sábado, 25 de abril de 2026

«25 DE ABRIL, O GRANDE VENCEDOR» por Adão Cruz. «O Vinte e cinco de Abril é um poema universal»


Adão Cruz: Médico, poeta e pintor. Foi médico militar na Guiné durante a Guerra Colonial.

25 de ABRIL – ADÃO CRUZ



https://aviagemdosargonautas.net/2018/04/25/25-de-abril-adao-cruz/
O Vinte e cinco de Abril é um poema universal.

É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema. Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais foguetes ou menos foguetes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável. Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em muitos países do mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, renascendo e reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão no seio de um colectivo humano. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora e senhora da mentalidade saudável do homem cidadão e do político sério, honesto, social e bem intencionado. Pondo de lado a ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada mas vítima de grupos organizados a partir de altas instâncias poderosamente perversas, por mais cru que nos pareça, não devemos escamoteá-lo: uma boa parte da humanidade sempre foi podre e continua podre. Gente podre do ponto de vista da desumanidade, da desigualdade, da perda de consciência, da honra e dignidade, da crueldade, do ódio, da vingança, da sede de sangue, do deus dinheiro acima de tudo, do poder a qualquer preço, da ganância, da guerra e da morte como indústria. E do cancro que gera todas estas metástases, a eterna corrupção. Corrupto significa podre. Estes sim, sempre foram e continuam a ser os inquisidores dos grandes sonhos, os mesmos de sempre, desde a morte de Giordano Bruno até à fogueira dos belíssimos versos do magnífico poema que abriu as nossas almas no vinte e cinco de Abril.

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25 DE ABRIL, O GRANDE VENCEDOR

por Adão Cruz

O 25 de Abril foi o mais importante fenómeno político-social da nossa história moderna. O mais fascinante fenómeno político-social da vida de todos aqueles que tinham dentro de si a terra preparada para nascerem cravos.

Foi uma rajada de vento estilhaçando as janelas do tempo e deixando entrar o futuro e os sonhos pela mão dos pequenos gestos de cada um de nós. Uma generosa pincelada de cor e de vida nas paredes gastas da existência, nas palavras desencantadas e nos rostos mortos da esperança. O abrir da madrugada que há tanto tempo se recusava a ser dia.

Sensação única e irrepetível. A praça do entusiasmo era demasiado grande e a alegria brotava em cada esquina, entoando canções que ardiam no ventre da arte e da poesia. Eram muitas as certezas, ainda mais as incertezas e uma cândida ingenuidade brilhava em todos os olhos. Acreditava-se que neste pérfido mundo ainda havia almas grandes, as únicas capazes de ultrapassar a fronteira para além da qual o homem adquire a dimensão da cidadania, da honra e da dignidade.

Ao calor do 25 de Abril se deve o germinar da revolucionária ideia de que é na relação com os outros que nós percebemos quem somos e que o sentido da nossa existência é o sentido da nossa coexistência. A maior conquista do 25 de Abril foi, de facto, o nascimento de uma necessidade crescente de sentir a beleza, o autêntico, a verdade, o gosto da vida para cada um e para todos, a solidariedade, a sede de saber e a consciência da soberania da liberdade e da justiça.

Comemoramos hoje o nascimento de uma vida por que tanto lutámos. Mas é com tristeza que penduramos o cravo na lapela e uma lágrima nos olhos. Hoje já não sabemos se é dor ou alegria o que sonhamos quando abrimos ao sol as portas de Abril. Não sabemos se é dor, tristeza ou alegria, aquilo que sentimos quando a revolução faz tantos anos de saudade e nostalgia.

O 25 de Abril sempre teve e tem alma de esquerda. Nunca poderia ser o gene da nova ditadura que aí está desde há muito, cada dia mais tecnologicamente evoluída e sofisticada. Não demorou muito depois de Abril a incubação do ovo da serpente. Como fazem os micróbios quando aprendem a utilizar o antibiótico como alimento, os saudosos do antigo regime apoderaram-se da palavra democracia, usando-a como rótulo do veneno que lentamente foram injectando nas consciências e nas inconsciências do nosso povo.

O seu caldo de cultura é não só o domínio da comunicação, onde ferreamente institucionalizou a desinformação e a mentira com máscaras de informação, mas também a eterna manutenção da ignorância, da estupidificação, da pobreza e do obscurantismo. Tudo em nome da competitividade e da convergência, da globalização, da modernidade, da religiosidade, da flexibilização, da privatização, palavras inquestionáveis das estratégias de dominação por parte daqueles que sabem quem tudo ganha à custa de quem tudo perde.

