quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

SOLILÓQUIO AUTOBIOGRÁFICO LITERÁRIO por Aquilino Ribeiro: (c.2) - RAZÕES DE SER DO ESCRITOR

 

(...) «O romance naturalmente esposará a causa do povo, se assim se pode chamar o ocupar-se com as misérias e virtudes, os sonhos e as realidades, os anseios e as cruezas do magma humano no que oferece de mais rico e profundável. O homem, este animal que está ao alto da escala biológica na majestade e na relice, é no polipeiro que se encontra mais estreme e pitoresco. O melhor dador de sangue e de arte vem dali. Por isso o romancista tem um fraco congénito por esse bicho proteico, estrelado de bem e de mal, incoerente, absurdo, mas em que palpita melhor que no seu irmão superior, já decantado da ganga elementar, o futuro do mundo. Crainquebille fulgura entre as melhores jóias de Anatole France; Poil de Carotte, entre o mais penetrante de Jules Renard; As Aventuras de Pickwick são a criação mais comovedora de Dickens.

Para que seja possível desentranhar da vida esses tipos flagrantes de humanidade, é condição indispensável que ao escritor seja lícito manejar o espéculo a todo o quadrante social. Esse espéculo é por vezes indiscreto...? Como não, se tem que surpreender a verdade onde se encontra, só assim podendo tornar-se instrumento de beleza?»...

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