sexta-feira, 8 de maio de 2026

«CAMÕES E A SUA MÁ ESTRELA». "O rufião de Sevilha e Leonardo, o enamorado" (continuação). 1949. [ 10 ]

 «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«Quanto ao lai de Leonardo enamorado, omisso igualmente, muito bem observou o transitório possuidor do códice, que veio parar às mãos de Faria e Sousa, que a acção sofre à altura da estância 41 (canto VI) um hiato chocante.» ...
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Vencidos vêm do sono e mal despertos;
Bocijando, a miúdo se encostavam
Pelas antenas, todos mal cobertos
Contra os agudos ares que assopravam;
Os olhos contra seu querer abertos;
Mas estregando, os membros estiravam.
Remédios contra o sono buscar querem,
Histórias contam, casos mil referem.

Os LusíadasVI . 39.


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– «Com que milhor podemos (um dizia)
Este tempo passar, que é tão pesado,
Senão com algum conto de alegria,
Com que nos deixe o sono carregado?»
Responde Leonardo, que trazia
Pensamentos de firme namorado:

– «Que contos poderemos ter milhores,
Pera passar o tempo, que de amores?
»

Os LusíadasVI . 40.

 

– «Não é (disse Veloso) cousa justa
Tratar branduras em tanta aspereza,
Que o trabalho do mar, que tanto custa,
Não sofre amores nem delicadeza;

Antes de guerra, férvida e robusta
A nossa história seja, pois dureza
Nossa vida há-de ser, segundo entendo,
Que o trabalho por vir mo está dizendo.»

Os LusíadasVI . 41.

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«... De certo foi a própria mão do autor, e não a mão canónica e moralona do Pe. Bartolomeu, que riscou as estrofes insuficientemente estéticas.
Seja como for, nelas comparece o Luís de Camões das cartas eróticas, irmão de alma, génio e incontinência de François Villon e de Miguel Cervantes de Saavedrahumilde por nascimento e condição -- di-lo o ofertório a D. Rodrigo da Cunha da edição de 1613 -- pobre, de vida tão mesquinha que o seu mister em Goa era o de escrevente público -- isto é, fazia as cartas aos soldados e aos fidalgos de letras gordas e compunha a mais papelada -- homem das cadeias, e, quando velho, pedinte de muleta e sacola.»

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Imagem extraída do «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).

Editorial Caminho.

«CAMÕES E A SUA MÁ ESTRELA». "O rufião de Sevilha e Leonardo, o enamorado". 1949. [ 9 ]


«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.


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... «O poema tem mesmo de considerar-se como um dos tombos do português.»

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«... Destoa ainda decantando uma personagem de ficção pura e não histórica ou com base na lenda. Mas o traçado acusa um realismo sólido, com aquele compósito mitológico  tão ao gosto da época e do poeta.»

«A batalha de Aljubarrota bate seu auge.


«Já pelo espesso ar os estridentes

Farpões, setas e vários tiros voam;
Debaxo dos pés duros dos ardentes
Cavalos treme a terra, os vales soam.
Espedaçam-se as lanças, e as frequentes
Quedas co'as duras armas tudo atroam.
Recrecem os imigos sobre a pouca
Gente do fero Nuno, que os apouca.
Os Lusíadas,  IV. 31.

 

«Baqueiam Velasquez e Sanches de Toledo, o monteiro e o letrado; baqueia Guevara, enlambuzado de sangue. Chegou a hora de

Salazar, grão taful e o mais antigo
Rufião que Sevilha então sostinha,
A quem a falsa amiga, que consigo
Trouxe, de noite, só, fugido tinha.

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(continua)

«CAMÕES E A SUA MÁ ESTRELA». "Quem merca os Lusíadas... Quem merca ?". «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949. [ 8 ]

 «CAMÕES E O FRADE NA ILHA DOS AMORES» por Aquilino Ribeiro. "Cadernos Históricos". 1946. 

 «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.

