sexta-feira, 7 de agosto de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 75) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. II de XV} * [ vol. II ]

 XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio. 







«Alojamento dos soldados. O clima de Goa. O passadio dos pobres. Afrodision. As três armadas. Os meses de licenciamento. Cutiladas impunes. Sentença famosa de Albuquerque...»


«...Nas várias cidades em que os portugueses haviam posto o pé, as fortalezas e feitorias ofereciam-lhes o rancho e os ocasionais agasalhos tarimbeiros. Em Goa, nem isso.»

Mas esta cidade tropical, morna e húmida, com a sua cacimba nocturna, tóxica, e o seu sol choco, dentre nuvens, que, pelo morrinhento, nas terras negras da Europa chamam sol de víboras, tinha a dar a quem chegava a calidez, a sombra dos palmeirais, e o eflúvios intensos de sexualidade que se desprendiam das mulheres, nuas, lânguidas e dengosas, o que é para o forasteiro tabuleta de aliciacão como de estalagem.»
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«Em verdade, a gente de guerra, que vinha para a Índia com o encargo de prover à conservação das conquistas e possivelmente à sua dilatação, no fundo com a mira de adquirir fortuna, quando andava em campanha dispunha do beliche dos navios e das camaratas das cidadelas. Desmobilizada, Goa era o caravancerai [a]. À falta de edifícios adequados, guzerates e banianes, que sabiam especular com as necessidades da ocupação, tinham construído casinhotos de adobe, no geral térreos, que arrendavam como podiam. A habilitação era o artigo mais caro de Goa. 
Mas como se associavam quatro, seis, até oito soldados -- diz Rodrigues da Silveira -- a renda saía-lhes por uma tuta-e-meia.»

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«O passadio em Goa era coisa de somenos; roupa, quase prescindiam dela. Os gancares andavam a lavrar os campos com um ligeiro cíngulo nos rins. Só deste modo se explica que os soldados, cobrando um pré esganado, se pudessem manter, vestir, calçar, comprar armas à custa própria, e chegassem ainda a amealhar no fundo da escarcela o seu pardau [1] que, somado a  pardau -- o grão a grão de que a galinha diligente enche o papo -- lhes permitiria regressar, ou cismarem regressar, às berças com a saúde arrombada para todo o sempre, sim, mas para levar vida de fidalgo, pegando à vara do pálio e casando com a filha dum senhor D. Telmo.» 


«Os meses mortos, com névoa, chuveiros intermitentes, ventos desabridos que se viam anaçar [2] as águas do Mandovi como no mar alto, passavam-nos em perfeito estado de hibernação. Uns tangiam viola; outros enfrenesiavam-se na jogatilha a tangas, quando não era a leite de pombas; não poucos, os Leonardos enamorados, corriam atrás das casquivanas malabares, prevalecendo esta ocupação, porventura, a todas as mais. 
Ainda havia quem poetasse, fizesse a troco duns bazarucos a correspondência da soldadesca, ajudasse no cartório dos tabeliães e vagueasse à sirga pelas aldeias, de palmeira para palmeira, a fugir às bátegas da chuva.» 



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«Um dia, o soldadinho perdia as ilusões e tantas vezes desertava. Muitos -- e já contavam por milhares -- iam servir soberanos estrangeiros, ou organizavam-se em pequenas andorras livres, quites com a Metrópole e o mundo, sustentadas à ponta de espada. Macau segundo o Soldado da Índia, nasceu desta conjura de homens livres e rebeldes.»
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«Além das duas armadas, a do Norte para cruzar no estreito de Meca, a do Sul, para o Malabar, aprestava-se sempre uma terceira, composta de duas naus, que se destinava às Molucas. À sombra delas é que a galeota deste e daquele chatim procedia, à margem do monopólio real, a um tráfico que em três tempos o empandeirava ou fazia avondado [3] como Creso (*)


(*)-Creso fora famoso pela sua riqueza, a qual foi atribuída à exploração das areias auríferas do Pactolo, rio afluente do Hermo onde, segundo a lenda, se banhara o Rei Midas (que transformava em ouro tudo o que tocava).
Mandou construir o Templo de Ártemis em Éfeso.



«O Inverno em Goa era breve, torpe e rixoso. Mal começavam a soprar as brisas da Primavera, o enervante afrodision entreabria. Os estaleiros voltavam a movimentar-se, e dos bazares saíam providos de coisas e coisas, desde a lençaria berrante à fruta e hortaliça, os mascates malabareses.»
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«Com a chegada das naus carregadas de gente de refresco, o vizo-rei ou governador dava aviamento aos planos amadurados naqueles meses de pousio. Segundo as normas, havia de prover as frotas de capitães e arregimentar as equipagens. Como massa de peleja competia a cada galé sessenta homens e trinta a cada navio. De ordinário a chusma era formada por negros cativos.

