terça-feira, 28 de abril de 2026

« OS LUSÍADAS », CANTO I {( 106 estâncias) ; ( 848 versos)}

 

https://www.rtp.pt/play/palco/p14060/e806944/os-lusiadas

LUÍS DE CAMÕES [ 1524 (?) -- 1580 ]

Os Lusíadas


Canto I - Beatriz Batarda
07 nov. 2024

Série inserida nas comemorações dos 500 anos de Luís de Camões que consiste na interpretação dos 10 cantos por 10 atrizes em 10 locais distintos. Numa era pós-colonialista, ouviremos as palavras, durante tantos séculos cristalizadas num só sentido, ditas em relação com a nossa atualidade. A finalidade é confrontar o texto com 500 anos com o tempo presente e perceber que reverberação estas mesmas palavras terão nos dias de hoje, num Portugal 2024. Consoante o conteúdo de cada Canto, uma atriz interpreta-o num local que retrate a nossa sociedade moderna e, de alguma forma, o nosso País.


43m

Artes e Cultura

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Canto I - Beatriz Batarda

Proposição - O assunto da Epopeia
Invocação - Poeta pede inspiração às ninfas
Dedicatória - A D. Sebastião
Narração - A armada de Vasco da Gama já está no Oceano Índico
Concílio dos Deuses
Ilha de Moçambique





  Canto I  


«Os Lusíadas» constam de 4 partes:

1ª – Proposição – Canto I – (1 – 3)

2ª – Invocação – Canto I – (4 – 5)

3ª – Dedicatória – Canto  (6 – 18)

4ª – Narração – Canto I  (19 – 106)


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1ª – Proposição – Canto I – (1 – 3)


 1. 

AS armas e os Barões assinalados

Que da Ocidental praia Lusitana

Por mares nunca de antes navegados

Passaram ainda além da Taprobana,

Em perigos e guerras esforçados

Mais do que prometia a força humana,

E entre gente remota edificaram

Novo Reino, que tanto sublimaram;


 2. 

E também as memórias gloriosas

Daqueles Reis que foram dilatando

A Fé, o Império, e as terras viciosas

De África e de Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valerosas

Se vão da lei da Morte libertando,

Cantando espalharei por toda parte,

Se a tanto me ajudar o engenho e arte.  


 3. 

Cessem do sábio Grego e do Troiano

As navegações grandes que fizeram;

Cale-se de Alexandro e de Trajano

A fama das vitórias que tiveram;

Que eu canto o peito ilustre Lusitano,

A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,

Que outro valor mais alto se alevanta.


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2ª – Invocação – Canto I – (4 – 5)


 4. 

E vós, Tágides minhas, pois criado

Tendes em mi um novo engenho ardente,

Se sempre em verso humilde celebrado

Foi de mi vosso rio alegremente,

Dai-me agora um som alto e sublimado,

Um estilo grandíloco e corrente,

Por que de vossas águas Febo ordene

Que não tenham enveja às de Hipocrene.

 

 5. 

Dai-me ũa fúria grande e sonorosa, 

E não de agreste avena ou frauta ruda,

Mas de tuba canora e belicosa,

Que o peito acende e a cor ao gesto muda;

Dai-me igual canto aos feitos da famosa

Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;

Que se espalhe e se cante no universo,

Se tão sublime preço cabe em verso.


 

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3ª – Dedicatória – Canto  (6 – 18)


 6. 

E vós, ó bem nascida segurança

Da Lusitana antiga liberdade,

E não menos certíssima esperança

De aumento da pequena Cristandade;

Vós, ó novo temor da Maura lança,

Maravilha fatal da nossa idade,

Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,

Pera do mundo a Deus dar parte grande;


 7. 

Vós, tenro e novo ramo florecente

De ũa árvore, de Cristo mais amada 

Que nenhua nascida no Ocidente,

Cesárea ou Cristianíssima chamada

(Vede-o no vosso escudo, que presente

Vos amostra a vitória já passada,

Na qual vos deu por armas e deixou

As que Ele pera si na Cruz tomou);


 8. 

Vós, poderoso Rei, cujo alto Império

O Sol, logo em nascendo, vê primeiro,

Vê-o também no meio do Hemisfério,

E quando dece o deixa derradeiro;

Vós, que esperamos jugo e vitupério

Do torpe Ismaelita cavaleiro,

Do Turco Oriental e do Gentio

Que inda bebe o licor do santo Rio:


... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

... ... ... ... ... ... ... ... ... ...



 15. 

E, enquanto eu estes canto – e a vós não posso,

Sublime Rei, que não me atrevo a tanto –,

Tomai as rédeas vós do Reino vosso:

Dareis matéria a nunca ouvido canto.

Comecem a sentir o peso grosso

(Que polo mundo todo faça espanto)

De exércitos e feitos singulares,

De África as terras e do Oriente os mares.


 16. 

Em vós os olhos tem o Mouro frio,

Em quem vê seu exício afigurado;

Só com vos ver, o bárbaro Gentio

Mostra o pescoço ao jugo já inclinado;

Tétis todo o cerúleo senhorio

Tem pera vós por dote aparelhado,

Que, afeiçoada ao gesto belo e tenro,

Deseja de comprar-vos pera genro.


 17. 

Em vós se vêm, da Olímpica morada,

Dos dous avós as almas cá famosas;

Ũa, na paz angélica dourada, 

Outra, pelas batalhas sanguinosas.

Em vós esperam ver-se renovada

Sua memória e obras valerosas;

E lá vos têm lugar, no fim da idade,

No templo da suprema Eternidade.

 

 18. 

Mas, enquanto este tempo passa lento

De regerdes os povos, que o desejam,

Dai vós favor ao novo atrevimento,

Pera que estes meus versos vossos sejam,

E vereis ir cortando o salso argento

Os vossos Argonautas, por que vejam

Que são vistos de vós no mar irado,

E costumai-vos já a ser invocado.

         


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4ª – Narração – canto I – (19 – 106) e todas as

Estâncias seguintes...

 19. 

Já no largo Oceano navegavam,

As inquietas ondas apartando;

Os ventos brandamente respiravam,

Das naus as velas côncavas inchando;

Da branca escuma os mares se mostravam

Cobertos, onde as proas vão cortando

As marítimas águas consagradas,

Que do gado de Próteu são cortadas,



... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

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... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

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 106. 

No mar tanta tormenta e tanto dano,

Tantas vezes a morte apercebida!

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade avorrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno?

 

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