domingo, 22 de fevereiro de 2026

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

     AO SR. AQUILINO RIBEIRO.

[ p. 8 / 15 ]

«Estas cousas não as compreenderá o nosso infeliz, desvairado irmão jacobino. Mas o pensador insigne que, depois de em plena crise de exuberância juvenil ter ajudado a carrear os materiais para a revolução, se impregna da coragem mental para escrever as páginas que delimitam o Jardim das Tormentas, esse me compreenderá... Se essa obra de vacuidade e de instabilidade, cuja confusa, assimétrica charpente continuamente vejo em riscos de desmoronar-se (e a que ambiciosamente se chama a democracia portuguesa), tem ainda probabilidade de equilibrar-se, essa consiste no apoio que venham a dar-lhe os aristocratas da inteligência. É para essa aristocracia que terá de apelar a nossa incongruente república de escaravelhos. Só as elites são produtoras de obras perduráveis. Um edifício feito de escórias não se aguenta. Eu sempre sorri, com altivo desprezo, para as ameaças da ignorância. Só o talento governa o mundo. Essa omnipotência tem, às vezes, os seus eclipses. Sobre ela projectam, às vezes, as suas sombras a irracionalidade e o delírio. Mas a mobilidade é a própria natureza das sombras. Elas passarão...»

                                                                    (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

    AO SR. AQUILINO RIBEIRO.

[ p. 7 / 15 ]


«Eu não acredito no dogma democrático, ou, para melhor me exprimir, não acredito que a democracia brote duma simples fórmula de jurisprudência política. Vejo na História que de todas as vezes que um regime se implantou para fazer, designadamente, democracia, sempre produziu demagogia. Foram, porventura, igualdade, fraternidade e liberdade que resultaram da revolução portentosa da França? Foi uma modalidade diversa do despotismo. Creio, contrariamente, que a democracia, a única não teórica, demonstrada pela igualdade de todos os cidadãos perante a lei, pela liberdade amplíssima de opinião e pelo exercício autêntico da soberania popular, só pode derivar duma organização social a que presida a disciplina, sob todos os seus aspectos externos e íntimos, de harmonia e de hierarquia. Como os exércitos, os povos sem organização e sem chefes, onde sejam os soldados a mandar, esboroam-se na luta. Não há nada menos democrático do que a revolução. A revolução é a tirania voltada do avesso. Se eu, braviamente cioso da minha independência, como sou, tivesse de optar entre o jugo das aristocracias e o da plebe, sem hesitar preferiria aquele. Concebo que duma aristocracia, como na Grécia e em Roma, se possa fazer uma democracia. Mas que uma obra harmoniosa possa sair das confusões plebeias, não!»

...                                                                                                                                     (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

   AO SR. AQUILINO RIBEIRO.

[ p. 6 / 15 ]


«Em uma carta escrita a uma fidalga sua parenta, narrando a entrevista que tivera na sala dos carcereiros com um anarquista, a presa do Aljube, D. Constança Teles da Gama -- que triunfo para os Javerts militares da república uma tal captura! -- escrevia estas profundas palavras: «Afinal, ele é no fundo um pobre idealista como eu. Entre um anarquista e um carmelita há apenas a diferença de uma linha. Mas essa linha cobre um abismo.» Essa reflexão da neta de Vasco da Gama, que dorme numa dura enxerga, sob os mesmos tectos que abrigam as ladras e as mulheres perdidas, expiando o delito indefensável de haver pretendido suavizar as inomináveis barbaridades da justiça política, eu a posso aplicar, quase com propriedade, ao nosso caso.

Ambos nós sendo constituídos do mesmo efémero e frágil barro humano, e ambos sofrendo dessa nobre enfermidade da alma que é a sensibilidade artística, ambos professando o mesmo religioso culto pela Beleza e tendo educado a nossa inteligência na contemplação e na meditação das mesmas obras de arte, na leitura dos mesmos poetas e dos mesmos filósofos, como seria possível que a nossa visão de harmonia social resultasse diversa? Positivamente, aspiramos -- o antigo e heróico preso da esquadra do Caminho Novo, e o antigo e laborioso chefe de gabinete dum ministro -- a finalidades idênticas. Os nossos itinerários variam. A nossa marcha difere. Eis tudo. Enquanto um de nós, na ânsia de chegar mais depressa, fustiga os corcéis com a sua rédea de bronze e vai, como um furacão, derrubando o que encontra na passagem, o outro -- e este sou eu -- caminha com cautela, para não esmagar as formigas e não assustar as abelhas.»...

                                                                                          (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

  AO SR. AQUILINO RIBEIRO.