Quem queria alistar-se ia dar o nome ao palácio do governo, onde estava aberta a matrícula. Uma vez inscrito, o recruta cobrava um quarto do pré, os 2500 réis que vemos figurar no registo da Casa da Índia como adiantados a Luís de Camões.»

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«Ficavam às moscas moscas as repúblicas e interrompidas as ligações que muitos deles haviam contraído com ânimo apegadiço. Em Goa, mais do que em nenhuma parte, os soldados eram a perdição das mulheres. Além de estarem sempre prontos, por galanteria, a puxar das espadas para as defender de mouros e lascares, os portugueses tratavam-nas com a delicadeza nata de nação monógama. Para as leis de Manu (**), elas não eram mais que um campo de sementio, e as relações entre os dois sexos ressentiam-se desta dura moral. Acontecia não raro os contubérnios de soldados com mulheres indígenas descambarem na torpeza de que se não escandalizava nada a cidade voluptuária. Eram elas que vestiam, lavavam, remendavam o homem branco, e às suas horas iam ganhar com toda a espécie de humilhações o magro pecúlio com que custear as despesas do casal.»


«... Nas mulheres e no jogo estava o ópio que entorpecia a consciência do homem branco. No jogo arriscavam o seu e o alheio. Daqui, pela ladeira do vício, o deixarem-se resvalar aos crimes mais abomináveis.»

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«Dignos de lástima eram os pobres voluntários, de quem o Oriente tomava conta amarfanhando-lhes por igual corpos e almas. O índio espreitava-lhes a hora da degradação, teimosa e pacientemente, como os chacais. Quando essa hora soava, aparecia ele, implacável, servindo-se de todas as formas para cravar o seu punhal de misericórdia. Já dizia Afonso de Albuquerque: Sabeis quão má gente é esta da Índia que me puseram que eu era puto e mo provaram.»

(continua)


pardau [1]

pardau", in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.

anaçar [2]
anaçar”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.

avondado [3] 
avondado”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.

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caravancerai [a]

https://archive.org/details/glossriosucint00gomeuoft/mode/1up?ref=ol&view=theater

 Caravanserai   albergue de caravanas no deserto. (Pag. 16)


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caravancerai [a]

Caravançarai – Wikipédia, a enciclopédia livre

https://share.google/JoJzt2NxEg0NLN9P0

O termo caravançarai[1) (também grafado caravançará[2], caravancerá[3] e caravanceralho[4]) designava um tipo de estabelecimento de tipo hoteleiro (pousada ou estalagem) que se encontrava sobretudo no Médio Oriente, Ásia Central e Norte de África, mas que também existiu um pouco por todo o Mediterrâneo e na China, que se destinava a mercadores viajantes.[5] Geralmente esses estabelecimentos também tinham funções de armazém ou entreposto comercial e situavam-se à beira de estradas, embora também fosse comum existirem em áreas comerciais de cidades, sendo usual nestes casos que fossem também mercados.[6]



segunda-feira, 3 de agosto de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 74) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. I de XV} * [ vol. II ]

      XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.




(Continuação)

...«Naturais, reinóis e portugueses. A evangelização dos brâmanes. Baptismos e doutrina cristã. Cá nesta Babilónia...»



«As portuguesas, tomadas damas de prol, ainda que não passassem de mulheres de escrivão ou bacharel, eram vê-las de cadeirinha ou de palanquim, ao ombro de negros da Guiné, e acaudatadas duma procissão de servas. Pintadas como ídolos de pagode, para o sainete ser mais adequado, mascavam o bétel. Não faltavam galantins a catrapiscá-las. E às portas das quitandas, os impagáveis rodamontes, birbantes de Alfama, chulos da Rua da Mancebia, a deitar lume pelas ventas, passeavam olhares de desafio por céu e terra. Entre eles avistou conhecidos velhos, que lhe lembraram desaguisados da estúrdia lisboeta, o Toscano, o Calisto, filho de Calisto de Sequeira, escrivão da Cozinha de El-Rei, que era quartão e homem de maus fígados.»



«Marchetando de preto a esta população variegada, viam-se padres, muitos padres, padres de todas as ordens e feitios, redondos, baixos, altos, ascéticos, no geral de loba desapertada e sem cabeção na loba. Uns na Rua Direita, postados à espalda dos cambistas malabares, por detrás das bancas, vigiavam, como quem não quer a coisa, a veniaga que ali faziam os seus corretores de bolsa; outros iam, vinham, rápidos afogados; surgiam nas encruzilhadas das ruas; apareciam, desapareciam, agitando às vezes uma campainha e clamando:
    -- Mandai vossos filhos e filhas, escravos e escravas, à santa doutrina na Igreja de N.ª S.ª do Rosário, por amor de Deus!»

