quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.4) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR


(...) 
«Não há dúvida que, se ao activo da literatura, se aponta um vasto rol de benefícios, não deixam as almas vesgas de libelar suas pretendidas e já clássicas ruindades: endeusamento romântico da paixão, desdém do comum e quotidiano, hipertrofia da personalidade, anarquia mental tantas vezes, sadismo da celebridade, gosto de escândalo, etc., etc. À incriminação que sofreu o Werther de parte de certo bispo anglicano quanto à influência mórbida que exercia em mais de um débil mental, respondeu o próprio Goethe:
"Gostava de saber como pode V. R. ficar de bem com a sua consciência as vezes que, subindo ao púlpito, consegue, com suas palavras pavorosas a respeito das penas do Inferno, sugestionar a tal ponto um outro cérebro fraco que, acabando de perder o juízo que lhe resta, vai terminar os dias ao manicómio. Ou que para alcançar mais depressa o Céu, rompe a cometer todos os actos de maceração física que poderemos chamar a estrada do suicídio. Isso acha bem, não? Acha bem e louvado seja o Eterno! Mas já que assim é, com que direito, faça o obséquio de me dizer, se atreve a reprovar um escritor de génio por ter composto uma obra que, mercê dos espíritos tacanhos que a interpretaram, contribuiu para livrar a sociedade de uma ou duas dúzias de cretinos ou monómanos que o melhor que tinham a fazer há muito era ter-se atirado a um poço bem fundo?! Estou persuadido que todos aqueles que se matam depois de haver lido Werther fraco papel tinham a desempenhar debaixo da rosa do Sol.»...

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