sábado, 21 de março de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 4 ) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Catedral de Córdova»

 

(...)  «O senhor Arcebispo fitou-o com olhos que fuzilavam e proferiu:
— Tu mesmo me estás a confirmar a vida dissoluta de que todos os dias recebo queixa. Estou inteirado. Quanto a Pepe, numa boca como a tua, tudo o que diga tem de ser calúnia. E que não fosse, obras são obras, vêm à luz do sol, e não passam sub-reptícias na lama como minhocas. Deus o que não quer é escandalosos... escandalosos que dão brado como tu, Rafael! Pois toda a gente não vê Pepito a bater no peito?! Quem nas procissões assenta mais forte e feio as disciplinas à carne pecadora?... Sabes o que te digo, fizesses tu o que ele faz, e não tinhas que bater o queixo diante de mim com medo que te enxote desta gloriosa Catedral. Vai lá por hoje, poltrão, vai lá, mas emenda-te. Emenda-te e muito cuidadinho com a tua pessoa e deveres na casa de Deus!

E ele procurava emendar-se, que o senhor Arcebispo ao que aspirava era meter a Pepe no posto, sem levantar rumor. Pudera! Quem o regalava com toicinho-do-céu e boa doçaria, daquela de se lhe lamber o beiço, que o macanjo encomendava a uma prima que era freira em Jesus Crucificado? Por todos estes motivos e mais um, ali ia ele, esperançado em recuperar com sobejos de zelo a confiança perdida. E considerava: contas feitas, não há mal que não encerre a sua porciúncula de bem. Se não fossem as castanholas da Chica Menuda, música dos Quintos do Inferno, não ia ele por aquelas ruas desertas, o primeiro a acordar-lhe aos topetões as pedras estuporadas!» ...

                                                                                               (continua)  

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ANTOLOGIA _ A1 ( I - 60) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «Os Senhores de Montalvo»

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