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LUÍS DE CAMÕES [ 1524 (?) -- 1580 ]
Os Lusíadas
Canto I - Beatriz Batarda
43m
Artes e Cultura
Todos
Canto I - Beatriz Batarda
Proposição - O assunto da Epopeia
Invocação - Poeta pede inspiração às ninfas
Dedicatória - A D. Sebastião
Narração - A armada de Vasco da Gama já está no Oceano Índico
Concílio dos Deuses
Ilha de Moçambique
«Os Lusíadas» constam de 4 partes:
1ª – Proposição – Canto I – (1 – 3)
2ª – Invocação – Canto I – (4 – 5)
3ª – Dedicatória – Canto I – (6 – 18)
4ª – Narração – Canto I – (19 – 106)
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1ª – Proposição – Canto I – (1 – 3)
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,
E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.
Cessem do
sábio Grego e do Troiano
As
navegações grandes que fizeram;
Cale-se de
Alexandro e de Trajano
A fama das
vitórias que tiveram;
Que eu canto
o peito ilustre Lusitano,
A quem
Neptuno e Marte obedeceram.
Cesse tudo o
que a Musa antiga canta,
Que outro
valor mais alto se alevanta.
2ª – Invocação – Canto I – (4 – 5)
4.
E vós,
Tágides minhas, pois criado
Tendes em mi
um novo engenho ardente,
Se sempre em
verso humilde celebrado
Foi de mi
vosso rio alegremente,
Dai-me agora
um som alto e sublimado,
Um estilo
grandíloco e corrente,
Por que de
vossas águas Febo ordene
Que não
tenham enveja às de Hipocrene.
5.
Dai-me ũa
fúria grande e sonorosa,
E não de
agreste avena ou frauta ruda,
Mas de tuba
canora e belicosa,
Que o peito
acende e a cor ao gesto muda;
Dai-me igual
canto aos feitos da famosa
Gente vossa,
que a Marte tanto ajuda;
Que se
espalhe e se cante no universo,
Se tão
sublime preço cabe em verso.
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3ª – Dedicatória – Canto I – (6 – 18)
6.
E vós, ó bem
nascida segurança
Da Lusitana
antiga liberdade,
E não menos
certíssima esperança
De aumento
da pequena Cristandade;
Vós, ó novo
temor da Maura lança,
Maravilha
fatal da nossa idade,
Dada ao
mundo por Deus, que todo o mande,
Pera do
mundo a Deus dar parte grande;
7.
Vós, tenro e
novo ramo florecente
De ũa
árvore, de Cristo mais amada
Que nenhua
nascida no Ocidente,
Cesárea ou
Cristianíssima chamada
(Vede-o no
vosso escudo, que presente
Vos amostra
a vitória já passada,
Na qual vos
deu por armas e deixou
As que Ele
pera si na Cruz tomou);
8.
Vós,
poderoso Rei, cujo alto Império
O Sol, logo
em nascendo, vê primeiro,
Vê-o também
no meio do Hemisfério,
E quando
dece o deixa derradeiro;
Vós, que
esperamos jugo e vitupério
Do torpe
Ismaelita cavaleiro,
Do Turco
Oriental e do Gentio
Que inda
bebe o licor do santo Rio:
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15.
E, enquanto
eu estes canto – e a vós não posso,
Sublime Rei,
que não me atrevo a tanto –,
Tomai as
rédeas vós do Reino vosso:
Dareis
matéria a nunca ouvido canto.
Comecem a
sentir o peso grosso
(Que polo
mundo todo faça espanto)
De exércitos
e feitos singulares,
De África as
terras e do Oriente os mares.
16.
Em vós os
olhos tem o Mouro frio,
Em quem vê
seu exício afigurado;
Só com vos
ver, o bárbaro Gentio
Mostra o
pescoço ao jugo já inclinado;
Tétis todo o
cerúleo senhorio
Tem pera vós
por dote aparelhado,
Que,
afeiçoada ao gesto belo e tenro,
Deseja de comprar-vos pera genro.
17.
Em vós se
vêm, da Olímpica morada,
Dos dous
avós as almas cá famosas;
Ũa, na paz
angélica dourada,
Outra, pelas
batalhas sanguinosas.
Em vós
esperam ver-se renovada
Sua memória
e obras valerosas;
E lá vos têm
lugar, no fim da idade,
No templo da
suprema Eternidade.
18.
Mas,
enquanto este tempo passa lento
De regerdes
os povos, que o desejam,
Dai vós
favor ao novo atrevimento,
Pera que
estes meus versos vossos sejam,
E vereis ir
cortando o salso argento
Os vossos
Argonautas, por que vejam
Que são
vistos de vós no mar irado,
E
costumai-vos já a ser invocado.
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19.
Já no largo
Oceano navegavam,
As inquietas
ondas apartando;
Os ventos
brandamente respiravam,
Das naus as
velas côncavas inchando;
Da branca
escuma os mares se mostravam
Cobertos,
onde as proas vão cortando
As marítimas
águas consagradas,
Que do gado
de Próteu são cortadas,
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106.
No mar
tanta tormenta e tanto dano,
Tantas
vezes a morte apercebida!
Na terra
tanta guerra, tanto engano,
Tanta
necessidade avorrecida!
Onde pode
acolher-se um fraco humano,
Onde terá
segura a curta vida,
Que não
se arme e se indigne o Céu sereno
Contra um
bicho da terra tão pequeno?
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