terça-feira, 14 de abril de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 29) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. IV de XVIII} * [ vol. I ]

 

LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO»

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... «A certa altura dos Comentários de Correia, deparam-se-nos razões fortes que levam a crer que Luís de Camões não saiu de Lisboa, pelo menos para estudar. Este Manuel Correia planta-se perante nós como a Esfinge perante Édipo, pois, quando poderia ter deixado tudo em evidência, enturvou o mais que pôde. Estar-lhe-ia no ânimo. Era com efeito um homem fechado, de poucas falas, salvo quando tangia a sua tiorba de comentador em que dedilhava primorosamente as árias da mitologia e as fábulas da Antiguidade. Todavia há ocasiões com ele, como aliás com toda a espécie de patos-mudos, em que o silêncio equivale a uma confissão. Onde isso sucede mais vezes é à barra dos tribunais, o silêncio significando um testemunho, afirmativo ou negativo, consoante a maneira como é formulado o quesito. Para o caso, a reserva que Manuel Correia observa no escólio à estância 97 do Canto III é das tais que, pelo circunstancial, tem o valor dum depoimento. O poeta, contando nos seus decassílabos, se nem sempre vazados em oiro e bronze, verídicos como uma escritura, a história de Portugal, diz de D. Dinis:
 
    Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
    O valeroso ofício de Minerva, 
    E de Hélicon as musas fez passar-se
    A pisar do Mondego a fértil erva.
    Quanto pode de Atenas desejar-se,
    Tudo o soberbo Apolo aqui reserva;
    Aqui capelas dá, tecidas de oiro,
    Do bácaro e do sempre verde loiro.
 
Glosa Manuel Correia:
«Fez primeiro em Coimbra exercitar-se». Como este Príncipe era perfeitíssimo em tudo, quis que seus vassalos o fossem também, e que pois na milícia eram estremados, o fossem também nas letras, pelo que foi o primeiro que fez em Coimbra houvesse estudos, para os quais buscou homens de todas as partes eminentes, aos quais fazia muitas honras e mercês.
«Ofício de Minerva», o exercício das letras, o qual se chama assim porque os Antigos chamaram a Minerva, que por outro nome se chama Palas, Deusa das ciências.
«E de Hélicon as Musas fez passar-se», por termos poéticos e retóricos diz como el-rei foi o primeiro que fez houvesse estudos em Portugal. Hélicon é um monte dedicado a Apolo e às Musas, padroeiras dos poetas, que está em Fócis, região da Grécia, não longe do monte Parnaso, como diz Estrabão, lib. 9. Deste monte Hélicon se chamam as musas Hélicónidas, como lhes chamou Pérsio no prólogo das suas Sátiras. Diz aqui o poeta que deste monte Hélicon, onde as Musas tinham sua morada, se vieram a Coimbra, por onde rio Mondego passa.» ...
(continua)

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