[ p. 5 / 15 ]


«Justamente, é esta circunstância que dá excepcional e oportuna significação ao meu aparecimento na sua obra. Sem que seja preciso atribuir o seu convite a esse secreto empenho de dar um público e salutar exemplo de tolerância a uma sociedade concentrada e retraída nas suas paixões, o  facto de demonstrarmos ser possível a dois adversários políticos o darem-se cordialmente as mãos basta para desbanalizar este prefácio, que eu nunca saberia afinar pelas belezas capitosas da sua obra de artista. E eu quero, por isso mesmo, não só testemunhar-lhe o meu reconhecimento por haver arrancado da obscuridade o meu nome, dando-lhe um lugar de imerecida evidência no seu livro, mas também declarar que nele me sinto à vontade, sem o mais leve constrangimento. É que nós somos, muito mais do que à primeira vista parece, semelhantes. Ambos pertencemos à família, cada vez mais reduzida, dos que têm a coragem das suas opiniões, dos que sabem sacrificar-se pelas suas crenças, dos que podem viver e morrer com a sua fé. Esta identidade de carácter, que nos permite, ao revolucionário e ao conservador (e o meu conservantismo vela piedosamente a obra revolucionária de meus avós) entendermo-nos, explica, melhor do que as mais engenhosas e subtis dissertações, esta atracção de simpatias.»...                                                                            
                                                                                                         (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

 AO SR. AQUILINO RIBEIRO.


[ p. 4 / 15 ]

«Dir-se-ia, a um primeiro e superficial exame, que as nossas existências, por seguirem trajectórias diversíssimas, nunca se encontrariam. E, contudo, eis-nos aqui, fraternalmente juntos -- e esta fraternidade não é a de Abel e Caim.  -- Porquê? Nenhum de nós fez às suas opiniões o mínimo sacrifício em benefício desta camaradagem. Eu me conservo fiel às convicções em que se educou o meu espírito, e nelas venero um património familiar. O Sr. Aquilino Ribeiro não necessita de que eu venha servir de fiador à constância inquebrantável da sua fé de revolucionário. Hoje, como quando há doze anos, ainda vibrando à decepção dolorosa que a minha juvenil iniciação na política me custara, escrevia Os Teles de Albergaria -- tudo o que em mim raciocina encara as revoluções feitas de baixo para cima como modos iníquos de subverter o que não se sabe corrigir. Fiquei sendo, irredutìvelmente, um partidário da força consciente da inteligência contra a inteligência cega da força. Debalde tenho procurado, nas minhas pesquisas de História, constatar a pseudoverdade de que os benefícios derivantes das revoluções compensam as calamidades que originam. As revoluções, mesmo as mais pacíficas, aparecem-me pululando duma fauna moral aterradora. Para as feras que elas geram, acaba sempre por ser preciso que a Providência crie um beluário... pois que já não descem à terra os Orfeus.

Isto lhe não venho dizer para provocar, no vestíbulo duma obra literária, que eu deveria engalanar de loiros, mirtos e rosas, uma altercação política, mas apenas para patentear a fundamental divergência que, embora fazendo de nós antagonistas (nesta hora dominada, até à exaustão de todos os restantes interesses sociais, pela politica) nos permite a cordialidade indispensável à reunião, aqui, dos nossos nomes.»...
                                                                                                                                          (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

 AO SR. AQUILINO RIBEIRO.


[ p. 3 / 15 ]

 
«Então, porquê?

Porque, entre os tantos que na sua estima convivem, me escolheu a mim, esquecido novelista romântico, para que as minhas palavras coubessem no mesmo livro perto das suas? Porque havemos nós dois de nos dar as mãos no átrio deste volume? Porque acidentados, sinuosos caminhos andou a sua simpatia atrás de mim para encontrar-me neste isolamento agreste em que vivo? Que houve, que há, que haverá de comum entre os nossos destinos, aparentemente contraditórios, para que assim tenhamos de aparecer juntos, numa aliança inverosímil, perante os que o afagam e me injuriam, diante dos que o louvam e me agridem, em face dos que o exalçam e me deprimem? Como vai ser possível explicar à intolerância dos meus detractores -- que são os seus apologistas -- este enxerto híbrido do prefácio dum sobrevivente do passado no livro dum primogénito do futuro? E, se esquecermos a escandalizada plateia em burburinho, onde avultam os convertidos S. Paulos do regime, e perante a qual comparecemos, para só a nós próprios nos interrogarmos, como haveremos, ambos exigentes como somos de verdades admissíveis, de justificar esta aproximação ilógica?»
...               
 
                                  (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos - Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS.

AO SR. AQUILINO RIBEIRO.


[ p. 2 / 15 ]

«Depois, porém, que desde a folha primeira à derradeira folha, os meus olhos indagadores, acompanhados pelo meu espírito enlevado, percorreram estas trezentas páginas onde mil sabores diversos se misturam, uma certeza, sobre todas as minhas sensações de leitura, me obsidia. É que o leitor do seu livro se importará bem menos de saber o que penso das suas superiores aptidões de literato, do que de conhecer os motivos que puderam conduzi-lo a solicitar-me este prefácio dispensável, concedendo-me a honra de o trazer pela minha mão obscura ao proscénio das letras. Evidentemente não foi a aura dum nome consagrado -- tanto mais que o jacto eléctrico da celebridade hoje só ilumina no tablado os Cagliostros e os Fra-Diavolos da política... -- que em mim procurou para adorno do seu livro, que de tal enfeite não carecia, tão sumptuosamente o trajou de estilo a sua arte exímia de escultor de pensamentos.» ...
                                                                                                                                              (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS".1913. Contos. Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS


Carta-Prefácio de CARLOS MALHEIRO DIAS - [p. 1 de 15]

