segunda-feira, 20 de abril de 2026

«QUANDO OS LOBOS UIVAM».1958. Romance.

  BIBLIOGRAFIA


CRONOLOGIA BIOGRÁFICA:

 1956  -- Fundação da Sociedade Portuguesa de Escritores e eleição de Aquilino Ribeiro para seu primeiro presidente e sócio número um.

 1958  -- É eleito sócio efectivo da Academia das Ciências de Lisboa.

 1959 -- Em Março é instaurado um processo pela publicação no ano anterior do romance Quando os Lobos Uivam que, entretanto é apreendido. Em Outubro, pronúncia, mandado de captura e respectiva caução pelo mesmo motivo.

 1960  -- A pedido de uma centena de subscritores, entre eles os primeiros nomes da literatura portuguesa contemporânea, alguns artistas e homens públicos, é proposta a sua candidatura ao Prémio Nobel de Literatura, pelo professor catedrático Dr. Francisco Vieira de Almeida, da Faculdade de Letras de Lisboa. O processo instaurado pela publicação do romance Quando os Lobos Uivam é abrangido pela amnistia de Novembro.

Urbano Tavares Rodrigues







«O meu dia caminha para o ocaso. Dei bem conta quando cheguei ao fim deste trabalho. O amor, razão primordial de tudo, alegria do mundo, encanto da obra de arte, força da natureza, divindade munífica que dotou o grilo com a caixinha de música que lhe vemos às costas, e a borboleta com o motor subtil com que voa da couve galega para uma rosa, passageiro ou apenas fortuito papel desempenha nas suas páginas. É a seiva criadora em transe de estancar.

Todavia continuo a produzir como se me penetrasse um ardente e fecundo Verão. Obriga-me uma espécie de sinal, e fugir-lhe seria negar-me. Por isso hei-de morrer com a enxada em punho.

A meia grosa de livros que escrevi...
.....

Nesta peregrinação a Compostela, que é a vida, esgotou-se-me o bornal de romeiro e a cabacinha, ou está por pouco. A jornada foi longa e muitos dos que tinham rompido marcha comigo ficaram no percurso, alma em pena e clamorosa. Alguns, vítimas pela liberdade. Quando teremos nós ensejo de prestar honras fúnebres a esses nobres caminheiros?

Dos poucos que vejo de pé, o Professor Pulido Valente é um deles. E antes de mais nada aqui rendo preito ao preux chevalier, que se traduz na linguagem de hoje por gentil amigo. Eu me declaro orgulhoso de há dezenas de anos me ver a seu lado, homem forte que é, extremoso de solicitude, inquebrantável de carácter e sólido de espírito, embora na sua cabeça tenha pousado com a auréola de jubileu a primeira neve do Inverno. A prova do meu asserto está no vigor físico e mental que lhe permite prosseguir na mais intensa actividade, iniciada desde longe, através do longo magistério, nada menos de 35 anos, na Escola Médica de Lisboa, compreendido o entreacto em que dirigiu na primeira Grande Guerra um sector clínico do Corpo Expedicionário Português. Pulido Valente foi um dos que mais contribuíram a elevar a Faculdade ao nível dignamente europeu que manteve durante largos espaço, jamais atingido pelos estabelecimentos docentes nacionais. Ali, devido mais que tudo ao seu influxo, formou-se um corpo de médicos, que são o escol do nosso meio. Era de prever que assim acontecesse com um mestre em que se conjugavam as qualidades sumas de inteligência, como poder de coordenar e de análise, intuição, essa filha primogénita do génio, se não indispensável, de importância primacial em carreiras do teor da medicina. Graças a esses dons, magnificados por uma vasta cultura, tanto literária como científica, força de vontade, instinto renovador e a mais invejável das memórias, era natural que exercesse, o professorado com insólito sucesso. E de facto exerceu, com o melhor fruto e exemplo. Nele, se por vezes acontecia mostrar-se peremptório, nunca deixou de ser o mais compreensivo que é possível com os alunos, do mesmo modo que humaníssimo com os doentes. Uns e outros se consubstanciavam ao que a ética lhe impunha como capital na sua vida. Verdade que os estudantes o temiam, e temiam-no quanto o consideravam. Temiam sobretudo não poder elevar-se à altitude que punha no ensino e, consequentemente, ao nível a que devia operar-se toda a praxis medical. Mas dada a proficiência e lucidez das suas preleções -- palavra límpida e sugestiva, raciocínio da lógica mais suasória -- os receios depressa se dissipavam. Os seus discípulos haviam de ficar-lhe pela vida fora, além de discípulos, amigos leais verdadeiros.

