LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. «INTRODUÇÃO»
TESTAMENTO ANTOLÓGICO de Aquilino Ribeiro (s/ carta de Agosto de 1962)
... «O absurdo das ideias estratificadas consistia em que Luís de Camões para ser grande poeta tinha que assentar nas coordenadas que traçaram os primeiros biógrafos e actualmente os concertistas de escola, tocadores de marimba patriótica. Se não era fidalgo, como lhe foi possível burilar toda a filigrana das suas redondilhas palacianas? Se não estudou em Coimbra, na nobre Universidade retransladada, como podia dar prova de tanto saber?
Da humildade de nascimento de Luís de Camões tornam-se porta-voz todos os actos notórios da sua vida. Mas já, àquela altura da História, origem modesta não implicava necessariamente incultura. Onde receberam a formação Gil Vicente, Mendes Pinto, Damião de Góis, Diogo do Couto, Pedro Nunes, Garcia de Orta, para não ir mais longe, figuras coetâneas no zodíaco das letras nacionais e saídos do matagal plebeu? Decerto que Luís de Camões não estudou o muito que soube e traduziu para 'Os Lusíadas' com os profissionais do Mal-Cozinhado. É admissível que, ao tempo, um espírito ávido de saber e aberto viesse a completar a sua ciência de humanidades autodidacticamente como o fizeram, nos nossos dias, ao que parece, Alexandre Herculano, Oliveira Martins e Lúcio de Azevedo, por exemplo.
Os claustros, principalmente São Domingos e Santo Antão, tinham organizado o seu curso de humanidades com disciplinado e proficiente magistério. Tão bem, pelo menos, como Santa Cruz de Coimbra, em que nos primeiros anos se veio enxertar a Universidade. E dizemos pelo menos, pois enquanto formados no seu ensino se conhecem mais de um nome ilustre que se notabilizou nas ciências e nas divinas e humanas letras, dos colégios crúzios, S. Miguel e Todos-os-Santos, nada se sabe. Pode concluir-se, portanto, com segurança, não ser ponto de fé que, para poder exibir uma boa cultura, tivesse Luís de Camões de frequentar a Universidade de Coimbra, no geral seminário de nobres e pupilos dos jesuítas, onde só não eram raros os filhos dos burgueses e ricos-homens das Beiras e filhos de moços da Casa Real que se destinassem à vida eclesiástica. Os morgados, ciosos da sua ignorância, e os plebeus, inibidos por sua própria condição, é que não iam para lá. A cultura começou ao desabrochar, contra a índole, por não ser democrática.»...
(continua)
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