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CARLOS MALHEIRO DIAS

(Porto, 13 de Agosto de 1875 - Lisboa, 19 de Outubro de 1941)

 

AO SR. AQUILINO RIBEIRO.
                                        
«Acabo de voltar, lentamente, a última página do seu livro, como se me despedisse com saudade de alguém. Conservo ainda vivas as intelectuais emoções que a sua arte me provocou. Esta ruma de páginas, húmidas do prelo, considero-a como um organismo animado pelos seus pensamentos e aparatosamente vestida pela luxuosa beleza da sua arte. Um livro que se leu assim é quase como uma mulher que se possuiu, em cujas têmporas e em cujo peito, sob os nossos lábios, sentimos palpitar as artérias e arfar os pulmões. Posso dizer-lhe de memória os sítios mais belos da sua obra, onde os meus olhos se demoraram com mais regozijo, como um amante sabe lembrar-se das mais harmoniosas curvas, dos mais doces beijos, das mais inebriantes carícias, entrevistas, sorvidas e partilhadas em um lindo corpo desejado.»...

                                               (Continua)

"JARDIM DAS TORMENTAS". 1913. Contos.


«À MEMÓRIA DA GRETE, ELÍSIA SOMBRA, TUTELAR ORA E SEMPRE NO MEU TRABALHO»

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Nota Preliminar
 
«Há quase cinquenta anos que não entrava neste jardim de arbustos espinhosos. Encontrei muitos ramos secos e muitas folhas mortas pelo chão.

Como fui eu o jardineiro, novel jardineiro, não se me pode levar a mal que pegue do podão e do sacho, corte, monde, rape o musgo, areie mesmo as ruas. Tudo muito ao de leve -- sem um pé de roseira a mais, nem um pé de roseira a menos, arrancar, sequer, uma silva -- de modo a manter intacta a feição primitiva.

Voltassem -- além da figurinha gentil a cuja invocação foi consagrado o Jardim e vive no meu peito -- Gualdino Gomes, esse príncipe do espírito que perdura na memória dos meus contemporâneos, embora sem um livro, sem o nome na esquina duma rua, e Malheiro Dias, pena vibrátil e malograda, meu liberal apresentante no mundo das Letras, e é ponto de fé para mim que nada teriam a estranhar.

Dessa presumida constância me prevaleço hoje para tornar a oferecer aos meus leitores fiéis esta plantação de cardos meio exóticos, um ou outro coroado ao alto duma flor rubra, que lhe dá o ar de lança que acaba de varar a ilharga dum justiçado, e plantação ainda de escarapeteiros que picam as mãos.»

                                                        A. R.
                                  
Lisboa, 1960.
 

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sábado, 21 de fevereiro de 2026

«SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO» por Aquilino Ribeiro - MANUEL MENDES, "AQUILINO RIBEIRO: a Obra e o Homem".

 

«SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO» por Aquilino Ribeiro - MANUEL MENDES, "AQUILINO RIBEIRO: a Obra e o Homem". Editora Arcádia; 1ª edição: Junho de 1960; 2ª edição: Março de 1977.

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SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (e.4) - INIBIÇÕES SOCIAIS E ARTE

 

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SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (e.3) - INIBIÇÕES SOCIAIS E ARTE

 

(...) «Foi a propósito da reforma destes dois professores universitários que escreveu as linhas seguintes, de uma tal actualidade que elas são como um lema vivo para o Mundo de hoje:

 «Não basta que se conceda à livre literatura um largo lugar e mesmo se passe adiante, em silêncio, sempre que tresvaria. Ela precisa ainda mais de atenção e de interesse do que de silêncio; acha-se mais a seu cómodo num anfiteatro do que numa planície. Por isso nos associamos aos votos expressos pelo sr. Villemain. Permitimo-nos também lembrar, a meio dos êxitos e grandezas da nação industrial e militar, que há um país moral, literário; e sem que demos tratos à imaginação quanto aos meios de o restaurar e revigorizar, teríamos muito prazer que os outros mais hábeis do que nós se dessem a esse empenho. Há vantagem e obrigação para qualquer regime que se consolide na nossa França, que a torne próspera e sossegada, de suscitar sem perda de tempo a sua própria geração de espíritos e de talentos.»...

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (e.2) - INIBIÇÕES SOCIAIS E ARTE

 

(...) «De forma que, com capcioso engenho, condescendendo aparentemente com a opinião, a vai mirando com os novos conceitos que sabe incutir sobre o carácter e o porte de César. A certa altura, o orador toma-se de uma emoção fingida, ou tão superiormente fingida que a própria voz se embarga e só depois de um violento esforço consegue retomar a palavra. O auditório pouco a pouco vai aquecendo, ondulando, exaltando-se até comungar os sentimentos do tribuno. E o trecho maravilhoso termina com este aparte do orador:
  -- Génio do mal, eis-te desencadeado. Segue o teu caminho!

