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sexta-feira, 5 de junho de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 69) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DO BERÇO À NAU S. BENTO» {c. XVII de XVIII} * [ vol. I ]

 

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.


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17.cap

(continuação)
 
«Ainda as cartas particulares. As virtudes de Satanás. Lira erótica. Amor físico e seus amavios. Vénus e os génios amáveis da Terra. Acentos de suprema beleza.»
 

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«As cartas trazem o nome de alguns dos componentes do bando, fidalgos, plebeus, valentões de verdade, como esse Calixto de Sequeira que passava por ser o primeiro espingardeiro da Índia. Em contacto com esta fauna larvar e prodigiosa enriqueceu-se sua alma na compreensão do homem. Por certo que também foi nas alfurjas de Lisboa e de Goa que adquiriu a experiência que permitiu o seu génio radiasse em tão alta e flagrante floração.
Desse transcurso tão vincado e emocional ficar-lhe-ia o segredo da alma feminina. Não foi no Paço, onde moravam sobretudo bonecas convencionais, e onde, é para mim ponto de fé, jamais pusera os pés; foi ali nas ruas da Mancebia, no Mal-Cozinhado, no pátio das Arcas, que aprendeu todas essas subtilezas e cambiantes do sentir feminino e de modo geral de tudo o que é subjectivo e recôndito na vida amorosa da pessoa humana.
A obra de Luís de Camões revela uma tendência erótica que se sente a cada passo reprimida ou por força da autocrítica ou pela revisão dos censores. As redondilhas a umas matronas, que haviam de ser medianeiras com certa dama, traduzem esta sua feição, em que se combinam amor, desejo, alcovitaria e cantáridas. E como ele gorjeia bem a lição e se insinua melífluo e sugestivo! Em tudo o que diz respeito ao amor físico e suas avenidas, Luís de Camões é inigualável.»
 

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«As descrições galantes de suprema beleza, sem falar na Ilha dos Amores, abundam nas páginas do poeta. Tanto nas Rimas como nos Lusíadas.
Logo no Canto II é Vénus...
 

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«Uma composição, tocando a mesma tecla da física carnal, com certa audácia é a écloga dos Faunos:
 
    Ah, ninfas fugitivas,
    Que só por não usar humanidade 
    Os perigos dos matos não temeis!
    Para que sois esquivas?
    Que inda de nós não peço piedade,
    Mas dessas alvas carnes que ofendeis.
 
E nada mais clandestino, só para iniciados nos mistérios de Afrodite, que estes dois versos que tanto intrigaram o castíssimo Dr. José Maria Rodrigues ao descrever  Vénus :
 
    C'um delgado cendal às partes cobre
    De quem vergonha é natural reparo;
    Porém nem tudo esconde nem descobre
    O véu, dos  roxos lírios  pouco avaro.
 
Longo tem sido o debate quanto ao equivalente destes  roxos lírios . O Dr. José Maria Rodrigues entende que Camões se equivocou e lhe queria chamar   brancos ; Epifânio que são os  lírios  do valado em que fala o Cântico dos Cânticos:... ... ; com Faria e Sousa são o  oro hilado de los pelos; com Afrânio Peixoto, além de poeta, médico, as mucosas das partes pudendas. A meu ver são roxos  em virtude do efeito que produz,   com o sol,  o cendal  branco  lançado sobre o   triângulo preto

 

* * * * * * * * * *


quinta-feira, 7 de maio de 2026

«CAMÕES E O FRADE NA ILHA DOS AMORES» por Aquilino Ribeiro. "Cadernos Históricos". 1946. Frei Bartolomeu Ferreira, revedor d' "OS LUSÍADAS" [ 6 ]

Cadernos Históricos (Vária). Direcção de Rocha Martins e Lopes de Oliveira. Edições Excelsior.1946.


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«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

Os Lusíadas, X. 82.

. . . . . . . . . . . . 

«O poeta, dada a quebra de ritmo, de lógica, de côr, que há a partir da estância 82 do Canto X, escreveu daquele modo porque o frade lhe pegou na mão, se é que a versalhada não é da lavra dele e arredondada tant bien que mal  por Luís de Camões.»


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«CAMÕES E O FRADE NA ILHA DOS AMORES» por Aquilino Ribeiro. "Cadernos Históricos". 1946. Frei Bartolomeu Ferreira, revedor d' "OS LUSÍADAS" [ 5 ]

Cadernos Históricos (Vária). Direcção de Rocha Martins e Lopes de Oliveira. Edições Excelsior

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«As estâncias consagradas à Ilha dos Amores parecem representar uma contemporização de Censura para com a arte, lavradas como são em puro ouro e mais cristalinas que o cristal, mas em verdade -- escreve Caetano L. de Moura -- na pintura destas delícias o poeta não ofende nenhum sentimento nobre, nem a mera delicadeza.»