São estes responsáveis pelo abrir de portas e pelo estender de tapetes às chancelarias do crime que provocaram ou facilitaram esta barbárie dos tempos modernos, a corrupção, os roubos ao país, os cortes de salários e o esbulho das pensões, a degradação social, a fome ao lado da loucura do consumismo, o monetarismo e o ultraliberalismo cujo útero reside nos tecnocratas da rapina e na cabeça do patrão planetário que os condecora por cavarem cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres.

De cravo ao peito ou sem ele, comemoram com toda a desfaçatez a honrosa revolução que sempre odiaram, numa tentativa de a desnaturar e de neutralizar o genuíno espírito de Abril. O que se passa na Assembleia da República é paradigmático. A hipocrisia é maior do que o monte de cravos ali aprisionados nesse dia. Dia que muitos suportarão com dificuldade, conhecidos que são os seus claros sinais de alergia.

Nos dias que correm, a luta tem de ser redobrada dentro de cada um de nós. Não é o grau de facilidade ou dificuldade ou a carga pragmática ou utópica que ditam o que deve ser feito ou obstam àquilo que deve ser feito, mas é, sobretudo, a resistência e a força da verdade da nossa consciência perante a submissão.

A identificação com os autênticos valores de liberdade em todo um processo de valorização pessoal e colectiva, exprime uma inquestionável adesão ao Bem e à Justiça, uma interioridade e uma nobreza de carácter só reconhecidas às almas grandes. É por tudo isto que ABRIL é e será sempre o GRANDE VENCEDOR.

https://aviagemdosargonautas.net/2024/01/27/adao-cruz-o-perfume-dos-cravos/

ADÃO CRUZ – O PERFUME DOS CRAVOS


Ao ouvir – que já não ouço – notícias e comentadores, discursos empolgados, entrevistas e debates, encrencadas conversas sobre democracia, liberdade, renovação e futuro, tenho uma sensação idêntica à do canceroso que, ao fim de cinquenta anos, descobre o aparecimento de metástases. Ou sinto a impressão causada pela violação de um cemitério e a exumação de cadáveres, trazendo para a luz o que às trevas pertence.

Sinto, nos tempos que correm, com imensa tristeza, que a dignidade e a nobreza do carácter se perdem nas falsas notas de uma desconjuntada sinfonia de velho mundo.

A CS não cheira bem, talvez porque tenha os canais pouco limpos, ou porque as digestões são difíceis e os sais de frutos insuficientes. Não lhe basta a tarefa de procurar a desinformação, de promover pessoas sem qualquer formação condigna, sem estrutura política respeitável e sem mérito humano que lhes permita sentarem-se frente aos olhos de um país. Ainda precisa da exclusão de todos os que ali mereciam sentar-se e de dar uma mãozinha ao obscurantismo, à formatação e deformação das mentalidades.

Não lhe chega tentar, de forma impossível, conciliar a inteligência com a indigência mental. Não lhe basta promover debates, comentários e entrevistas com a eufemística intenção de avaliar fenómenos complexos, de vincado carácter social, cultural e político, metendo no saco da mediocridade toda a espécie de pessoas, interesses individuais, conjunturas políticas e muitos seropositivos do vírus fascista. Com a democracia doente, aqui e em todo o mundo, injectar-lhe gratuitamente micróbios a ver como reage não é profilaxia, mas eutanásia.

A CS não cheira bem, mas ao fim de cinquenta anos ainda não conseguiu abafar o perfume dos cravos.

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https://aviagemdosargonautas.net/2025/01/07/adao-cruz-um-pingo-de-vergonha/

ADÃO CRUZ – UM PINGO… DE VERGONHA!

Desde os tempos do fascismo que me habituei a palmilhar os caminhos da esperança. Depois do 25 de Abril estes caminhos alargaram-se e fizeram-se avenidas, rios e mares. Mares de sonho. Não demorou muito a que os predadores da esperança voltassem e se reproduzissem como coelhos. E a erva daninha da desesperança começou a crescer nos prados verdes da minha vida. Sobretudo a desesperança num povo que continuava adormecido, anestesiado, inculto, incapaz de reconhecer, minimamente que fosse, o seu verdadeiro inimigo: o poder dos que tudo mandam, o poder dos que tudo roubam, o poder dos desavergonhados, o poder da desfaçatez e da imoralidade, o poder aniquilador do desenvolvimento mental, político e social, acolitado pelo obscurantismo de uma igreja que nada mais fez e nada mais faz do que rezar e tentar transformar as pessoas num rebanho de obediência e mansidão. Hoje em dia, dificilmente alguém poderá invocar a ignorância acerca dos crimes que enlameiam todas as políticas defensoras da exploração capitalista, dos branqueamentos do dinheiro roubado ao povo, dos negócios sujos, do contrabando de divisas extorquidas ao trabalho de uma nação inteira. Dificilmente alguém poderá invocar a ignorância, mesmo quando tais políticas proclamam aos quatro ventos que são santas, como acontece hoje e sempre aconteceu. No entanto, inexplicavelmente, ainda há muitas vítimas que defendem os agressores. Que defendem as medidas de governos/desgovernos, que mais não fazem do que mostrar que aquilo que deveria ser o braço político e executivo da justiça social é, afinal, um braço-de-ferro com o País. Ou seja, em vez de lutarem com e pelo País, lutam contra ele. São exemplos a já longa e progressiva destruição do SNS, em favor da industrialização da medicina e da assistência médica, a aniquilação da educação pública com todas as nefandas consequências que todos conhecemos, a secundarização da cultura social a todos os níveis, de modo a eliminar o principal obstáculo à massificação da ignorância e do pensamento raso e único, e a sua substituição por uma metacultura elitizada nas mãos do dinheiro. Tudo isto configurando, a nível nacional e mundial, as grandes armas da exploração e do apagar das consciências.

