quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (b.2) - VIDA E MORTE DO OBREIRO DAS LETRAS

 

«Com mais filosofia ou menos filosofia, desespero ou renúncia, o resolutório é idêntico para todos. As religiões, que são Casas da Misericórdia para o espírito, prometem-nos a imortalidade, e não será heresia supor que nesse pensamento orgulhoso lateja ainda de modo subconsciente a própria lei de conservação. Porque me preocupa tanto o meu bem-estar e aspiro à beatitude plenária, ou seja a satisfação integral das minhas volições?

Independentemente da filosofia pataqueira que cada um pode bordar sobre os destinos, é sempre com olhos próximos e egoístas que observamos estas efemérides sociais.

A secção do obituário nas gazetas é, por faceto contraste, a mais viva de todas. As vagaturas sucedem-se e os vivos correm sofregamente a preenchê-las. É comum dizer-me que não há ninguém neste Mundo que seja absolutamente indispensável. Talvez. Mas também pode contrapor-se-lhe esta máxima: é que há pessoas absolutamente insubstituíveis.

Se deito olhos para a república das letras nestes últimos decénios apercebo-me de clareiras que nem todas estão preenchidas. De certo há a seara em flor. Outros estão a produzir os primeiros bons frutos outonais. Em certas épocas o Chiado era um viveiro de poetas e de candidatos à glória pelas artes e as letras. Uma sorte de Liceu, em Atenas. Hoje, menos. Desertaram para outras paragens. Elegeram possivelmente outro "forum". Lisboa multiplicou-se como sucede com todas as grandes cidades, e admite-se que vicejem em cada bairro actividades próprias. Em princípio não é para admirar que a Estrela, Campo de Ourique, Castelo, Avenidas Novas, etc. possuam como encartados os seus folhetinistas, os seus novelistas, os seus historiadores, os seus críticos e de certo os seus vates. Mas averiguando bem, o que estes bairros ostentam orgulhosamente são os seus internacionais de futebol, os seus atletas em luta greco-romana, os seus ases em halteres e em jiu-jitsu. De modo que a rarefacção de homens de letras na maturidade que se nota no Chiado é a mesma que a malina provoca numa aldeia.» (...)


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