BIBLIOGRAFIA

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«POBRE Luís de Camões! Desde a publicação dos Lusíadas até à morte, que não vinha longe, disse mal da sua estrela. Todos esses anos ninguém fez reparo nele.»



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«Não toparam aura os Lusíadas. Frades e latinistas achavam-lhe a linguagem difícil, pretensiosa, pouco ao sabor do gosto corrente. E teria ocorrido esta lamentosa história. Na sua sede de perfeição Luís de Camões sacrificara a primeira tiragem, vendendo uns exemplares ao desbarato, rasgando e até queimando outros, tanto saíra mareada de gralhas do tipógrafo, erros de ortografia, faltas de métrica e até de gramática, efeito natural da sua inexperiência de revisor e duma composição precipitada.»

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Fonte da 1ª e última Imagens:
 «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).
Editorial Caminho.
 

quinta-feira, 7 de maio de 2026

«O CENSOR DOS LUSÍADAS». Estâncias d' Os Lusíadas "a esladroar". «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949. [ 7 ]

Cadernos Históricos (Vária). Direcção de Rocha Martins e Lopes de Oliveira. Edições Excelsior. 1946.



«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. 1949.


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«O frade, com o poeta no outro mundo, podia tripudiar à vontade sobre (o poema) a Beleza.» 

(p.26)  (o poema) in «CAMÕES E O FRADE NA ILHA DOS AMORES»;

(p.34)  (a Belezain «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS».


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Fonte das 2 Imagens:
 «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).
Editorial Caminho.

 

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«Nos Lusíadas,  há pois que esladroar as estâncias em questão, dum barroco teológico incompatível com a bela ordenança, puro estilo Renascimento, do restante poema. Até sob o ponto de vista dimensional dos cantos, essa monda se impõe. Com efeito, à parte o Canto III que conta 143 estâncias, todos os outros orçam pela centena.»

O Canto IX terminaria com os dois versos:

  88. 
Assi a fermosa e a forte companhia
O dia quási todo estão passando
Nũa alma, doce, incógnita alegria,
Os trabalhos tão longos compensando.
Porque dos feitos grandes, da ousadia
Forte e famosa, o mundo está guardando
O prémio lá no fim, bem merecido,
Com fama grande e nome alto e subido.


«Tudo o mais é redundância, enfadonha prolixidade, desenvolvimento bastante abstruso do mesmo conceito, uma mastigação tão ao avesso do ático e conciso Camões.»

O canto X, finalmente, sem as onze estâncias (109 a 119) que começam: 


109.
«Aqui a cidade foi que se chamava 
Meliapor, fermosa, grande e rica;
Os Ídolos antigos adorava,
Como inda agora faz a gente inica.
Longe do mar naquele tempo estava,
Quando a Fé, que no mundo se pubrica,
Tomé vinha prègando, e já passara
Províncias mil do mundo, que ensinara.

110.
«Chegado aqui, prègando e junto dando
A doentes saúde, a mortos vida,
Acaso traz um dia o mar, vagando,
Um lenho de grandeza desmedida.
Deseja o Rei, que andava edificando,
Fazer dele madeira; e não duvida
Poder tirá-lo a terra, com possantes
Forças d' homens, de engenhos, de alifantes.

111.
«Era tão grande o peso do madeiro
Que, só pera abalar-se, nada abasta;
Mas o núncio de Cristo verdadeiro
Menos trabalho em tal negócio gasta:
Ata o cordão que traz, por derradeiro,
No tronco, e facilmente o leva e arrasta
Pera onde faça um sumptuoso templo
Que ficasse aos futuros por exemplo.

112.
«Sabia bem que se com fé formada
Mandar a um monte surdo que se mova,
Que obedecerá logo à voz sagrada,
Que assi lho ensinou Cristo, e ele o prova.
A gente ficou disto alvoraçada;
Os Brâmenes o têm por cousa nova;
Vendo os milagres, vendo a santidade,
Hão medo de perder autoridade.

