(...) «Dizer-vos o que era o mundo? Misturai no almofariz a inveja, o ódio, a fome, o amor, a força, o oiro, a mentira, o sangue, a sensualidade. Agitai, triturai, e confundi molécula a molécula. Sopesai o todo: eis o mundo; retirai uma areia: eis uma alma.
A consciência não enxergava dois palmos adiante; a cada lance, antepunha-se-lhe uma teia inextricável contra que soçobrava a razão. Levaram milhares de anos os homens a erguer a paliçada atrás da qual se moviam; e era tão engenhosa que não lhe notavam a urdidura e tão densa que não consentia surtida. Como mala-arte era perfeita; o juízo humano tomara aquela direcção e marchava, marchava ventos em fora, cada vez mais cego e convicto. Quem desiludiria os homens?
Havia algumas coisas boas na terra, havia: as grandes descobertas da ciência; as realizações técnicas; as obras de beleza, radiosas como o sol que nasce; os amores que floriam nas almas; os beijos que cantavam em duas bocas. Mas que sombras, que traições em redor! Uma de minhas irmãs amava, amava de fundo amor certo moço forte e culto como ela; mas ele nascera pobre e não soubera tomar praça nas fileiras dos mandarins, e a razão de família desviou a enamorada do seu risonho querer. Casou com um armador que tinha cem leviatãos no mar e a velhice no sangue.
Eu via-a no seu palácio ressequida como uma flor de roseira a que o bicho daninho vai trinchando as raízes. O amor não passava disto: coisa de quitanda, insignificante no concurso dos interesses; a formosura e a graça -- artigos acessórios.» ...
(continua)
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etimologia : lat. bíblico Leviathan, este do hebr. bíblico Leviathan 'espécie de monstro aquático; animal que se enrosca; crocodilo; baleia'; deve-se a Thomas Hobbes (1588-1679), com seu ensaio Leviathan (1615), em lat., a vigência moderna da pal., nos seus usos retóricos; f.hist. sXIII leviathão, 1836 leviathan, a1958 leviatã
"Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"
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