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«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

Os LusíadasX.82

«E também, porque a santa Providência,
Que em Júpiter aqui se representa,
Por espíritos mil que têm prudência
Governa o Mundo todo que sustenta
(Ensina-lo a profética ciência,
Em muitos dos exemplos que apresenta);
Os que são bons, guiando, favorecem,
Os maus, em quanto podem, nos empecem;

Os LusíadasX.83

«Quer logo aqui a pintura que varia
Agora deleitando, ora ensinando,
Dar-lhe nomes que a antiga Poesia
A seus Deuses já dera, tabulando;
Que os Anjos de celeste companhia
Deuses o sacro verso está chamando,
Nem nega que esse nome preminente
Também aos maus se dá, mas falsamente.

Os LusíadasX.84

«De facto as oitavas 82, 83 e 84 do Canto X, que martelam com um tom seco de monitória dogmática o quanto há de fabuloso nos deuses do paganismo, equivalem para todo esse jucundo corpo do Olimpo, que vem confraternizar com os navegantes, à queima dos judas de palha e alcatrão na terça-feira gorda. Não faz sentido que o autor da mágica venha ao proscénio prevenir o respeitável público: tudo isto é endrómina, quando o seu primeiro escopo visa a obter a ilusão da realidade. Assim a grande arte, mormente a da epopeia, talhada ao molde de Homero, que estructura a natureza heróica das suas personagens com actos da vida quotidiana e um irrepreensível e geométrico aprumo.»

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    (continua)

quarta-feira, 6 de maio de 2026

«CAMÕES E O FRADE NA ILHA DOS AMORES» por Aquilino Ribeiro. "Cadernos Históricos". 1946. "OS LUSÍADAS": Canto X. [ 3 ]

 

Cadernos Históricos (Vária). Direcção de Rocha Martins e Lopes de Oliveira. Edições Excelsior. 1946.



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... «O dedo reboludo do teólogo, com a polpa incardida do esturrinho, está à vista. Foi ele o vândalo. Foi ele que riscou aquele abominável acrescento de mau gosto,...» ...

«Mas prosseguindo. Calou-se o frade e ouve-se de novo a lira de Vergílio. A tarde decorre calmosa e é a hora em que ao sopro da brisa começam a erguer cabeça os jasmins e lírios agravados.» ...

 

Quando as fermosas Ninfas, cos amantes 
Pela mão, já conformes e contentes,
Subiam pera os paços radiantes
E de metais ornados reluzentes,
Mandados da Rainha, que abundantes
Mesas d' altos manjares excelentes
Lhe tinha aparelhados, que a fraqueza
Restaurem da cansada natureza.
Os Lusíadas, X.2.(2,8).


Mil práticas alegres se tocavam;
Risos doces, sutis e argutos ditos,
Que entre um e outro manjar se alevantavam,
Despertando os alegres apetitos;
Músicos instrumentos não faltavam
(Quais, no profundo Reino, os nus espritos
Fizeram descansar da eterna pena)
Cũa voz dũa angélica Sirena.
Os Lusíadas, X.5.1-4.


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«Aqui, só verdadeiros, gloriosos
Divos estão, porque eu, Saturno e Jano,
Júpiter, Juno, fomos fabulosos,
Fingidos de mortal e cego engano.
Só pera fazer versos deleitosos
Servimos; e, se mais o trato humano
Nos pode dar, é só que o nome nosso
Nestas estrelas pôs o engenho vosso.

Os Lusíadas, X.82.1-8.

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Fonte desta Imagem:
 «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).

Editorial Caminho.

(continua)

terça-feira, 5 de maio de 2026

« OS LUSÍADAS », CANTO IX {( 95 estâncias) ; ( 760 versos)} . Estrofes d' Os Lusíadas constantes de "Cadernos Históricos": «Camões e o Frade na Ilha dos Amores» por Aquilino Ribeiro (1946).

 

Cadernos Históricos (Vária). Direcção de Rocha Martins e Lopes de Oliveira. Edições Excelsior. 1946.


BIBLIOGRAFIA


https://www.rtp.pt/play/palco/p14060/e819786/os-lusiadas

Play - Os Lusíadas

Canto IX - Inês Castel-Branco
02 jan. 2025

Série inserida nas comemorações dos 500 anos de Luís de Camões que consiste na interpretação dos 10 cantos por 10 atrizes em 10 locais distintos. Numa era pós-colonialista, ouviremos as palavras, durante tantos séculos cristalizadas num só sentido, ditas em relação com a nossa atualidade. A finalidade é confrontar o texto com 500 anos com o tempo presente e perceber que reverberação estas mesmas palavras terão nos dias de hoje, num Portugal 2024. Consoante o conteúdo de cada Canto, uma atriz interpreta-o num local que retrate a nossa sociedade moderna e, de alguma forma, o nosso País.

35m  Artes e Cultura Todos
Canto IX - Inês Castel-Branco
Narração
Início do regresso com dificuldades Ilha dos Amores






 Os Lusíadas 

 I X 

 

  1 . 
TIVERAM longamente na cidade,
Sem vender-se, a fazenda os dous feitores,
Que os Infiéis, por manha e falsidade,
Fazem que não lha comprem mercadores;
Que todo seu propósito e vontade
Era deter ali os descobridores
Da Índia tanto tempo que viessem
De Meca as naus, que as suas desfizessem.


