terça-feira, 30 de junho de 2026

«JUSTUM ET TENACEM» <==> AQUILINO RIBEIRO

 «JUSTUM ET TENACEM» - locução latina cujo significado é «justo e tenaz».

 Trata-se do fragmento de um verso das Odes, de Quinto Horácio Flaco (65 a. C.-8 a. C.), famoso poeta da Roma antiga, comummente conhecido como Horácio.





«JUSTUM  ET  TENACEM»

 

Frequento a sua Obra há mais de trinta anos; tive o privilégio de receber algumas cartas e de, cavaqueando, o acompanhar pelas ruas do Quartier Latin… Só agora, mercê da conferência que me foi proporcionada na Biblioteca Nacional de Lisboa, aquando do Centenário do seu nascimento, e do bosquejo que dela tirei para, de maneira anónima em acatamento às condições do concurso, o submeter ao júri da Associação Portuguesa de Escritores e do Instituto Português do Livro (AQUILINO EM PARIS, Ed. Vega), me dei conta do IDEÁRIO do autor de A CASA GRANDE DE ROMARIGÃES! Sancta simplicitas!


            A modos de desculpa, direi que nunca tive perante os trabalhos do Mestre a atitude lúcida do cientista: com a mala do regresso debaixo da cama, a curtir saudades e, sobretudo, a alimentar quimeras mais especiosas que as gárgulas da Notre-Dame (– “O Jorge quando voltar a Portugal, vai ter muitas desilusões…” – prevenia-me Maria Lamas num tom de voz tão repassado de tristeza que eu o atribuía às suas próprias condições de exílio realmente dolorosas), eu estava unicamente preocupado em captar-lhe a lição da língua e as críticas e rompantes contra as parvoiçadas nacionais, - que me deliciavam, a mim, enxovedo de um vilafranquismo atoleimado, porque as tomava como ferroadas no coiro do salazarismo… A árvore encobria-me a floresta do “Reino Cadaveroso” e só por um triz não passei à desbanda do verdadeiro Aquilino!


            Dizer que ele me honrou com preciosas horas de conversa e que – quem o poderá atestar? – talvez esperasse que lhe fizesse a pergunta essencial do nosso encontro: – “Mestre, como consegue viver em Portugal?  Mas eu sabia lá! Estava a mil léguas de formular uma tal interrogação porque só agora o seu IDEÁRIO adquiriu, para mim, a devida nitidez. Nesses anos, eu podia lá imaginar que o GIGANTE – rodeado pela família, pelos amigos, pelos admiradores – tivesse horas de dolorosa melancolia e de inquietação: “E se o Manuel Jardim falava acertado, quando me dizia que Portugal é um trágico suicídio histórico?”… “E se o Unamuno não generalizou quando pretendeu que somos um povo de suicidas?”…


Ah, se eu tivesse sabido esquadrinhar com inteligência a riquíssima Caverna de Ali-Babá que é a sua Obra!…


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Como foi, pois possível que um tal ARTISTA tenha suportado (sem se contaminar) “a maneira que os portugueses têm de estar no mundo”; tenha conseguido viver numa “terreola que os líteras e quejandos, gregos e troianos, nacionalistas de rabo alçado, pretendem estolidamente que é a primeira do universo e que, em vez de ser uma PÁTRIA é uma TRIPA?” (*).  Um país – como lhe dissera Leal da Câmara com amargura depois de três anos e meio de estada em Lisboa – onde “não há lugar para artistas” e, de modo geral, para todos aqueles que passaram uns tempos em Paris?...