Nada faltava a Pulido Valente para poder desempenhar à perfeição um grande papel na medicina portuguesa e seu magistério. O que o professor da Faculdade de Medicina de Estrasburgo, Leriche, chamou "casos privilegiados" ninguém como ele sabia discerni-los no meio, não raro, duma sintomatologia complicada, como fazer ressaltar por vezes o ponto em aparência insignificante que encerrava a chave do problema. Nesta recherche de la verité aconteceu-lhe colocar-se em oposição, singularmente, com tal e tal conceito estabelecido.

Que as suas atitudes clarividentes e revolucionárias lhe criassem incompreensões pouco o incomodava, de resto. Na carta do professor Wohlwill a Pulido Valente, publicada no Livro de Homenagem, lê-se: Uma pessoa da sua índole não podia deixar de ter inimigos, e este conceito vale uma escritura. A escola, para ele, foi sempre, porém, terreno neutro quanto a política. O seu escopo essencial estava em subir o nível da cultura médica, começando pelos discípulos, e nesse empenho procedia como quem exerce um apostolado sem se importar com o resto, chuva ou vento, reacções e entraves.

A vocação didáctica sacrificou em Pulido Valente o cientista, como não podia deixar de ser. Iahnel, sábio biologista de Munique, autor de trabalhos muito falados sobre sífilis experimental, dizia ao Dr. Oliveira Machado, um dos discípulos dilectos de Pulido, a propósito da notável tese que o seu mestre apresentará a concurso sobre paralisia geral, que era pena que o autor se não houvesse consagrado à investigação.
 
Investigação? É sabido que o nosso meio não é favorável à vida especulativa mormente no domínio das ciências. Por falta de aptidão dos portugueses? É discutível. Toda a actividade dentro da família humana supõe uma experiência, sucedendo-se como os elos na cadeia. Mas os laboratórios e sua custosa instrumentação estão banidos dum país que anda descalço. E que galardão compensaria entre nós uma existência de sacrifício, que tal é a dos que se dedicam a semelhantes empresas, de que o indivíduo acaba possesso, endemoninhado contra a família, a vida de relações, os interesses elementares? E mereceria esses holocaustos uma sociedade que aceita viver há tanta soma de anos no fundo duma cisterna?

Apartado tão estúpida como inìquamente da cátedra, Pulido Valente que criou em Medicina uma moral superior, e é certo que na vida das relações outra, a da vera e combativa dignidade humana, continuou fora da Escola a sua obra maravilhosa.

É particularmente ao amigo e ao homem enamorado das artes e letras, cultor exímio de música no seu lar, lido em todas as literaturas, que eu consagro este romance mal alinhavado. Admiro a sua irredutível compleição, intransigentemente liberal, que nada faz arredar da linha da firmeza e coerência que se traçou. Admiro não menos em si o alentejano da fronteira, erecto de cabeça como de consciência, caldeado de sangue espanhol, que, todos reconhecem, avulta como o representante duma altivez Ibérica que vai passando à história. Incapaz de seguir por trilhos ínvios, na vida particular e não menos na vida política de que tem sido o mais espectador puro, idealmente interessado, do que militante afogadiço, ninguém o supera na bondade e altruísmo. Os amigos são objecto, a cada momento, da sua extremada e rara dedicação. Que horas de carinho e angústia não passou à cabeceira de Carlos Amaro, Bento Caraça, José Cutileiro, Carlos Olavo, naturezas superiores?! Quanto lhe devem, além dos colegas e amigos de todo o quadrante, cá os da sua roda, e que lhe não devo eu?!

