XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.



«Luís de Camões comediógrafo e cómico.»
«Pode dizer-se que Luís de Camões compôs as suas três peçazinhas em obediência a um propósito remunerador. Desde que as belas letras derivaram para arte industrial, o teatro foi o género que desde logo começou a render algum lucro a quem o fazia, posto que o autor calcasse o coturno de histrião, o que era de regra. É provável que Luís de Camões nos Anfitriões tomasse à sua conta o papel de Júpiter e o de Anfitrião, em que se desdobra. No Rei Seleuco devia figurar de apresentante, isto é, de compère.»



... «A meu ver, Luís de Camões glosava os motes que lhe levavam; escrevia cartas poéticas assim ou assado; dedilhava em soneto ou ode tal ou tal ária de amor; compunha a sua peça de teatro, e porventura que algumas se tenham perdido ou correram debaixo de outro nome; trabalhava, em suma, de modo a satisfazer uma clientela tão escassa como fortuita.
Compreendia-se que versejasse hoje, amanhã, depois, conforme os seus estados de alma, colocando-se na escala dos cantores, apenas pela variação, para lá da cigarra, pois que o fazia quase da mesma maneira altruísta, isto é, deitando ao vento suas notas divinas?!
Só desde que começaram a ter curso as publicações periódicas é que os poetas encontraram forma de dar finalidade àquelas das suas especulações que se não dirigiam à priminha ou à namorada. A partir dessa data, sim, puderam fazer-se admirar e dar-se perdurabilidade, degraus estes do escadós que leva ao templo da Memória, como se dizia na Academia dos Singulares.»
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