segunda-feira, 27 de julho de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 73) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. I de XV} * [ vol. II ]

 XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.




(Continuação)

...«Horas de Inferno. Camões pintor do mar. Antevisão do Adamastor. A população mestiça. Naturais, reinóis e portugueses.»...


«Como é que o soldado Luís de Camões, obrigado à manobra comum, não havia de ver na batalha com os elementos o Adamastor, a conjura do Olimpo, e debuxar o painel estupendo:
(Os Lusíadas, Canto VI: ... "  ...Tempestade Marítima ...")



Canto VI.
 Estâncias: 70, 71, 72.




Canto VI.
 Estâncias: 73, 74, 75 e 76(1-4).



Canto VI.

 Estâncias: 76(5-8), 77.

... ... ... ... ... ... ... ...
 
Estâncias: 84, 85(1-4).


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«O POETA NO MIRADOURO DO MUNDO». 2008. Carlos Ascenso André. «O POETA DO OLHAR: A Dimensão Visual da Épica Camoniana» [ 10 ]





«Luís de Camões, pintor pela palavra moldando a poesia  muda nas formas da pintura que fala , Luís de Camões, poeta - pintor , é bem um artista do seu tempo -- um artista para todos os tempos

«O POETA NO MIRADOURO DO MUNDO». 2008. Carlos Ascenso André. «O POETA DO OLHAR: Introdução - Poesia e Pintura» [ 2 ]


  «A Pintura é Poesia muda e a Poesia é Pintura que fala»
                                     Simónides (sécs. VI-V a.C.)






«Esta anotação do real, servida por uma agudeza de retina insuperável, exige, muito mais do que corpo presente, mão compartícipe na própria massa dos factos. Por outras palavras, os trechos marinhos dos Lusíadas, certos passos da lírica só foi possível compô-los Luís de Camões entanto que soldado raso, sujeito a todos os trabalhos da mareação, calejando os dedos a puxar as adriças, tressuando a dar à bomba, e ouvindo com torva mas obediente cara, quais chicotadas, as ordens, descomposturas e impropérios do mestre.
Se fosse menino bonito, filho de algo, com camarote aparelhado ao lado do capitão, sentiria decerto os transes daquelas horas infernais coar-lhe na 'querida alma o frio precursor da morte' como dizia Homero. Não os teria saboreado, porém, com as potências todas dos sentidos, como saboreou. 

Esta prática lhe foi benéfica do mesmo modo que todos os maus bocados, que não foram poucos, da sua vida incerta, precária, cheia de baldões, e rica de polpa, tanto para o bem como para o mal. Daí resultou a sua obra guardar uma viviscência que, por onde quer que se talhe, deita sangue, o rubro e generoso sangue dos corpos animados.» 

... ... ... ... ... 

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«Grande multidão, asiática primeiro que tudo no refervedoiro, enchia ruas e bazares, sussurrando, coleando, em aparência entregue a uma exaustinadíssima[1] actividade, de feito mais parasitária e redundante, digamos, do que outra coisa. Em confronto o que se lhe antepunha aos olhos com a noção que se ideara mercê de estudo ou de informes, Luís de Camões ia destrinçando o panorama humano. Aqueles trangalhadanças, lânguidos e fugidios, de guedelha suja e longa, braços extensos e dedos afusados, à certa que eram brâmanes, esses que, semelhantes aos levitas nas tribos de Israel, o P.e Mestre Francisco Xavier confundia, para efeito do seu ódio, com os diabos do Inferno. Falavam em tom submisso e o olhar deles parecia morto.  Em certos reflexos, porém, imprevistos de todo, as meninas dos seus olhos fuzilavam, como se acordassem nelas tigres reais mal ensonados.» 

«Camponeses canarins deviam ser os homenzinhos que iam pelas ruas chocalhando as alparcas, enlodadas da greda vermelha do solo. E uns tais de bigodes hirsutos, magreza de gatos esvaziados pela temporada do cio, punhal à cinta, ostentando uma ridícula e fidalguesca basófia, que podiam ser senão naires[2]? Ao couce dos chatins[3] do Guzerate, vestidos de saio berrante e jaleco de alamares, seguiam como sombras amplificadas e gordurosas os infalíveis e robustos latagões negros.» 





