quinta-feira, 26 de março de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( I - 83) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Pele do Bombo»

 

(...) «Agarrando-a pelo braço, empurrou-a tranquilamente para a porta:
  -- Quem te pega? Vai, mulher, vai!
Soltou-se o pranto nos olhos de Joana:
  -- Quando me cometeu eram sete falinhas doces...
Em voz terna, acariciado da voluptuosidade das lágrimas, retorquiu:
  --Olha, Joana, eu nunca deixarei de te socorrer; mas lá quanto a readmitir o teu homem, tó-ruça! Tenho perdido um dinheirão por causa dele; nem tu imaginas!
O sangue tingia as faces de Joana, apagando-lhes as rugas de sete ninhadas de filhos. Além de que os seus olhos muito pretos eram sempre bonitos, com o choro veio-lhe uma expressão nova, quase de donzela, que esbraseou o Loba. Passando-lhe o braço em torno do pescoço, bichanou ao ouvido:
  -- Ouve, Joana, eu cá serei sempre o mesmo para ti. Mas é preciso que me corresponda... Tu serás sempre a mesma para mim?... Diz lá...! O teu homem que vá dar o dia; tem bom corpo, trabalhe.
Em voz encatarroada, gemeu:
  -- Vamos morrer de fome.
  -- Doida... doidona... se soubesses o bem que te quero, não dizias disparates!
E, encostando a cabeça à dela, beijocou-a, deixou-lhe pelas orelhas, pelas têmporas, uma baba fátua de caracol.
  -- Joaninha, tu agora vais a casa da Borralha... hem? Já lá vou ter.
  -- Não, hoje não.
  -- Hoje, sim!
  -- E admite o meu homem?
  -- Vai, lá falaremos!
Joana não perdeu cinco minutos à espera em casa da alcoveta. O Loba chegou a soprar, olhinhos a arder, como sempre que ela descia da Serra, fresca, a cheirar a estevas e erva dos altos, carnes enxutas, apetitosa do seu ventre de vaca lasciva.
Já tarde, o homem importante, limpando o suor, desdobrava uma nota de cinco mil réis no oleado do toalete. E à pressa, enjoado, despedia-se:
  -- Aqui tens; vai com Deus. Dize ao Anacleto que não o esqueço, mas lá quanto a voltar ao leite, escusa de insistir. Adeusinho!
Em cima do catre, Joana empurrava para dentro do colete de cordões os odres lassos dos seios. Logo que o Loba saiu, precipitou-se sobre o dinheiro e escondeu-o entre o couro e a camisa, contente de poder comprar a sua fornada de pão e talvez uma saia nova de chita.
Quando chegou à Serra, os gados em procissão entravam no povo. De alma simples e bonacheirona, o Cleto não se admirou ao dar-lhe a mulher conta do recado. Nem mesmo tomou o peso da liberalidade do ricaço, habituado a elas, e de moral amolecida. Quanto à despedida irrevogável, encolheu os ombros: 
  -- Pois que dizia eu?!» ...

                                                                                  (continua)

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 https://archive.org/details/glossriosucint00gomeuoft/mode/1up?ref=ol&view=theater


Tó ruça — não faltava mais nada!
Encatarroado — com catarro.

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alcoveta

n substantivo feminino 
mulher que intermedeia relações amorosas; alcoviteira
2 mulher que dirige bordel ou prostíbulo; alcoviteira
 "Dicionário Eletrónico Houaiss da Língua Portuguesa"

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ANTOLOGIA _ A1 ( I - 85) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Pele do Bombo»

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