113.
«São estes sacerdotes dos Gentios
Em quem mais penetrado tinha enveja;
Buscam maneiras mil, buscam desvios,
Com que Tomé não se ouça, ou morto seja.
O principal, que ao peito traz os fios,
Um caso horrendo faz, que o mundo veja
Que inimiga não há, tão dura e fera,
Como a virtude falsa, da sincera.

114.
«Um filho próprio mata, e logo acusa
De homicídio Tomé, que era inocente;
Dá falsas testemunhas, como se usa;
Condenaram-no a morte brevemente.
O Santo, que não vê milhor escusa
Que apelar pera o Padre omnipotente,
Quer, diante do Rei e dos senhores,
Que se faça um milagre dos maiores.

115.
«O corpo morto manda ser trazido,
Que res[s]ucite e seja perguntado
Quem foi seu matador, e será crido
Por testemunho, o seu, mais aprovado.
Viram todos o moço vivo, erguido,
Em nome de Jesus crucificado:
Dá graças a Tomé, que lhe deu vida,
E descobre seu pai ser homicida.

116.
«Este milagre fez tamanho espanto
Que o Rei se banha logo na água santa,
E muitos após ele; um beija o manto,
Outro louvor do Deus de Tomé canta.
Os Brâmenes se encheram de ódio tanto,
Com seu veneno os morde enveja tanta,
Que, persuadindo a isso o povo rudo,
Determinam matá-lo, em fim de tudo.

117.
«Um dia que prègando ao povo estava,
Fingiram entre a gente um arruido.
(Já Cristo neste tempo lhe ordenava
Que, padecendo, fosse ao Céu subido);
A multidão das pedras que voava
No Santo dá, já a tudo oferecido;
Um dos maus, por fartar-se mais depressa,
Com crua lança o peito lhe atravessa.

118.
«Choraram-te, Tomé, o Gange e o Indo;
Chorou-te toda a terra que pisaste;
Mais te choram as almas que vestindo
Se iam da santa Fé que lhe ensinaste.
Mas os Anjos do Céu, cantando e rindo,
Te recebem na glória que ganhaste.
Pedimos-te que a Deus ajuda peças
Com que os teus Lusitanos favoreças.

e acabam:

119.
«E vós outros que os nomes usurpais
De mandados de Deus, como Tomé,
Dizei: se sois mandados, como estais
Sem irdes a prègar a santa Fé?
Olhai que, se sois Sal e vos danais
Na pátria, onde profeta ninguém é,
Com que se salgarão em nossos dias
(Infiéis deixo) tantas heresias?


... embutidas a nosso ver pela mão do frade, e com o que o fio da narração poética nada sofre, ficaria reduzido a   145   = ( 156 11 ), por consequência ganhando também neste plano de perspectivas.»

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Consultar:

« OS LUSÍADAS ». Poema Épico: Dez CANTOS {(1.102 estâncias) ; (8.816 versos)}


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Disponível até à data limite: 30-06-2026!
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 Carlos Ascenso André  03.01.2025

Não sou muito entusiasta da ciência dos números aplicada à apreciação de obras literária (uma espécie de aritmosofia na literatura). Mas que há coincidências espantosas, lá isso há. Salta à vista, por exemplo, a quase equivalência dos cantos V e VI. Ora, o canto V é onde está um episódio determinante em toda a narrativa, o episódio do Adamastor, momento da vitória sobre os medos, mas também profecia da história trágico-marítima que viria depois; e o canto VI é o da chegada à Índia. Os dois juntos fazem o centro geométrico do poema. Jorge de Sena foi exaustivo neste tipo de análise e Vasco Graça Moura também (em alguns momentos) usou essa lupa. Saúdo a publicação que se faz aqui pela curiosidade de que se reveste e que abre pistas muito interessantes. Carlos Ascenso André

 



«CAMÕES E A SUA MÁ ESTRELA». "O rufião de Sevilha e Leonardo, o enamorado" (continuação). 1949. [ 10 ]

  «CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949. «Quanto ao  lai  de  Leonardo enamorado , ...