Esta arte consumada dos contrastes e sinuosa procura dos efeitos encontrámo-la no estudo de Sainte-Beuve quanto aos professores demissionários. Qualquer deles, Villemain ou Vítor Cousin e, por associação, Guizot, seu predecessor na Sorbona e mestre, eram cadaverizações insepultas, brilhantes sem dúvida, mas de um passado revoluto, que teimavam tolher o caminho a outras formas do pensamento e de arte. Gozavam de uma certa notoriedade, e Sainte-Beuve, com insidiosa e lúcida malignidade, adiantando um louvor para lhes infligir duas repreensões, submete-os ao regime de Brutus. Tanto o espírito de Cousin como de Guizot, servis à velha disciplina mental em religião, política, ética, destoavam da larga concepção de arte de Sainte-Beuve, aberta a todos os horizontes.
 «O sr. Cousin -- escreve ele -- traçava deste modo o plano ideal de uma vida de homem de letras: um monumento e muitos episódios. O monumento considera que o fez na sua tradução de Platão; quanto aos episódios, trata dele. Estudos amáveis os seus, inofensivos, em que o nosso sorriso tem de juntar-se à nossa admiração e ao nosso aplauso! Um dia há-de gravar-se por debaixo do seu busto, como se traduzisse um epigrama da antologia: Pretendeu fundar uma grande escola de filosofia, e amou Madame de Longueville».

Guizot, com os seus respeitos desmedidos pelo pretérito, o seu espiritualismo tímido, feito de encomenda, dir-se-ia, para as classes médias, era-lhe soberanamente odioso, e desarticula-o em suas facetas de homem impositivo, contraditório, topa-a-tudo.»...

 

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Charles Augustin Sainte-Beuve
 (Bolonha do Mar, 23 de Dezembro de 1804 – Paris, 13 de Outubro de 1869).


SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (e.1) - INIBIÇÕES SOCIAIS E ARTE

 

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«Folheando com mão domingueira as Causeries du Lundi, o que tantas vezes nos sucede, obra-prima aquela de crítica literária, até hoje insuperada pela clarividência, altitude e extensão, em qualquer dos povos civilizados que dão lugar de honra ao trabalho mental, caímos sobre o trecho que tem este título: De la retraite de MM.Villemain e Cousin.

Estes dois professores da Faculdade de Letras haviam requerido a aposentação, com certo ar despiciendo e tom de quem se julga insubstituível, e Sainte-Beuve, do alto da sua tribuna no Constitutionnel, começa por lhes dizer: "Por muito dispostos que nós estejamos a saudar e a honrar o que cessa, não esqueçamos esta lei superior das coisas: não há um só indivíduo que seja essencial neste Mundo, do mesmo modo que não há uma geração indispensável; a Natureza é fecunda e, depois de qualquer perda, por muito sentida e o mais irreparável que pareça, tudo se refaz breve prazo e tudo recomeça como dantes."

Voltando-se para os leitores, enceta então o seu estudo como se pronunciasse: vamos lá ver quem são estes dois figurões! E dá-nos uma página do melhor estofo literário, cortada no mesmo padrão do Júlio César de Shakespeare, quando António vem ao Fórum com o fim solapado de obter do povo a condenação de Brutus, o seu ídolo e propugnador das suas liberdades. Nunca o espírito foi mais infernalmente subtil e ardiloso, trate-se de advogado à barra dos tribunais, de orador nas Câmaras, ou de diplomata à mesa verde das Chancelarias. E ante a palavra destra, vê-se a massa popular, em levedação acelerada, tomar forma como a greda nas mãos de um estatuário, revestir fisionomia e animar-se de um fôlego tão contrário àquele de que parecia imbuída e, diremos, constituía a sua respiração própria. E a primeira sensação do leitor é de admiração para a alma criadora e sublime que modelou aquela página de uma argúcia digna de Aristóteles e de uma solidez de bronze.

Depois, para lá do nome do autor, o espírito magnifica à literatura, à vitória do logos sobre tudo o que a política, a moral, o próprio sentimento pareciam ter construído de eterno.»...

 

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Autorretrato, 1929       José Tagarro    (Cartaxo, 1902 - 1931)


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (d.4) - SEREI APENAS ESCRITOR REGIONALISTA * Pro domo mea


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(...) «Com os adultos tal preceito não é menos acaciano. Não digo que escrever com os termos corriqueiros da cozinheira não seja um processo; escrever, usando o autor de todos os recursos que possui a sua pena, seja em glossário, seja em ideias, é outro. 

Nunca vi nenhum crítico estrangeiro censurar um autor pelo vocabulário que emprega, se o emprega com propriedade. Se o emprega de molde que nem todo o bicho-careta meta o dente nos seus escritos, sem recorrer ao dicionário de quando em vez, está no seu pleníssimo direito.

É forçoso que o romancista se recalque na sua opulência e se nivele com a cultura do leitor na sua tacanhez? Basta um minuto de bom-senso, ao menos pela Pentecoste, que é a descida do Espírito Santo sobre as almas, para julgar casos destes. O pior é que não há higiene mental nos nossos meios chamados cultos, nem quem a exerça. As ideias tolas correm pelos cantos como centopeias e infiltram-se por todos os interstícios. 

O regionalismo do caldo-verde, o uso do vocábulo raro são das tais.
Oiço dizer que o português é destituído de imaginação. Será verdade. Mas possui um dom inato de iludir e iludir-se que roça, mas não é, ao que tem de saloio, pelo maquiavelismo mental mais pitoresco e inacreditável.»


SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (d.3) - SEREI APENAS ESCRITOR REGIONALISTA * Pro domo mea


 (...) «Outra acusação que vejo fulminar contra tal e tal escritor é de que usa termos raros. Termo raro é aquele que não emprega a peixeira nem o contínuo da repartição e determina, se não sintetiza, a matéria que se ignora ou em que a ignorância do leitor, tout court , tropeçou. É evidente que ninguém é obrigado a meter todo o dicionário na pinha. Mas seria absurdo que o leitor vulgar de Lineu -- engenheiro, arquitecto, comerciante, político, amanuense, professor de dança, entregues a actividades que têm um vocabulário próprio -- culpasse o autor, cuja lavra é a língua, de conhecer mais palavras do que ele, e aqui, além, o obriga a ir ao léxico, a tirar o significado da palavra pelo sentido ou simplesmente a fazer cruzes na boca. 

A leitura, de resto, pode ser e é uma forma de ensinança sem deixar de ser uma diversão. De modo que a palavra estranha ou ignorada é na leitura como o monumento que o turista encontra no seu caminho e visita se é curioso. Só na nossa terra, sem nenhuma espécie de alfândega mental, se arvorou o princípio de que se escreva apenas com termos que sejam acessíveis ao vulgo.

O mesmo se recomenda quanto a livros para crianças, o que é discutível como sistema. Com efeito, não parece nada pedagógico que o autor considere a inteligência infantil apenas no estádio já percorrido ou segundo uma estratificação de faculdades.»...



SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (d.2) - SEREI APENAS ESCRITOR REGIONALISTA * Pro domo mea

 (...) «Pergunta-se em contrapartida: pode haver regionalismo com as características da lei, num país étnica e politicamente centralizado que se percorre num dia de ponta a ponta, falando uma língua única, desprovida de dialectos, quando mais co-dialectos? As capas de Miranda, a capucha, as uvas de enforcado, os safões e a açorda alentejana não são elementos cabondes para a sua representação constituir um subgénero. São vinhetas para o folclore, mas não temas para um romance. Na essência, Portugal é igual de Norte a Sul. Em rigor não há costumes, cozinhados, indumentária especial para esta ou aquela região. As variantes são mais insignificantes que as ondas num lago quando passa um palmípede. A única coisa diferente é a geografia. Há terra de monte e de planície; de várzea e de barbeito; de floresta e de savana. Orograficamente, o Minho é diferente do Ribatejo, como Trás-os-Montes o é do Algarve. Mas poderá essa diferenciação constituir substância bastante para dar lugar ao "homem" particular de região para região? Se existe esse homem, então, sim, poderá pressupor-se escola regionalista entre nós com seus praticantes. Ainda esta particularização tem os seus quês. Onde estamos de acordo é que a Mireille, por exemplo, é obra regionalista. Regionalista ainda é Fritz Reuters, que escreveu em platdeutsh. Com efeito, um dos requisitos sobre que assenta a existência da escola regionalista é a variação idiomática. Ora nós possuímos uma língua única, com uma só morfologia, com uma prosódia, de Norte a Sul. Ainda a língua, que brotou como uma enxertia do latim colonial no tronco ibérico, e como a cobra largou a sua primeira pele na Galiza, para revestir forma própria do Minho para cá, é, sob o ângulo da unidade, um testemunho de personalização. Mal seria que fosse uma manta de retalhos. O mirandês é uma corruptela episódica. De modo que sob este aspecto não há escritores regionalistas em Portugal.

O facto de escolher para teatro tal ou tal localidade de província, com tais ou tais representantes nados e baptizados fora de Lisboa, não pode conferir habilitação ao título. Seria absurdo que um escritor, alfacinha de gema, não pudesse armar o guinhol onde lhe aprouvesse sem continuar a ser universalmente português. 
Gil Vicente a cada passo fala das Beiras, dos seus ratinhos, dos seus abades, dos seus abegões, e nem por isso é escritor regionalista, nem qualquer se lembrou de o classificar de regionalista. Tanto Hemingway, como Gide, como Somerset Maugham versam temas cosmopolitas sem deixar de ser escritores nacionais. Quer dizer: a escola não se define pelo lugar geográfico.

Dir-me-ão que o regionalismo visa a outros objectivos, seja interpretar o tipo ou a índole de uma região. À parte as cambiantes, e é negócio de folclore, os labregos de Portugal são o mesmo presépio e com a mesma psique. Esfomeados, ignorantes, velhacos, trabalhados pelos instintos, tanto o são aqui como além.

Quem faz o homem é o céu, é a Natureza, é o solo, são as leis e é a língua, que é como o molde dos pensamentos, e quem diz pensamentos diz racionalidade. Portanto, acabe-se de vez com a ideia incôngrua e sem fundamento de que há uma escola regionalista em Portugal. O que há é figurantes de carapuça ou de chapéu vareiro, de polainas de junco ou safões de pele. É pouco. Mudam-se nos bastidores. Abel Botelho nas Beiras, Camilo no Minho, no Alentejo Fialho e Brito Camacho são naipes do mesmo baralho literário. O específico é fruto da sua arte.»...

