nos levavam, pois que a sala se ergueu como um só homem. Devia ter pedido a cabeça do Czar e dos demais tiranos do mundo e invocado os manes dos grandes revéis, desde Spartacus a Amílcar Cipriani. Foi o triunfador daquela algarada.

   Dali, daquela hora de incruento tumulto, nos ficamos a conhecer. As nossas relações foram todavia passageiras. Morava ele na rua da Glória, um rés-do-chão, onde eu às vezes, ao chegar, ouvia o berço do filho recém-nascido a bater as duas mansas pancadas pendulares, num ambiente de silêncio e penumbra. Ao tempo Joaquim Leitão fazia traduções para a Viúva Tavares Cardoso, dona da livraria deste nome, que viera a ser sua sogra. Ao público selecto dava Tolstoi, os "Cossacos", "Ana Karenine"; ao público comum os "Escândalos de Paris", de Dubut de Laforest, que se vendiam como manteiga. Em casa dele encontrei o bravo mosqueteiro das letras Faustino da Fonseca. Faustino era um homem visceralmente bom, honesto, singelo, e bem dotado de dons do entendimento. "A Descoberta do Brasil", de que é autor, está à cabeça duma série de trabalhos em que aquele problema começou a ser encarado à luz de um critério racional, deseivado de maravilhoso. Do consórcio de Faustino com Leitão derivou um romance "Os filhos de Inês de Castro", que não vejo figurar entre as obras do meu antecessor. Enjeitou-o? Folheando-o, é verdade que de modo perfunctório, nele não se me deparou coisa, quanto a forma ou pensamento, de que houvessem de envergonhar-se os autores. Para a sua composição, Faustino da Fonseca fornecera o plano da intriga, carreara os materiais, e Leitão metia ao banco e torneava. Lembra-me que esse livro veio a lume e passou despercebido, em despeito da pequena concorrência do mercado literário nacional. Porque o merecesse? Leitão, que tinha e sempre teve a sua filáucia,  não se dignou oferecê-lo aos jornais, a título de represálias por qualquer desaguisado. O resultado foi cair sobre ele o pesado silêncio que chamam tumular. Leitão esqueceu que tudo hoje tem de passar pela tuba do pregoeiro. No lançamento dum livro, crítica é uma coisa e publicidade é outra. Em verdade, se aquela não é absolutamente indispensável como aparelho de correcção quando o escritor possui personalidade, o mesmo não se pode dizer quanto à propaganda do nome, ou audiência da parte do público. Algures li que Hemingway fabulou há coisa de dois anos um desastre de avião nas selvas de África para chamar a curiosidade mundial sobre o seu nome. Comparando-se tal forma de reclamo com o dimensional publicitário em uso entre nós, estamos no princípio da arte. Eu fui um dos que foi no bote, para empregar a linguagem do meu barbeiro. Não há dúvida que se introduziu nos costumes este processo de bufarinhar a veniaga, e o fabricante de lenços, de pó para matar pulgas ou de máquinas para virar montanhas, desentranham-se em fantasia publicitária. A imprensa, tão justamente chamada alavanca do progresso pelo Conselheiro Acácio, teria inevitavelmente que desempenhar este papel, se é que não o monopoliza. Para o escritor, o silêncio é a pior condenação. Digam mal dele, neguem-no, caluniem-no, mas não o ignorem. Há uma justiça imanente, como há uma verdade relativa, como há uma força oculta, latente em tudo, que à sua hora vem à superfície, tal o poder germinativo do hilo no grão de trigo que foi encontrado dentro do túmulo dum Faraó e que, lançado à terra, tendo passado por ele tantos milhares de anos, germinou e floresceu. Mas a justiça a largo praso, para lá dos limites da vida humana, não interessa ao escritor. Tudo aliás no nosso tempo é condicionado pela rapidez. Há que andar depressa. A fama, condicente com este postulado, ressalta do entrechoque das opiniões e da controvérsia à sua hora. Recordo-me que à altura em que eu começava a rondar pelo adro de Palas Ateneia, onde ninguém me levou, onde me encontrei não sei como, era uma obra do Senhor Dr. Júlio Dantas, "Um Serão nas Laranjeiras", que agitava a opinião pública da nossa terra, que não somente o arraial literário. Hoje, que se ouve apenas o chuto nos campos do foot-ball e a algazarra beduína das multidões, poderá formular-se com um certo cepticismo: o quê, a opinião pública? Sim, senhor, responderei eu, a opinião pública. Há coisa de meio século aquela comédia do senhor Dr. Júlio Dantas era ventilada com tanto calor como hoje a elasticidade da perna do amigo Barrigana ou a cadela que foi no Sputnik. Aquela belíssima peça de costumes era o tema das conversas, na família, "inter pocula" nos cafés e restaurantes, nos soalheiros da praça, e com toda a espécie de dialéctica, inclusive o sopapo. Na casa de hóspedes da Rua do Crucifixo, onde eu tinha cama e mesa por uns vinte mil réis mensais, havia dois partidos, pró e contra. Um dizia branco, outro dizia preto, uns conscientes, outros à toa, todos a capricho, tal como leio que acontecia em Bisâncio no hipódromo. As nossas refeições à mesa redonda eram mais truculentas e renhidas que as dos doze Pares ou do Rei Artur à volta do S. Graal, gente esta de aventura e bulha que não era nada cómoda e naturalmente inclinada à violência. Ainda há testemunhas idóneas que podem vir depor. Eu batia-me, não o digo por cortesania, mas como quem recorda um facto dos bons velhos tempos, batia-me pelo Sr. Dr. Júlio Dantas, que nunca me tinha visto mais gordo e que eu só vim a conhecer como inspector das Bibliotecas e Arquivos numa das minhas vindas de Paris, era eu estudante da Sorbona.

(pp. 312 a 316)

  (Continua)

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