domingo, 10 de maio de 2026

«CAMÕES E A SUA MÁ ESTRELA». "As (três) Cartas Eróticas de Camões" . 1949. [ 11 ]


«CAMÕES, CAMILO, EÇA E ALGUNS MAIS». Ensaios de Crítica Histórico-Literária. Primavera de 1949.

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«RESTAM-NOS TRÊS CARTAS DE LUÍS DE CAMÕES, de sua reconhecida autoria, através das quais se entremostra a vida incontinente que levou na mocidade. Não possuía eira nem beira, nem exercia ofício. De que vivia, tudo induzindo a acreditar que a família era pobre? Supondo que tinha costela fidalga, fidalguia em todo o caso de meia tigela, qualquer trabalho mecânico lhe era desonroso.»

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«Quem houver lido com os sentidos todos não apenas as poesias menores, mas os próprios Lusíadas, terá chegado á conclusão que o poeta provou todas as voluptuosidades com os seus venenos e filtros subtis. Não armemos à hipocrisia, ignorando ou desviando os olhos. São deste barro alguns dos artistas, que honram um povo, bafejados igualmente pelo génio e a desgraça.»

«Das três cartas, uma delas aparecida já no quartel do século que atravessamos, ressalta claro como água o seu enxurdamento nas bambochatas da estroina e arruaça com um bando de birbantes e trancarruas. Faria e Sousa, na biografia que traçou do poeta, deixa pressentir este descalabro. À contra-luz de tais andanças...


«Luís de Camões era amassado do barro comum aos homens da sua época, com a diferença que os excedia nas virtudes e vícios. Devia ser uma sublimação de instintivo superior.»

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«O homem (Camões) é um mundo, a obra é outro.»
«Luís de Camões cevou os dentes todos na maçã pecadora! E ele na juventude devia tê-los rijos e carniceiros! Mas descendo a escala dos gozos materialões com loureiras e valdevinos, deslustrou-se na obra que nos levou? De modo algum. O homem é um mundo, a obra é outro.»
As três cartas que se seguem, e em cuja interpretação emperramos aqui e além, escritas, bem denotam, ao correr da pena, sem lhes alvejar ao longe a possibilidade de verem a estampa, elucidam-nos sobre esse transcurso da vida do poeta que começa com o melhor dos verdes anos, é de crer, e se estende pela idade madura, já quando soldado inválido da Índia. Luís de Camões adopta nelas um tom galhofeiro e sarcástico, uma gíria e modismos que deixaram de correr e nos embaraçam quanto ao seu exacto significado.»

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«Tal sucede com as cartas de Luís de Camões, eivadas desta frouxidão mental, não falando no abuso de tonilhos mortos, nos empastes de calão transitório, próprios da linguagem comum e não culta. Entre respigar nestas cartas as passagens que, comentadas ou não, retratam o autor, deixando um magro desperdício, e dá-las na íntegra com esse quantum de vulgar e ganga inútil, óptamos pelo último processo.»

«A primeira carta é escrita de Lisboa para um amigo que se encontrava em Coimbra, segundo se lê no códice em que pela segunda vez se achou inserta, e se situa -- conjectura muito bem, a nosso ver, o Dr. José Maria Rodrigues -- na vida do poeta por aqueles anos que vão da sua chegada de Ceuta à briga que teve no dia de Corpo de Deus.» 

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«Eis as cartas, a que nos permitimos actualizar a ortografia e apenas alterar, aqui e além, a ordem dos artigos e proposições para leitura mais correntia.»

(continua)

Retrato de Luís de Camões extraído do:
 «DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva, 1ª edição (Setembro de 2011).
Editorial Caminho.

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