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (d.1) - SEREI APENAS ESCRITOR REGIONALISTA * Pro domo mea

 

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«No despique das letras, em que acontecia noutros tempos, entre nós, perder-se todo o decoro, e hoje, tantas vezes ainda, o respeito à rectitude e à lisura, imputam-se ao escritor falhas que são méritos e mesmo pecados contra o espírito de que está isento. De modo geral, o juízo que se professa acerca da sua pessoa literária e obra é comparável às horas que davam as antigas meridianas de algibeira: coisa sempre aproximada, sem precisão; à matroca.

Há escritores regionalistas em Portugal? Na acepção estrita do termo, tal como é definido pelo Código Justiniano da estilística em vigor, supomos que não. Por via de regra quando entre nós se chama regionalista a um escritor é com intuitos malévolos. É dá-lo dotado de asas curtas, impróprias a voo de altanaria.  Ocupe-se da pata-rega e do caldo-verde, do homem primário, das naturezas rudes. As madamas complexas, de unhas pintadas, os homens civilizados, furta-cores, os requintes da vida e da alma, o caviar em suma da civilização não é consigo, deixe isso aos Bourgets da capital.»...


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.5) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR

 (...) «Baldensperger, professor na Sorbona e crítico superior, escreve na explanação deste mesmo problema: «À arte, nada mais que à arte, é que compete regular os seus encargos e deveres». A presa que o produto literário poderá lograr da sensibilidade encontra firme correctivo e a necessária disciplina nas exigências estéticas do autor que se preza. É raro que uma obra acentuadamente deletéria deixe de ser insincera ou pretensiosa, concebida adrede para o escândalo na sua intenção mercantil. Deparar-se-á mais falta de gosto que imoralidade, mais pechisbeque literário e retórico que ouro franco e de lei, mais imperícia que espontaneidade na maior parte das obras que provocam nos leitores discordâncias que automaticamente não vão sendo reabsorvidas no conceito puro de beleza que se exala delas. A tragédia de Sófocles, o drama shakespeariano, em despeito dos horrores e crimes de que estão eivados, ninguém se lembrou acoimá-los de influxo imoral. E por isto, porque não há dúvida que a lógica total de que estão impregnados destrói toda e qualquer dissonância de pormenor.Dumas Filho dizia: «Não há teatro imoral; há apenas teatro de fancari. O mesmo escreveu Camilo mutatis mutandis: «livros sujos, conheço apenas os romances mal feitos.»

E Goethe, ainda a propósito de Werther, lamentava que por inexperiência, falta de destreza ou entusiasmo precipitado, ao representar a pusilanimidade, lhe tivesse por vezes conferido um prestígio que é apanágio da força.»

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SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.4) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR


(...) 
«Não há dúvida que, se ao activo da literatura, se aponta um vasto rol de benefícios, não deixam as almas vesgas de libelar suas pretendidas e já clássicas ruindades: endeusamento romântico da paixão, desdém do comum e quotidiano, hipertrofia da personalidade, anarquia mental tantas vezes, sadismo da celebridade, gosto de escândalo, etc., etc. À incriminação que sofreu o Werther de parte de certo bispo anglicano quanto à influência mórbida que exercia em mais de um débil mental, respondeu o próprio Goethe:
"Gostava de saber como pode V. R. ficar de bem com a sua consciência as vezes que, subindo ao púlpito, consegue, com suas palavras pavorosas a respeito das penas do Inferno, sugestionar a tal ponto um outro cérebro fraco que, acabando de perder o juízo que lhe resta, vai terminar os dias ao manicómio. Ou que para alcançar mais depressa o Céu, rompe a cometer todos os actos de maceração física que poderemos chamar a estrada do suicídio. Isso acha bem, não? Acha bem e louvado seja o Eterno! Mas já que assim é, com que direito, faça o obséquio de me dizer, se atreve a reprovar um escritor de génio por ter composto uma obra que, mercê dos espíritos tacanhos que a interpretaram, contribuiu para livrar a sociedade de uma ou duas dúzias de cretinos ou monómanos que o melhor que tinham a fazer há muito era ter-se atirado a um poço bem fundo?! Estou persuadido que todos aqueles que se matam depois de haver lido Werther fraco papel tinham a desempenhar debaixo da rosa do Sol.»...

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.3) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR

 

(...) «O escopo da literatura, bem entendido, não se confina no papel platónico, arte pela arte. Seja a noção motriz do progresso formulada assim ou assado: marcha geométrica frontal; eterno retorno; passagem do homogéneo ao diferenciado, a literatura é uma sorte de catalisador do facto social pelo que envolve de informação, impulsionamento, construtura. Ninguém ignora a acção dos enciclopedistas.

Quanto ao alcance plástico da literatura, entregue à sua "vis" criadora, nada mais concludente que o papel que teve Dickens na evolução social da Inglaterra. Foi graças aos seus romances de acerba crítica, pintando o pobre e a sua espelunca, satirizando o lorde e a sua prosápia, e à sua trasbordante simpatia humana a favor dos simples e dos deserdados que se emaciou na Grã-Bretanha a desigualdade das classes. E sendo considerado este autor como uma das causas de ordem moral que pouparam ao seu país uma revolução por meios violentos, toda a gente da sua terra o adora e abençoa.