Pulido Valente é ainda o homem de são conselho e rectilíneo proceder na plana social. Nesta hora, em que andamos todos com grilhões nos pulsos, fique o seu nome como o de Hermes no marco miliário da estrada e a legenda: adiante, e consideremos que para chegar a bom termo de viagem é preciso ser livres!»

Lx. Dez. 1958.

 

consultorio dr Pulido Valente.jpg

O grupo do consultório do professor Pulido Valente” (1955) (Abel Manta,1888-1982)

(Da esquerda para a direita e de cima para baixo, respectivamente – Vasco Ribeiro dos Santos, Mário de Alenquer, Fernando Lopes Graça, Manuel Mendes, Sebastião Costa, Luís da Câmara Reis, Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Ramada Curto, Carlos Olavo, Pulido Valente, Alberto Candeias)


********************************

« Mas já Manuel Louvadeus voltava  à atitude de reptador:
    -- A nação é de todos. A nação tem de ser igual para todos. Se não é igual para todos, é que os dirigentes, que se chamam Estado, se tornaram quadrilha. Se não presta ouvido ao que eu penso e não me deixa pensar como quero, se não deixa liberdade aos meus actos, desde que não prejudiquem o vizinho, tornou-se cárcere. Não, os serranos, mil, cinco mil, dez mil, têm tanto direito a ser respeitados como os restantes senhores da comunidade. Era a moral de Cristo: por uma ovelha... Se os sacrificam, cometem uma acção bárbara, e eles estão no direito de se levantar por todos os meios contra tal política.»...
Lisboa, Soutosa, 1958.

  [ pp. 74, 75. - CAP II]
  2ª edição Livraria Bertrand 1958.

*****************************    *****************************

«Oscilando entre um republicanismo combativo (com qualquer resquício do comunismo mítico de 93) e um arrogante individualismo, Aquilino ergueu-se à margem do psicologismo da Presença e, depois, do movimento neo-realista, que reivindicava, pelo menos em parte, como sua directriz de pensamento, as teorias do socialismo científico.
Mas rolaram os anos; a veneração ao insuperável mestre da língua, acrescida pela dignidade do seu comportamento cívico, foi dele aproximando, na prática da vida cultural e no encantamento da leitura, os expoentes do neo-realismo. Assim Aquilino se viu benquisto e rodeado por escritores como o Redol, o Alexandre Cabral, o Carlos Oliveira, o Namora e os que, mais novos uns anos, buscavam já o seu rumo estético noutras experiências e formas de narrar, mas igualmente vinculados à luta antifascista e à denúncia do sistema: o Cardoso Pires, eu, o Abelaira...
Após o ataque de Quando os Lobos Uivam, metáfora da (in)justiça daquele tempo (a rebelião do povo da serra dos Milhafres figurando, numa segunda pista de leitura, outras revoltas contra a prepotência do regime), o grande Aquilino foi perseguido e insultado, desde a chamada Assembleia Nacional às folhas dos jornais mais reaccionários. Tentou-se correr uma cortina de silêncio sobre o seu nome, e a sua obra. Em vão. O homem morreu, mas a sua arte de escritor está viva (o que não é surpreendente) neste tempo novo do após 25 de Abril.»
                                                          Urbano Tavares Rodrigues (1987)

munífico”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. 

Sem comentários:

Enviar um comentário

« OS LUSÍADAS ». Poema Épico: Dez CANTOS {(1.102 estâncias) ; (8.816 versos)}

    CANTOS Estânc i as Versos I  106 848 II 113 904 III 143 1.144 IV 104 832 V 100 800 VI 99 792 VII 87 696 VIII 99 792 IX 95 760 X 156 1.24...