XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
(Continuação)
...«Horas de Inferno. Camões pintor do mar. Antevisão do Adamastor. A população mestiça. Naturais, reinóis e portugueses.»...
«Como é que o soldado Luís de Camões, obrigado à manobra comum, não havia de ver na batalha com os elementos o Adamastor, a conjura do Olimpo, e debuxar o painel estupendo:
(Os Lusíadas, Canto VI: ... " ...Tempestade Marítima ...")
Canto VI.
Estâncias: 70, 71, 72.
Estâncias: 73, 74, 75 e 76(1-4).
Canto VI.
Estâncias: 76(5-8), 77.
... ... ... ... ... ... ... ...
Estâncias: 84, 85(1-4).
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«O POETA NO MIRADOURO DO MUNDO». 2008. Carlos Ascenso André. «O POETA DO OLHAR: A Dimensão Visual da Épica Camoniana» [ 10 ]
«Luís de Camões, pintor pela palavra, moldando a poesia muda nas formas da pintura que fala , Luís de Camões, poeta - pintor , é bem um artista do seu tempo -- um artista para todos os tempos.»
«O POETA NO MIRADOURO DO MUNDO». 2008. Carlos Ascenso André. «O POETA DO OLHAR: Introdução - Poesia e Pintura» [ 2 ]
«A Pintura é Poesia muda e a Poesia é Pintura que fala»
Simónides (sécs. VI-V a.C.)
«O POETA NO MIRADOURO DO MUNDO». 2008. Carlos Ascenso André. PREFÁCIO [ 1 ]
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«Esta anotação do real, servida por uma agudeza de retina insuperável, exige, muito mais do que corpo presente, mão compartícipe na própria massa dos factos. Por outras palavras, os trechos marinhos dos Lusíadas, certos passos da lírica só foi possível compô-los Luís de Camões entanto que soldado raso, sujeito a todos os trabalhos da mareação, calejando os dedos a puxar as adriças, tressuando a dar à bomba, e ouvindo com torva mas obediente cara, quais chicotadas, as ordens, descomposturas e impropérios do mestre.
Se fosse menino bonito, filho de algo, com camarote aparelhado ao lado do capitão, sentiria decerto os transes daquelas horas infernais coar-lhe na 'querida alma o frio precursor da morte' como dizia Homero. Não os teria saboreado, porém, com as potências todas dos sentidos, como saboreou.
Esta prática lhe foi benéfica do mesmo modo que todos os maus bocados, que não foram poucos, da sua vida incerta, precária, cheia de baldões, e rica de polpa, tanto para o bem como para o mal. Daí resultou a sua obra guardar uma viviscência que, por onde quer que se talhe, deita sangue, o rubro e generoso sangue dos corpos animados.»
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«Grande multidão, asiática primeiro que tudo no refervedoiro, enchia ruas e bazares, sussurrando, coleando, em aparência entregue a uma exaustinadíssima[1] actividade, de feito mais parasitária e redundante, digamos, do que outra coisa. Em confronto o que se lhe antepunha aos olhos com a noção que se ideara mercê de estudo ou de informes, Luís de Camões ia destrinçando o panorama humano. Aqueles trangalhadanças, lânguidos e fugidios, de guedelha suja e longa, braços extensos e dedos afusados, à certa que eram brâmanes, esses que, semelhantes aos levitas nas tribos de Israel, o P.e Mestre Francisco Xavier confundia, para efeito do seu ódio, com os diabos do Inferno. Falavam em tom submisso e o olhar deles parecia morto. Em certos reflexos, porém, imprevistos de todo, as meninas dos seus olhos fuzilavam, como se acordassem nelas tigres reais mal ensonados.»
«Camponeses canarins deviam ser os homenzinhos que iam pelas ruas chocalhando as alparcas, enlodadas da greda vermelha do solo. E uns tais de bigodes hirsutos, magreza de gatos esvaziados pela temporada do cio, punhal à cinta, ostentando uma ridícula e fidalguesca basófia, que podiam ser senão naires[2]? Ao couce dos chatins[3] do Guzerate, vestidos de saio berrante e jaleco de alamares, seguiam como sombras amplificadas e gordurosas os infalíveis e robustos latagões negros.»
«Mais sórdidos e desprezíveis que os cães sem dono da Europa, os párias dormitavam no traço das portas, pastados por miríades de moscas; atravancavam os passeios; apanhavam pontapés dos mascates; carregavam alcovas com vitualhas, imensos, grulhas, presentes em toda a parte, verdadeira escória espumada do cadinho em que Visnu [*] depurara as quatro castas do imensíssimo formigueiro indostânico. E através desta multidão invertebrada, um ou outro português passava ancho, dominioso, talvez sem jantar, mas impando: cá vou eu!
Com espanto, não estreme de irrisão, verificava Camões como, na feira das vaidades, gente que em qualquer circunstância da vida metropolitana não punha vulto -- fidalgotes ignaros e pindéricos, filhos-família desmiolados, senhoritas que nem mesmo à luz das velas na missa das Chagas se faziam notar, funcionários apagados e modestos -- empolara ao vento oriental. Davam-lhe todos a impressão de trazer o rei na barriga. Quem podia andar a cavalo -- sempre bicho de preço importado de Ormuz -- não andava à pata. Faziam- se escoltar dum pelotão de escravos, vestindo pomposa libré. Outros tilintavam a espada, arrastando-lhe a conteira pelas pedras, com o moleque à banda de sombreiro aberto a aparar o sol.»
(Continua)
Visnu [*]
https://pt.wikipedia.org/wiki/Dicion%C3%A1rio_Houaiss_da_L%C3%ADngua_Portuguesa
exaustinadíssima[1]
“exaustinado”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/exaustinado
naires[2]
“naire”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/naire
chatins[3]
“chatim”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/chatim