Para que o escritor possa exercer o grande ministério que lhe cabe dentro de uma sociedade consciente e solidária, é indispensável que não traia o génio que lhe é próprio, a sua índole, a sua raça, seja livremente no meio o que uma antena é no éter quando capta os sons infinitesimais que o sulcam.

O Mundo, mormente o Mundo moral, está no oitavo dia do Génesis. Uma semana de criação foi pouco para fábrica tão complexa, e o sábio, o artista, o filósofo, o escritor, não têm mãos a medir. Em regenerar a máquina andamos todos com mais ou menos entusiasmo... com mais ou menos corda. Sem esta, larga, a pleno arbítrio, nada feito.»...

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.2) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR

 

(...) «O romance naturalmente esposará a causa do povo, se assim se pode chamar o ocupar-se com as misérias e virtudes, os sonhos e as realidades, os anseios e as cruezas do magma humano no que oferece de mais rico e profundável. O homem, este animal que está ao alto da escala biológica na majestade e na relice, é no polipeiro que se encontra mais estreme e pitoresco. O melhor dador de sangue e de arte vem dali. Por isso o romancista tem um fraco congénito por esse bicho proteico, estrelado de bem e de mal, incoerente, absurdo, mas em que palpita melhor que no seu irmão superior, já decantado da ganga elementar, o futuro do mundo. Crainquebille fulgura entre as melhores jóias de Anatole France; Poil de Carotte, entre o mais penetrante de Jules Renard; As Aventuras de Pickwick são a criação mais comovedora de Dickens.

Para que seja possível desentranhar da vida esses tipos flagrantes de humanidade, é condição indispensável que ao escritor seja lícito manejar o espéculo a todo o quadrante social. Esse espéculo é por vezes indiscreto...? Como não, se tem que surpreender a verdade onde se encontra, só assim podendo tornar-se instrumento de beleza?»...

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.1) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR

 


«Nunca soube o que era servidão aos preconceitos, ao poder, às classes, nem mesmo ao gosto do público. Se pequei, pequei por conta própria, exclusivamente.

Em todos os meus livros, se pode verificar mais ou menos esta rebeldia de carácter, desde as Terras do Demo ao Quando os Lobos Uivam. Não direi como o alferes de bandeira: morra um homem e fique fama, nem como o meu saudoso Afonso Lopes Vieira: Salvemos a alma, isto é a dignidade de consciência, mas apenas cumpri o dever contraído para comigo mesmo desde que aprendi a pensar. 

Estive também na primeira linha da barricada. O homem de letras é um interventor no mundo, não deixando por isso de fazer arte.» (...)
 

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (b.3) - VIDA E MORTE DO OBREIRO DAS LETRAS

«Raul Brandão, Brito Camacho, Agostinho de Campos, Alves Martins, Afonso Lopes Vieira, Augusto Gil, António Patrício, Bourbon e Meneses, Alfredo Brochado, Raul Proença, Gomes Monteiro, Samuel Maia, ultimamente Carlos Olavo, é densa a falange que a morte ceifou. Alguns pela sua rebeldia e inconformidade jazem no limbo. Outros penam no purgatório. Quantos gozam da luz radiosa?

Um destes estou a vê-lo subir e descer a calçada, alto e curvo, branco, de uma brancura de choupo esfolado, com a capa de Sgnarelo às costas e a bengalinha arcaica na mão, o criador do Gabiru. Tinha sido uma espécie de Luciano das ratas quanto aos pavores de além campa, um convulsionário de ideias macabras, e faleceu cercado de todos os fantasmas a que deu vida sobrenatural truculentíssima. Tinha medo do vácuo e deixou um vácuo bem assinalado no terreno das letras.

De outro, Carlos Amaro, também negreja a lacuna que ficou. Era um romântico impenitente com real e precioso talento. Condensava no sangue toda uma repugnância invencível para o esforço. Fosse insatisfação, molície nata, desdém olímpico pelo seu semelhante, não deixou mais que fátuas posto que coruscantíssimas centelhas.

Brito Camacho vinha encostar-se ali onde já Alexandre Herculano se encostava, à porta da Bertrand, a ver subir e descer o pitoresco arroio de mundanidades. Nos últimos tempos a sua inconformidade com o Universo traduzia-se mais em melancolia do que em borbotões de chiste e pilhéria. Supõe-se que partiu sem saudades.

Afonso Lopes Vieira, que escreveu a hereticíssima poesia A Cruz, da mesma índole que a Pavorosa Ilusão da Eternidade, gratuitamente atribuída a Bocage, já foi perdoado pela Igreja, cujos dignitários compareceram na erecção do seu monumento. Ainda bem. Perdoar aos mortos é altamente cristão e, quando se trata de altos espíritos, a própria coreia dos belos deuses pagãos, à testa Dionísios, aplaudiria. Há-de perdoar também a Fernando Pessoa, a Florbela Espanca, ao nosso grande Camilo, que ainda está no lugar onde reina a treva e o ranger dos dentes. Para isso é santa madre. Não preside à cristandade lusitana um nobilíssimo cultor das letras?