«Mais sórdidos e desprezíveis que os cães sem dono da Europa, os párias dormitavam no traço das portas, pastados por miríades de moscas; atravancavam os passeios; apanhavam pontapés dos mascates; carregavam alcovas com vitualhas, imensos, grulhas, presentes em toda a parte, verdadeira escória espumada do cadinho em que Visnu [*] depurara as quatro castas do imensíssimo formigueiro indostânico. E através desta multidão invertebrada, um ou outro português passava ancho, dominioso, talvez sem jantar, mas impando: cá vou eu!

Com espanto, não estreme de irrisão, verificava Camões como, na feira das vaidades, gente que em qualquer circunstância da vida metropolitana não punha vulto -- fidalgotes ignaros e pindéricos, filhos-família desmiolados, senhoritas que nem mesmo à luz das velas na missa das Chagas se faziam notar, funcionários apagados e modestos -- empolara ao vento oriental. Davam-lhe todos a impressão de trazer o rei na barriga. Quem podia andar a cavalo -- sempre bicho de preço importado de Ormuz -- não andava à pata. Faziam- se escoltar dum pelotão de escravos, vestindo pomposa libré. Outros tilintavam a espada, arrastando-lhe a conteira pelas pedras, com o moleque à banda de sombreiro aberto a aparar o sol.»

(Continua)

Visnu [*] 

https://pt.wikipedia.org/wiki/Dicion%C3%A1rio_Houaiss_da_L%C3%ADngua_Portuguesa


exaustinadíssima[1]
exaustinado”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/exaustinado

naires[2]
 “naire”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/naire

chatins[3]
chatim”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/chatim

terça-feira, 21 de julho de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 72) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. I de XV} * [ vol. II ]

  XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.





«Goa, mãe de toda la Índia. Os sete meses de travessia. Doenças e tempestades. A nau S. Bento. A passagem do Cabo. Horas de inferno. Camões pintor do mar.»



«Logo que davam fundo no surgidouro da Aguada, o enxame das pequenas embarcações cercava as naus. Começava a faina. Saltavam os passageiros válidos para botes e bergantins; piquetes de negros procediam à descarga de bagagens e mercadorias para fragatas e barcaças; no mais pausado ripanso [*], acostavam os batéis do Hospital de El-Rei com os enfermeiros, brâmanes no geral, a buscar os doentes, que eram infinidade.
    
Naus e galeões, por vezes com mais de dez mil tonéis de arqueação, abarrotados de pessoas, forneciam uma forte percentagem à enfermaria, não falando no obituário durante a rota.» (...)
... ... ...

«A medicina usada a bordo, ignorante da profilaxia e obrigada a ser discreta quanto ao capítulo da munição de boca, não conhecia outra botica que não fosse a sangria. Acontecia o mesmo sujeito sangrar-se duas e três vezes na passagem da Linha.»  (...)
 


«Eram grandes os riscos e trabalhos da travessia, sem os quais se esvaziaria porém a casa lusitana. Todos, até os próprios labregos do interior, tinham dado conta, ou pelo menos haviam-se convencido que a sua terra era um sáfaro e laborioso pedriscal e que lá para o Oriente, com a durindana [1] à cinta e lume no olho, se levava vida larga, de costa direita, e um dia se podia regressar podre de rico.

Os males, inerentes ao péssimo serviço de transporte, com beliches onde se vinha apertado como sardinha em canastra, acresciam-se dos percalços duma navegação mal aparelhada e mais perto da piroga do negro que do transatlântico do emigrante de hoje. As borrascas do mar eram o terror e flagelo do navegante.