Tenhamos ainda alguma esperança. Alguma esperança de que o braço-de-ferro venha um dia a ser com um povo lúcido, consciente e concreto e não com um povo abstracto e amorfo. Ninguém com dois dedos de testa se pode rever nas políticas autistas e agressivas destes governos, compostos por tecnocratas neoliberais sem ponta de competência, de dignidade, de carácter, de credibilidade e sensibilidade e que sempre espezinharam o sentido da palavra social. Teremos de fazer tudo o que é possível para não aceitarmos a ideia de que os portugueses são uns paspalhos mansos que acatam todas as austeridades e injustiças como favores. Aprendermos a pintar de um branco leite de sabedoria social o escuro, denso e borralhento café economicista e neoliberal dos Governos faz a diferença e permite confrontá-los com Um pingo… de vergonha.


https://aviagemdosargonautas.net/2023/04/25/adao-cruz-25-de-abril-2/

ADÃO CRUZ, 25 DE ABRIL

Um cravo vermelho

cristal de vida no céu de chumbo

cada dia um mundo limpo e perfumado

graças a ti flor da minha idade.

Caminho da esperança às portas da cidade

todo o mel e todos os frutos ali à mão.

Graças a ti cravo vermelho que venceste a solidão

veio o tempo ao nosso encontro

e a manhã despertou agitando as árvores.

E a noite se fez de estrelas

que desceram aos cantos do jardim.

Um cravo vermelho e quente

mais que tudo amando a vida

em qualquer língua entendida.

O mundo tinha o sabor de uma maçã

e os olhos inacabados eram cravos vermelhos.

Não havia cárceres nem torturas

apenas o calor de uma fogueira

na praça do entusiasmo

e uma jovem mulher

dormindo um sono de criança

nos telhados da revolução.

O seu rosto era uma nuvem

dourada pelo sol e pela lua

os cabelos trigueiros uma seara

e nos lábios

a canção de Abril que encheu a rua.

Hoje…

Hoje não sei se é dor se alegria

o que sonho

quando abro ao sol as portas de Abril.

Não sei se é dor

tristeza ou alegria

aquilo que sinto neste dia

em que Abril faz tantos anos

de saudade e nostalgia.

Anos de luminoso tremor

corações ao alto

quadros verdes de sonho e raiva

de sol e chuva em celeste azul

luzindo nos olhos de uma gaivota

branca gaivota de penas mansas

voando solitária dentro de mim

à volta de um cravo vermelho

que me ficou dentro do peito.

Abro as janelas a medo

neste areal de céu escuro

contra o mundo

a idade e o cansaço

e não sei se é vida ou amargura

a estreiteza deste espaço.

Sei que um rio de negras águas

cavalga as margens do meu ser

por entre as fendas da secura

ameaçando afogar a democracia

às mãos de nova ditadura.

adão cruz


25 DE ABRIL – por Adão Cruz

https://aviagemdosargonautas.net/2013/04/25/25-de-abril-por-adao-cruz/ 

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Não sei se é dor se alegria

O que sinto

Quando abro ao sol as portas de Abril.

Não sei se é dor

Tristeza ou alegria

Aquilo que sinto neste dia

Em que Abril faz tantos anos

De saudade e nostalgia.

Anos de luminoso tremor

Corações ao alto

Quadros verdes de sonho e raiva

De sol e chuva em celeste azul

Luzindo nos olhos de uma gaivota.

Branca gaivota de penas mansas

Voando solitária dentro de mim

À volta de um cravo vermelho

Que me ficou dentro do peito.

Abro as janelas a medo

Neste areal de escuro céu

Contra o mundo, a idade e o cansaço

E não sei se é vida ou amargura

A estreiteza deste espaço.

Sei que um rio de negras águas

Cavalga as margens do meu ser

Por entre as fendas da secura

E de novo afoga a democracia

às sangrentas mãos da ditadura.

Ilustração – Quadro de Adão Cruz

17:30

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