“Libertário Republicano” dos quatro costados, lúcida e exclusivamente enternecido pela “natureza e o camponês que, no fundo, não fazem mais do que um: terra”, manteve-se sempre na primeira linha da barricada, justum et tenacem, “dobrado sobre a banca de escritor” (o seu espólio daria trabalho por largos meses a um mosteiro de beneditinos!) recusando-se com aferro a não considerar a Soutosa como um Vale de Lobos ou um quarto de hotel de Bougie, – e quando lhe sucedia abeirar-se do poço das horas vagas, recuava para se refugiar sob o alpendre a fim de carpintejar umas tábuas, ou na cozinha onde (quiçá guiado por súbitas e imperecíveis saudades da lâmpada de álcool do Bairro Latino) se entregava à confecção de um prato com os mimos da horta e da capoeira… Para um ourives da palavra escrita, há lá melhor recreação do que afagar a madeira que acaba de ser aplainada ou seguir, com todos os sentidos espevitados, o apurar do pitéu com que vai regalar a família e os amigos e o seu próprio palato de gourmet, – que só é alcançado “por aqueles que passaram alguns dias sem comer, para não dizer que tiveram fome?!”…


Se um moço estudioso condescender em dar fé ao que escrevo, aproveite estas Páginas do Exílio e as OBRAS COMPLETAS… (de Hilário Barrelas) para decantar o IDEÁRIO de Aquilino Ribeiro: não enxergo tarefa mais empolgante para um jovem INTELECTUAL que a de oferecer tal análise de um ESPÍRITO LIVRE a um povo que, arrebanhado por mais que suspeitos pastores, anda por aí aos baldões sem lobrigar o que lhe reserva o dia de amanhã e que carece, como de pão para a boca, de Mestres de Pensamento!


Em conclusão, segundo a boa maneira latina,

                                                                                                          Vale!


                                                                                                                                 JORGE REIS

                                                                                                                      Paris, Março de 1988


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 (*) Ver  "LEAL DA CÂMARA" de Aquilino  Ribeiro   e   "AQUILINO EM PARIS"  de Jorge Reis  -- Ed. VEGA, Lisboa, página 112. 

AQUILINO - Páginas do Exílio

(Cartas e Crónicas de Paris)

 2º Volume de 1927 a 1930

Recolha de textos e organização de Jorge Reis

Ilustrações de Leal da Câmara





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Carta de Aquilino Ribeiro para Vitorino Nemésio de 25 de Abril de 1930


Meu prezado camarada:


... Palpito pela atitude da imprensa que o meu livro desagradou a gregos e troianos. Não dou pábulo ao nacionalismo de rabo alçado que encapela os nossos líteras e quejandos, cometendo o crime de não celebrar a nossa pobre terreola como a primeira do universo (...) A verdade é que cada vez me convenço mais que isso não é uma pátria, mas uma tripa. Com mágoa o penso e digo. Há uma coisa que me enternecer aí: a natureza e o camponês. No fundo, não fazem mais que um: terra. Os poetas, os políticos, os literatos na maioria, que detestável cambada!  (...). Não auguro nada do futuro de Portugal e do final desta trági-comédia. Sinto a nação a desfibrar-se da sua parte vital, a cédula que é a aldeia (...)
Se não fora o instinto e as luzes que nos chegam do estrangeiro, acabaríamos todos a fazer tamancos e, mais longe, com os vindouros, regressaríamos à tanga...

( página 112)

      «AQUILINO  EM  PARIS»  de  Jorge Reis  
(Ed. VEGA,  Lisboa.)


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Excerto da parte final do discurso escrito por AQUILINO em 1945 para um comício do MUD que a PIDE proibiu e que a Nova SEARA NOVA revelou no seu primeiro número:

"A literatura, em tanto que arte, é uma manifestação de homens livres e eu nunca vesti a libré de ninguém, nem do rei, nem do rico, nem do político, nem do cônsul. Eu sou humano, sou do povo"...


( página 118)

      «AQUILINO  EM  PARIS»  de  Jorge Reis  
(Ed. VEGA,  Lisboa.)


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Grupo fundador da Seara Nova, 1921. Da esquerda para a direita, de pé: pároco do Coimbrão (não pertencente ao grupo), Teixeira de Vasconcelos, Raul Proença, Câmara Reys; sentados: Jaime Cortesão, Aquilino Ribeiro e Raul Brandão


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