A nau S. Bento, em que embarcara Luís de Camões, passou, para não fugir à sina geral, por todas as inclemências já proverbiais nestas viagens. Pior no entanto sucedeu, ao que parece, às outras três naus que por curto espaço se mantiveram de conserva ao perderem de vista a costa de Portugal. Uma, a certa altura, regressou a Lisboa, e a terceira, tresmalhada para sempre das outras, alongando o arco da derrota até o Brasil, só tarde e às más horas, em segunda monção, arribou a Goa.»



«Luís de Camões teve ensejo e tempo de sobra para fazer o seu curso de pintor do mar. E é indubitável que tirou o melhor proveito. De facto ninguém o excede, ainda que obrigado às contracturas do metro, a descrever a fenomenologia oceano-meteorológica: tempestades, trombas, enrugamento iriado das águas matinais, e por contrapartida a postura reflexa do homem. Na sua paleta combinam-se maravilhosamente o  negro tétrico  com as tintas vivas do impressionismo mais pitoresco. Com infinita delicadeza, duas palavras que equivalem a dois toques do pincel, tão bem dá uma paisagem de bonança como, com quatro carvoejamentos, as horas de confusão e inferno da borrasca. Para isso, além de ser dotado de olhos preclaros, foi preciso que toda essa acidentação lhe tivesse ferido a sensibilidade de modo imediato e contáctil. À passagem do Cabo não lhe faltou o magnífico dies irae, todas as cóleras neptunianas desencadeadas contra a casca de noz que os levava. De ânimo curioso experimentou a procela horrível, a procela dignamente literária, como vem na 'Eneida' e ele nos descreve. As vagas vinham do largo, crespas e de altura de serras, e rolando, rolando cada vez mais impetuosas, depois de tomar balanço como no eche-valdeche, saltavam por cima da nau... 
Acontecia uma ou outra quebrar na popa e, alagando o convés, engolfar-se nos porões com tanto peso que se julgavam submergidos. Os soldados davam às bombas furiosamente, mas os grumetes, conquanto o mestre berrasse por todos os foles, já não obedeciam às vozes de manobra. Outras vezes as vagas batiam no costado e, a pancada era tal que a S. Bento ia beber o mar com a outra borda.» (...)

... ... ... 



... ... ... 

«Dias e noites a fio, não enxergaram céu nem terra. No horizonte cerrado e opaco como uma lousa, desenhavam-se confusas linhas verticais, espécie de bastios [2] de bambus, e eram as cordas da chuva que caía das nuvens emborrachadas. O raio fuzilava e, rasgando as trevas, seguido logo do inaudito fragor do trovão, sufocava-lhes a voz na garganta, enquanto os olhos se deslumbravam na labareda infernal que cobria o mar, a meio da qual o troço da nau, em perspectiva, dava a ideia miseranda duma essa escavacada a arder. O vento sibilava na cordoalha, arrancando gemidos que cortavam a carne. E tão persuadidos estavam ser aquele o último dia de suas vidas, que certos passageiros, para que o padre os absolvesse, desataram a clamar em voz alta os seus pecados. E as almas pequenas, transidas até o fundo remoto do instinto, acusavam-se de abominações que vinham aumentar de horror a própria tempestade. Naquele tresloucamento e espasmo de suas pobres humanidades, corriam à deriva, não sabiam por onde. O vento tocava-os com tal raiva que faziam mais de trinta léguas por singradura [3] .» 

(continua)


durindana [1]
“durindana”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 Disponível em
bastios [2]
“bastio”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. 
Disponível em

singradura [3] 
“singradura”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em

ripanso [*]
Esclarecimento do
Instituto de Lexicologia e Lexicografia da Língua Portuguesa (ILLLP)
Academia das Ciências de Lisboa 
"A forma atualmente consagrada é ripanço.
A ocorrência de ripanso que surge na obra de Aquilino Ribeiro corresponde a uma variante usada pelo autor, mas não à forma atualmente registada."

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 75) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. II de XV} * [ vol. II ]

  XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.   «Alojamento dos soldados. O clima de Goa. O passadio dos pobres. Afrodision...