(...) «Assim fizeram os dois, insensivelmente indo dar ao sítio em que o Sátiro prelibava as voluptuosidades sem par. Na luz fosca da trovoada -- que já os relâmpagos chicoteavam os horizontes -- o sorriso lúbrico do fauno parecia despregar-se da pedra e vir enlabuzar as almas. E, jactancioso, mofava, ao mesmo tempo, de quem daquele jeito não sabia compartir. Bem firmes, as suas plantas caprinas tomavam a terra como palco do seu gozo, mais nada que palco; os braços, que agora ilaqueavam a ninfa, soltar-se-iam breve para mimar um epodo entre satírico e báquico; e já a expressão cínica dos olhos e dos lábios dizia à ninfa sujeita:
-- Que mais é a vida?
Mafalda, que num assomo de nervos ia ripando e amarrotando as rosas, disse para D. Gil:
-- Este grupo... este fauno tem um ar de escárnio que bole com os nervos. Hei-de mandá-lo fazer em estilhas...
-- Que escárnio descobriu num mármore de tão belas formas?
-- Não vedes?!... -- e esta resposta foi dada com sorriso tão de malícia e galantaria que a alma de Gil se abrasou.
-- Cuido, sim, que está a dar uma lição... -- proferiu, volvendo para ela os olhos, que demorara no Sátiro, menos a estudar que a refazer-se do anseio de que se acompanhava a ebriedade que o tomou.
-- Pode ser!
-- ... a lição do que é tudo...
Mafalda baixou a cabeça para terra e o entendimento dele julgou ver claro. A medo, pegou-lhe da mão que sentiu abandonar-se; e, depois de a afagar, beijou-a. Espreitou-lhe a face e viu que se descoloria, afogueada, branca, branca como as açucenas, e nela leu sujeição. Abraçou-a pela cinta que lhe pareceu flectir-se... estreitou. E, ante aquela passividade que, todavia, a luz grave do semblante inculcava como incerta, com vozes de amor buscou a boca luxuriante, boca mais deleitosa que nem enflorada de rubras rosas. Num sobressalto -- vergonha, repulsa, sabia-o Deus -- Mafalda desprendeu -se e, às mãos ambas, cobriu o rosto.
Gil de Tavera soltou-a então, pálido, de garganta seca, mais tonto do que se o abismasse um raio. E, no instante que decorreu, ouviu-se a toadilha do ribeiro; em seus jardins os animálculos desferiam cânticos repassados de amor; o Sátiro instigava, com mais porfia e um aceno impudico de alcoviteiro, a provar dos frutos proibidos. Já a trovoada varrera por longe, rebalsando-se à flor do solo uma aragem branda, prenhe de rescendores e afagos.
Mafalda levantara o rosto e olhava ao largo. Iluminou-se-lhe dum sorriso desnevado, um sorriso como sol sobre a neve e, um segundo muda, despediu... deitou a correr.
Gil ficou pregado ao chão, atónito com o desenlace, a vê-la seguir caminho, altiva e desdenhosa. E, subitamente, o seu espírito enxergou; e, penetrando o sentido que era legítimo supor no jeito de confusão e no sorriso irónico de Mafalda, pungiu-o uma dor tão acerba que de bom grado aceitaria a morte se a morte, corporizando-se, se propusesse levá-lo.» ...
(continua)
Um Blog utilizado para a divulgação das obras de Aquilino Ribeiro. «Move-me apenas o culto da verdade, pouco me importando que seja vermelha ou branca» [Aquilino Ribeiro]
segunda-feira, 23 de março de 2026
ANTOLOGIA _ A1 ( I - 38 ) - JARDIM DAS TORMENTAS. 1913. Contos. «A Tentação do Sátiro»
I - Jardim das Tormentas. 1913
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