«Goa requintava em relação à Metrópole de hábitos que lá já eram notados e aqui, por isso mesmo, se tornavam grotescos ao último grau. Ao fim de umas horas de deambuleio por avenidas e betesgas, Luís de Camões acabou por se formar um juízo. Esse juízo era em desabono de Goa. Não, não gostava da terra, nem da gente, nem de nada do que via. Estava de resto na propensão do seu temperamento e sobretudo do seu estado: não era um combatente compelido da milícia do Oriente?»



«Precisamente chegara a Goa quando o governador Francisco Barreto acabava de decretar o extermínio das religiões gentias. Pelas ruas, ao som de pífaros e atabales, os pregoeiros reapareciam a ler, como tantas vezes já,as disposições que proibiam nos territórios vassalos do rei de Portugal qualquer outro culto que não fosse o cristão, e enunciavam as penalidades respectivas contra os transgressores. Simultaneamente davam conhecimento doutras providências respeitantes aos privilégios, que desfrutavam os brâmanes e gancares, e lhes eram suprimidos.»

... ... ...



«In continenti (Imediatamente) iniciou-se a obra de combate às religiões não nazarenas com uma campanha cerrada de propaganda e de catequese. Os padres jesuítas romperam a baptizar a torto e a direito; na cidade e nas aldeias; meninos e velhos; homens forros e escravos. Hora a hora entravam na cidade grandes ranchadas das trinta aldeias da Tisvari baneane, ajoujadas de flores e tirsos, cantando e bailando. A caminho da igreja de Santo Antão, onde os esperava a pia do baptismo, atestada da água lustral, detinham-se nas praças gritando a única palavra que sabiam articular: cristão! cristão! E que a fé ia em bom ponto -- proclama-o o Oriente Conquistado -- eram indício seguro os meninos, que ainda não balbuciavam, fazendo ao colo das mães, com os dedinhos, o sinal-da-cruz.»

... ... ... 

«As dezenas de templos, de que a capital da Índia se paramentara em pouco mais de meio século, tornavam-se com as novas disposições operosas fábricas de proselitismo. Quando se passava à boca das galilés, era-se surpreendido por uma lufada de vozes barbarescas guinchadas: os catecúmenos indígenas, em cujas gargantas arranhavam o latim e as vozes da Redenção, a cantarem a doutrina como melhor processo de a encasquetarem na cachimónia. O mesmo se praticava nas casas particulares quanto às rezas quotidianas, mas aí era no propósito matreiro de os coagir, com dar testemunho, a não deixar de cumprir aquele preceito de bons cristãos.»





«Em breves dias ajuizou Luís de Camões do que valia debaixo de vários aspectos aquela projecção de Portugal na Ásia longínqua. As populações nativas apenas com fictícia aceitação sofriam a sua tutela. E a população imigrada degradava-se na mais apavorante das dissoluções morais. Não havia freios de nenhuma ordem capazes de travar na Índia o desencadeamento dos instintos maus: ganhuça, gozo, soberba, despotismo. O exemplo partia do alto, do primeiro magistrado, e contagiava toda a hierarquia.»





«Sem embargo de Goa ser uma cidade tão entranhadamente devota e vigiada pelos sete olhos de Argos das Ordens, os soldados viviam na maior indiferença das práticas religiosas. Com eles, carne de batalha, sustentáculos do apostolado, era-se tolerante. Seus concubinatos, suas rixas, sua vida de torpeza e flagrante sugilação [1] passavam à margem do Decálogo, o mesmo é que do foro eclesiástico, que em tudo metia a sonda e, se valia a pena, uma alavanca de manobra.»





«Luís de Camões teve a impressão nítida de que tudo o que fora importado da Europa, homens, mulheres, costumes, governo, poder militar e civil, Cristo e as Ordenações, estava em franca e acelerada desagregação. Gangrena. Lá se iam as suas esperanças, os seus pobres sonhos de ressarcimento e vida nova. A náusea subia-lhe à garganta. E, reflexo amaríssimo e aziago do estado de espírito, lavrou neste 'soneto' a sua execração:

    Cá nesta Babilónia, donde mana
    Matéria a quanto mal o mundo cria;
    Cá, donde o puro amor não tem valia,
    Que a mãe, que manda mais, tudo profana...
    

    Cá, donde o mal se afina, o bem se dana,
     ... ... ... ... ...
     ... ... ... ... ...
    Cuida que um nome vão a Deus engana...


    Cá neste labirinto, onde a nobreza,
     ... ... ... ... ...
    às portas da cobiça e da vileza...


    Cá neste escuro caos de confusão
     ... ... ... ... ...
    Vê se me esquecerei de ti, Sião!



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sugilação [1]
“sugilação”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. 




ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 75) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. II de XV} * [ vol. II ]

  XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.   «Alojamento dos soldados. O clima de Goa. O passadio dos pobres. Afrodision...