Carlos Olavo, que era um temperamento puro de democrata, incarnava um escritor primoroso. Dir-se-ia que o esplendor de um sombreava outro. Levou consigo, dir-se-ia, a alegria do mundo e a confiança na vitória de uma grande causa.

Há eclipses inadmissíveis na memória dos contemporâneos. As nebulosidades interpostas dissipam-se, porém, e os astros voltam a brilhar. Não é condição dos espíritos, como as brasas na noite, bruxulear e acender-se ao bafejo da aragem? Mas eu, olhando para o caminho percorrido, tenho a impressão de ter passado apenas através de uma via Ápia!» 


SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (b.2) - VIDA E MORTE DO OBREIRO DAS LETRAS

 

«Com mais filosofia ou menos filosofia, desespero ou renúncia, o resolutório é idêntico para todos. As religiões, que são Casas da Misericórdia para o espírito, prometem-nos a imortalidade, e não será heresia supor que nesse pensamento orgulhoso lateja ainda de modo subconsciente a própria lei de conservação. Porque me preocupa tanto o meu bem-estar e aspiro à beatitude plenária, ou seja a satisfação integral das minhas volições?

Independentemente da filosofia pataqueira que cada um pode bordar sobre os destinos, é sempre com olhos próximos e egoístas que observamos estas efemérides sociais.

A secção do obituário nas gazetas é, por faceto contraste, a mais viva de todas. As vagaturas sucedem-se e os vivos correm sofregamente a preenchê-las. É comum dizer-me que não há ninguém neste Mundo que seja absolutamente indispensável. Talvez. Mas também pode contrapor-se-lhe esta máxima: é que há pessoas absolutamente insubstituíveis.

Se deito olhos para a república das letras nestes últimos decénios apercebo-me de clareiras que nem todas estão preenchidas. De certo há a seara em flor. Outros estão a produzir os primeiros bons frutos outonais. Em certas épocas o Chiado era um viveiro de poetas e de candidatos à glória pelas artes e as letras. Uma sorte de Liceu, em Atenas. Hoje, menos. Desertaram para outras paragens. Elegeram possivelmente outro "forum". Lisboa multiplicou-se como sucede com todas as grandes cidades, e admite-se que vicejem em cada bairro actividades próprias. Em princípio não é para admirar que a Estrela, Campo de Ourique, Castelo, Avenidas Novas, etc. possuam como encartados os seus folhetinistas, os seus novelistas, os seus historiadores, os seus críticos e de certo os seus vates. Mas averiguando bem, o que estes bairros ostentam orgulhosamente são os seus internacionais de futebol, os seus atletas em luta greco-romana, os seus ases em halteres e em jiu-jitsu. De modo que a rarefacção de homens de letras na maturidade que se nota no Chiado é a mesma que a malina provoca numa aldeia.» (...)


SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (b.1) - VIDA E MORTE DO OBREIRO DAS LETRAS

 



«Passei a vida dobrado sobre a banca de escritor e só há pouco dei conta que estava velho. Como pôde isso ser? Pois parece que foi ainda ontem que fiz o meu curso, que me refugiei em Paris, que bati as perdizes, que amei, e já estou na casa dos setenta?!

No deslize fluvial do tempo, os homens lá vão levados tão rápido que nem reparam, breve atingindo o salto de catarata que os despenha nos abismos do silêncio e da treva.

Ouve-se afirmar que morrer custa pouco, e não passa em última análise de uma reacção simplicíssima como tudo o que ocorre na física de um colóide. A nossa fantasia é que, encharcada dos terrores medievais, pinta de negro caliginoso o panorama da hora derradeira.

Anatole France, no acto de trespassar, dirigia-se à terna sombra maternal, como que alado já acima do seu ser:
  -- Mamã! É assim a morte...?!
A um outro espírito gentil, Newton de Macedo, professor de letras, de formação cartesiana e nobre envergadura moral, que sucumbiu, prematuramente, a qualquer enfermidade traiçoeira, também ouviram murmurar:
-- Oh, deixar este Mundo é mais fácil do que se julga.

Seja embora um fenómeno de ordem fisiológica, trivial como outro qualquer, o certo é que em regra não há homem, de bem ou mal com a vida, pouco importa, que não tenha medo de morrer. Descem até penetrais improfundáveis as raízes do instinto de conservação, e anular no plano objectivo essa vis vivedoura não reverte aos foros da consciência.

Mas, assim ou assado, a torrente temporal que nos leva vai-nos envelhecendo e aproximando do inexorável pego e, se se espraiam os olhos em perspectivas interiores, vêem-se alguns homens do nosso tempo deixar-se ir à deriva com a serenidade búdica dos orientais na cheia dos seus grandes rios, e outros bracejar, espadelar a água com o vigor e a fúria de quem faz parte de uma competição. Vale a pena a freima destes últimos?»
 


ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

I - Jardim das Tormentas. 1913 (...) «Molharam-se os olhos de Floripes e o monarca tornou:   -- Ide, levai quanta tropa há em Portugal e Alg...