XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
«Alojamento dos soldados. O clima de Goa. O passadio dos pobres. Afrodision. As três armadas. Os meses de licenciamento. Cutiladas impunes. Sentença famosa de Albuquerque...»
«...Nas várias cidades em que os portugueses haviam posto o pé, as fortalezas e feitorias ofereciam-lhes o rancho e os ocasionais agasalhos tarimbeiros. Em Goa, nem isso.»
Mas esta cidade tropical, morna e húmida, com a sua cacimba nocturna, tóxica, e o seu sol choco, dentre nuvens, que, pelo morrinhento, nas terras negras da Europa chamam sol de víboras, tinha a dar a quem chegava a calidez, a sombra dos palmeirais, e o eflúvios intensos de sexualidade que se desprendiam das mulheres, nuas, lânguidas e dengosas, o que é para o forasteiro tabuleta de aliciacão como de estalagem.»
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«Em verdade, a gente de guerra, que vinha para a Índia com o encargo de prover à conservação das conquistas e possivelmente à sua dilatação, no fundo com a mira de adquirir fortuna, quando andava em campanha dispunha do beliche dos navios e das camaratas das cidadelas. Desmobilizada, Goa era o caravancerai [a]. À falta de edifícios adequados, guzerates e banianes, que sabiam especular com as necessidades da ocupação, tinham construído casinhotos de adobe, no geral térreos, que arrendavam como podiam. A habilitação era o artigo mais caro de Goa.
Mas como se associavam quatro, seis, até oito soldados -- diz Rodrigues da Silveira -- a renda saía-lhes por uma tuta-e-meia.»
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«O passadio em Goa era coisa de somenos; roupa, quase prescindiam dela. Os gancares andavam a lavrar os campos com um ligeiro cíngulo nos rins. Só deste modo se explica que os soldados, cobrando um pré esganado, se pudessem manter, vestir, calçar, comprar armas à custa própria, e chegassem ainda a amealhar no fundo da escarcela o seu pardau [1] que, somado a pardau -- o grão a grão de que a galinha diligente enche o papo -- lhes permitiria regressar, ou cismarem regressar, às berças com a saúde arrombada para todo o sempre, sim, mas para levar vida de fidalgo, pegando à vara do pálio e casando com a filha dum senhor D. Telmo.»
«Os meses mortos, com névoa, chuveiros intermitentes, ventos desabridos que se viam anaçar [2] as águas do Mandovi como no mar alto, passavam-nos em perfeito estado de hibernação. Uns tangiam viola; outros enfrenesiavam-se na jogatilha a tangas, quando não era a leite de pombas; não poucos, os Leonardos enamorados, corriam atrás das casquivanas malabares, prevalecendo esta ocupação, porventura, a todas as mais.
Ainda havia quem poetasse, fizesse a troco duns bazarucos a correspondência da soldadesca, ajudasse no cartório dos tabeliães e vagueasse à sirga pelas aldeias, de palmeira para palmeira, a fugir às bátegas da chuva.»
...«Um dia, o soldadinho perdia as ilusões e tantas vezes desertava. Muitos -- e já contavam por milhares -- iam servir soberanos estrangeiros, ou organizavam-se em pequenas andorras livres, quites com a Metrópole e o mundo, sustentadas à ponta de espada. Macau segundo o Soldado da Índia, nasceu desta conjura de homens livres e rebeldes.»
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«Além das duas armadas, a do Norte para cruzar no estreito de Meca, a do Sul, para o Malabar, aprestava-se sempre uma terceira, composta de duas naus, que se destinava às Molucas. À sombra delas é que a galeota deste e daquele chatim procedia, à margem do monopólio real, a um tráfico que em três tempos o empandeirava ou fazia avondado [3] como Creso (*).»
(*)-Creso fora famoso pela sua riqueza, a qual foi atribuída à exploração das areias auríferas do Pactolo, rio afluente do Hermo onde, segundo a lenda, se banhara o Rei Midas (que transformava em ouro tudo o que tocava).
Mandou construir o Templo de Ártemis em Éfeso.
«O Inverno em Goa era breve, torpe e rixoso. Mal começavam a soprar as brisas da Primavera, o enervante afrodision entreabria. Os estaleiros voltavam a movimentar-se, e dos bazares saíam providos de coisas e coisas, desde a lençaria berrante à fruta e hortaliça, os mascates malabareses.»
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«Com a chegada das naus carregadas de gente de refresco, o vizo-rei ou governador dava aviamento aos planos amadurados naqueles meses de pousio. Segundo as normas, havia de prover as frotas de capitães e arregimentar as equipagens. Como massa de peleja competia a cada galé sessenta homens e trinta a cada navio. De ordinário a chusma era formada por negros cativos.
Quem queria alistar-se ia dar o nome ao palácio do governo, onde estava aberta a matrícula. Uma vez inscrito, o recruta cobrava um quarto do pré, os 2500 réis que vemos figurar no registo da Casa da Índia como adiantados a Luís de Camões.»
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«Ficavam às moscas moscas as repúblicas e interrompidas as ligações que muitos deles haviam contraído com ânimo apegadiço. Em Goa, mais do que em nenhuma parte, os soldados eram a perdição das mulheres. Além de estarem sempre prontos, por galanteria, a puxar das espadas para as defender de mouros e lascares, os portugueses tratavam-nas com a delicadeza nata de nação monógama. Para as leis de Manu (**), elas não eram mais que um campo de sementio, e as relações entre os dois sexos ressentiam-se desta dura moral. Acontecia não raro os contubérnios de soldados com mulheres indígenas descambarem na torpeza de que se não escandalizava nada a cidade voluptuária. Eram elas que vestiam, lavavam, remendavam o homem branco, e às suas horas iam ganhar com toda a espécie de humilhações o magro pecúlio com que custear as despesas do casal.»
«... Nas mulheres e no jogo estava o ópio que entorpecia a consciência do homem branco. No jogo arriscavam o seu e o alheio. Daqui, pela ladeira do vício, o deixarem-se resvalar aos crimes mais abomináveis.»
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«Dignos de lástima eram os pobres voluntários, de quem o Oriente tomava conta amarfanhando-lhes por igual corpos e almas. O índio espreitava-lhes a hora da degradação, teimosa e pacientemente, como os chacais. Quando essa hora soava, aparecia ele, implacável, servindo-se de todas as formas para cravar o seu punhal de misericórdia. Já dizia Afonso de Albuquerque: Sabeis quão má gente é esta da Índia que me puseram que eu era puto e mo provaram.»
(continua)

pardau [1]“pardau", in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
anaçar [2]
“anaçar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
avondado [3]
“avondado”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
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caravancerai [a]
https://archive.org/details/glossriosucint00gomeuoft/mode/1up?ref=ol&view=theater
Caravanserai — albergue de caravanas no deserto. (Pag. 16)
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caravancerai [a]
Caravançarai – Wikipédia, a enciclopédia livre
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O termo caravançarai[1) (também grafado caravançará[2], caravancerá[3] e caravanceralho[4]) designava um tipo de estabelecimento de tipo hoteleiro (pousada ou estalagem) que se encontrava sobretudo no Médio Oriente, Ásia Central e Norte de África, mas que também existiu um pouco por todo o Mediterrâneo e na China, que se destinava a mercadores viajantes.[5] Geralmente esses estabelecimentos também tinham funções de armazém ou entreposto comercial e situavam-se à beira de estradas, embora também fosse comum existirem em áreas comerciais de cidades, sendo usual nestes casos que fossem também mercados.[6]