sábado, 11 de abril de 2026

«TESTAMENTO ANTOLÓGICO de Aquilino Ribeiro» [ XXI * 1 ] - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. «INTRODUÇÃO» [ vol. I ]

 

LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. «INTRODUÇÃO»

BIBLIOGRAFIA

TESTAMENTO ANTOLÓGICO de Aquilino Ribeiro (s/ carta de Agosto de 1962)

vol I Luis Camoes.jpg

introducao TA escolhida

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«Sempre que se trata dos grandes vultos, esses que em que se concentra o orgulho patrimonial de um povo, gente por via de regra bem pensante e respeitável descerra todo o seu gosto de conservação e repouso na sentença, que podia ser salomónica, mas não é: o que está, está. É portanto melhor que a crítica passe de largo, deixando-os como sobrevivem na tradição, ajoujados, embora desnecessariamente, de enfaixes, ouropéis, falsos chamalotes da glória, que assentariam com mais propriedade em múmias? Mesmo que seja essa uma postiça auréola de plaqué? O espéculo do censor será já por si uma irreverência?...
Observo que também se reencarnam os santos, para mimo dos nossos olhos, que mais não seja, sem que se prejudique a sua canonicidade. Demais, incorrupta veritas acima de tudo. Bem certo que nos ensina Mestre Anatole que os homens prezam a ficção de preferência à verdade. Esta é, no geral, feia, malcriada, desmancha-prazeres, uma estafadora, em suma. A mentira, a honesta mentira que Le Dantec sagrou no altar da hipocrisia social, é incomparavelmente mais humana, misericordiosa e conforme com as nossas necessidades de quietude e ilusão. Mas, entendamo-nos, esta é a mentira da vida das relações, transitória como a virtude de qualquer dama dos chás de caridade, a mentira possidónia. Há um conceito do real que, pelo facto da sua intemporalidade e o ponderoso do seu conteúdo, transcende das vantagens que oferece a convenção ao nosso comedimento. O erro é sempre nocivo e a melhor obra espiritual do século XIX e continuada neste foi a de clarificação, descondensando os mitos de seus absurdos e teias de aranha, e expungindo da ganga escolástica os princípios por que se rege a vida. Se a noção que temos das figuras, havidas como altos expoentes da ética, estiver eivada de equívocos, contradições, falsidades, tal viciacão não pode deixar de reflectir-se no nosso carácter, na regra dos costumes e, vou mesmo mais longe, na nossa mentalidade. É axiomático. Daí o ser não apenas útil, mas meritório, proceder à rectificação dos valores que informam o índice por que cotamos as nossas virtudes cívicas e graduamos a nossa actividade individual.» ... 

(pág. 11)

                                                                                      (continua)

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                                 LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. «INTRODUÇÃO»
[ pp. 11-17 ]

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