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Assi lho aconselhara a mestra experta: 
Que andassem pelos campos espalhadas;
Que, vista dos barões a presa incerta,
Se fizessem primeiro desejadas.
Algũas, que na forma descoberta
Do belo corpo estavam confiadas,
Posta a artificiosa formosura,
Nuas lavar se deixam na água pura.
Os Lusíadas, IX.65.2-4.

Dá Veloso, espantado, um grande grito: 

 – «Senhores, caça estranha (disse) é esta!
Se inda dura o Gentio antigo rito,
A Deusas é sagrada esta floresta.
Mais descobrimos do que humano esprito
Desejou nunca, e bem se manifesta
Que são grandes as cousas e excelentes
Que o mundo encobre aos homens imprudentes.
Os Lusíadas,
IX.69.2-4.

«Sigamos estas Deusas e vejamos 
Se fantásticas são, se verdadeiras.»
Isto dito, veloces mais que gamos,
Se lançam a correr pelas ribeiras.
Fugindo as Ninfas vão por entre os ramos,
Mas, mais industriosas que ligeiras,
Pouco e pouco, sorrindo e gritos dando,
Se deixam ir dos galgos alcançando.
Os Lusíadas,
IX.70.5-8.

. . . . . . . . . . . . . . .

De ũa os cabelos de ouro o vento leva,
Correndo, e da outra as fraldas delicadas;
Acende-se o desejo, que se ceva
Nas alves carnes, súbito mostradas.
Ũa de indústria cai, e já releva,
Com mostras mais macias que indinadas,
Que sobre ela, empecendo, também caia
Quem a seguiu pela arenosa praia.

Os Lusíadas,
IX.71.1-8.

Outros, por outra parte, vão topar
Com as Deusas despidas, que se lavam;
Elas começam súbito a gritar,
Como que assalto tal não esperavam;
Ũas, fingindo menos estimar
A vergonha que a força, se lançavam
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que às mãos cobiçosas vão negando;

Os Lusíadas,
IX.72.1-8.

Outra, como acudindo mais depressa
À vergonha da Deusa caçadora,
Esconde o corpo n' água; outra se apressa
Por tomar os vestidos que tem fora.
Tal dos mancebos há que se arremessa,
Vestido assi e calçado (que, co a mora
De se despir, há medo que inda tarde)
A matar na água o fogo que nele arde.

Os Lusíadas,
IX.73.1-6.

Leonardo, soldado bem disposto,
Manhoso, cavaleiro e namorado,
A quem Amor não dera um só desgosto
Mas sempre fora dele mal tratado,
E tinha já por firme pros[s]uposto
Ser com amores mal afortunado,
Porém não que perdesse a esperança
De inda poder seu fado ter mudança,
Os Lusíadas,
IX.75.1-2.

«Oh! Não me fujas! Assi nunca o breve
Tempo fuja de tua formosura;
Que, só com refrear o passo leve,
Vencerás da fortuna a força dura.
Que Emperador, que exército se atreve
A quebrantar a fúria da ventura
Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
O que tu só farás não me fugindo?
Os Lusíadas,
IX.79.1-4.

«Pões-te da parte da desdita minha?
Fraqueza é dar ajuda ao mais potente.
Levas-me um coração que livre tinha?
Solta-mo e correrás mais levemente.
Não te carrega essa alma tão mesquinha
Que nesses fios de ouro reluzente
Atada levas? Ou, despois de presa,
Lhe mudaste a ventura e menos pesa?
Os Lusíadas,
IX.80.3-4.

Oh, que famintos beijos na floresta,
E que mimoso choro que soava!
Que afagos tão suaves! Que ira honesta,
Que em risinhos alegres se tornava!
O que mais passam na manhã e na sesta,
Que Vénus com prazeres inflamava,
Milhor é exprimentá-lo que julgá-lo;
Mas julgue-o quem não pode exprimentá-lo.
Os Lusíadas,
IX.83.1-4.

Tomando-o pela mão, o leva e guia 
Pera o cume dum monte alto e divino,
No qual ũa rica fábrica se erguia,
De cristal toda e de ouro puro e fino.
A maior parte aqui passam do dia,
Em doces jogos e em prazer contino.
Ela nos paços logra seus amores,
As outras pelas sombras, entre as flores.
Os Lusíadas, IX.87.7-8.

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Mas a Fama, trombeta de obras tais, 
Lhe deu no Mundo nomes tão estranhos
De Deuses, Semideuses, Imortais,
Indígetes, Heróicos e de Magnos.
Por isso, ó vós que as famas estimais,
Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
Despertai já do sono do ócio ignavo,
Que o ânimo, de livre, faz escravo.
Os Lusíadas,
IX.92.5-8.

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Os Lusíadas, IX.28.

 95. 
E fareis claro o Rei que tanto amais,
Agora cos conselhos bem cuidados,
Agora co as espadas, que imortais
Vos farão, como os vossos já passados.
Impossibilidades não façais,
Que quem quis, sempre pôde; e numerados
Sereis entre os Heróis esclarecidos
E nesta «Ilha de Vénus» recebidos.

 


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