LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO»

... «A única passagem na obra de Camões que se poderia invocar como constituindo um documento de fidalguia, aquela Petição de huma nobre moça em que se diz: a eu ser nobre tendo algum respeito, está fora de causa pelo facto de pertencer, segundo as melhores presunções, a D. Álvaro de Lencastre, duque de Aveiro, que também versejava. Versejava e versejava mal. Podiam ser de Camões, que tinha o sentido apurado do epíteto, não falando do ritmo embalador das sílabas sucedendo-se, como numa bica de água as moléculas da linfa, em toada ininterrupta e harmoniosa, estes versos:
Eu, certo, não duvido que o piloto,
O mestre, o marinheiro, o capitão
Usem do costumado vício roto
Com todas as que em seu poder vão;
Dai-me vós, Senhor, um que estê remoto
De tal delito, nesta ocasião,
E eu direi ser falso o que vos digo,
Tomando sobre mim todo o castigo.
Cidade inclui-a nas Obras Completas de Luís de Camões embora não venha citada no Cancioneiro do Pe. Pedro Ribeiro. José Maria Rodrigues e Afonso Lopes Vieira expurgaram-na da Lírica, imagino que por sua disformidade latente. Em que se estriba o autor meticuloso do Camões Lírico para atribuir a sua paternidade ao mesmo autor da deliciosa canção:
Com força desusada,
Aquenta o fogo eterno...?
Aquele eu, eu, tão escarrapachadamente tolo, destoa na lira de Camões. Não participa nada de nada da sua inspiração e mesura.
Pois que nos Disparates e nos Lusíadas verbera aqueles que se prevalecem do nome para levar vida regalada e abusar sem mérito próprio da condição dos humildes, se embraçasse a rodela para proteger a samaritana seria com outro garbo.
De resto, quando poderia Luís de Camões ter composto esta deprecada em verso? Antes da partida para a Índia, provavelmente não. A essa altura os votos dum fragoeiro, espadachim e libertino dissipador como ele era, seriam a pior recomendação para uma causa destas. No seu regresso da Índia? O poeta tinha mais em que pensar, a publicação dos Lusíadas, os cuidados da saúde, as necessidades da vida, do que arvorar-se em D. Quixote de infelizes e caídas à lama da rua. De resto, a estrutura das rimas é tão má que será aleive atribuí-las ao joalheiro destro e consumado do decassílabo, tornamos a dizer.» ...
(continua)
Sem comentários:
Enviar um comentário