sexta-feira, 14 de agosto de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 76) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. II de XV} * [ vol. II ]

 XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio. 


(continuação)

«... A razão do êxito português. Primeira expedição de Luís de Camões. Manifesto enfado. O cruzeiro às portas do Mar Vermelho. Canção ao vento.»


«Tudo se degradava na terra submissa. O português começava mesmo por deixar cair a espada das mãos.»

... ... 



«Sempre que havia operação de tomo a empreender, os vizos-rei, ou simplesmente governadores da Índia, esperavam, pois, a vinda da armada que ano por ano largava do Reino com os novos funcionários, todos eles «moradores da casa de el-rei», e tropas frescas. Não eram elas que mais interessavam, a menos que houvesse em projecto empresa bélica de tomo, mas as novas da família, as chamadas vias da governação, e os géneros europeus para permuta comercial.

Assim, logo que lançou ferro defronte da Aguada a frota de que era capitão Fernão Álvares Cabral, deu-se pressa o vizo rei D. Afonso de Noronha, esse que fora capitão de Ceuta, quando ali servira Camões, em cometer a expedição projectada favor do rei de Cochim, aliado de D. João III. À lufa-lufa aprestou uma garbosa e forte esquadra, muito superior em poderio ao objectivo em vista. E, obra de três dias, os portugueses lançaram a ofensiva, desembarcaram, arrasaram a urbe inimiga, e deram por finda a campanha, que foi fulminante como uma mão se abre e se fecha. Luís de Camões, obrigatoriamente expedicionário, descreve-a com sucinto e apagado estro, que pode considerar-se como uma das maneiras de dar expressão ao seu engulho:

    Uma ilha que o rei de Porcá tem,
    E que o rei da Pimenta lhe tomara, 
    Fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.

 

ELEGIA (Excerto)
Dest'arte me chegou minha ventura
a esta desejada e longa terra,
de todo o pobre honrado sepultura.
Vi quanta vaïdade em nós se encerra,
e dos próprios quão pouca; contra quem
foi logo necessário termos guerra.
Que üa ilha que o rei de Porcá tem,
que o rei da Pimenta lhe tomara,
fomos tomar-lha, e sucedeu-nos bem.
Com üa armada grossa, que ajuntara
o vizo-rei de Goa, nos partimos
com toda a gente d'armas que se achara,
e com pouco trabalho destruímos
a gente no curvo arco exercitada;
com mortes, com incêndios, os punimos.
Era a ilha com águas alagada,
de modo que se andava em almadias;
enfim, outra Veneza trasladada.
                                    

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«De regresso a Goa, a essa empresa sucedeu-se outra,... 





«De regresso a Goa, a essa empresa sucedeu-se outra, não mais cruenta: o cruzeiro da frota de alto mar, sob o comando de D. Fernando de Meneses, no estreito de Meca à caça das galés com peregrinos de Bassorá. Essa expedição inspirou a Luís de Camões uma canção brônzea, com longas e demoradas ressonâncias:

(CANÇÃO IX)

    Junto de um seco, duro, estéril monte,
    Inútil e despido, calvo e informe, 
    Da Natureza em tudo aborrecido;
    Onde nem ave voa ou fera dorme,
    Nem verde ramo faz doce ruído;
    ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

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10 CANÇÕES DE LUÍS DE CAMÕES – IX- por Álvaro José Ferreira


CANÇÃO IX  

(123 versos)

Poema de Luís de Camões (in “Rimas”, org. Fernão Rodrigues Lobo Soropita, Lisboa, 1595; “Rimas”, texto estabelecido e prefaciado por Álvaro Júlio da Costa Pimpão, apresentação de Aníbal Pinto de Castro, Coimbra: Livraria Almedina, 1994). Dito por Luís Miguel Cintra* (in CD “Luís de Camões: 10 Canções ditas por Luís Miguel Cintra”, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995)

Organização de Álvaro José Ferreira

Ilustração: pormenor de um quadro de Dorindo Carvalho



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Camões - Canção IX: 'Junto dum seco, duro e estéril monte'. 


                         CANÇÃO   IX      (123 versos)

Junto dE um sEco, duro, estÉril monte


PARÁFRASE


Foi perto de um monte árido, rijo e infecundo, vão e nu, disforme e escalvado, odiado pela natureza, onde nem aves nem animais habitam, nem existem límpidos rios ou vivas fontes, nem galhos que sussurrem com o vento, e que por nome tomou Monte Félix, por antífrase de Monte Infeliz. A natureza colocou-o não longe de onde a Abissínia é separada do deserto arábico pelo Mar Vermelho, em cuja margem ocidental foi em tempos fundada a cidade de Berenice.


Dali se avista o cabo em que termina a costa africana vinda do sul, chamado Cabo dos Aromas. Dos Aromas na Antiguidade, pois com o tempo a língua dura e tosca dos habitantes locais apôs-lhe outro nome. Aqui o meu destino implacável me trouxe um dia, ao estreito por onde as águas passam céleres. Nesta zona do mundo tão distante, hostil e adversa, quis o Fado que da minha breve vida ali gastasse um também breve tempo, para que ela fosse dividida pelas várias partes do mundo.


Aqui me encontrei consumindo dias infelizes. Amargurados, coagidos, funestos e sós, plenos de aflição, de mágoa, e de raiva: eram meus inimigos não só a vida, o sol candente, as águas gélidas, os ares insalubres, húmidos e pesados, mas até os meus pensamentos, com que me poderia evadir da realidade, viraram-se igualmente contra mim, avivando-me a memória desses dias mais felizes, embora fugazes, que outrora passei. Isto para me duplicar o sofrimento, mostrando-me que também existem no mundo tantas horas de felicidade.


Aqui estive eu perdendo o meu tempo e a minha vida com as minhas cogitações. E tão alto elas me erguiam nas asas do pensamento, que eu me despenhava (atentai quão grande era a queda) de alegrias sonhadas e vãs, no desespero de não as ver chegar jamais. Tanta meditação levava-me a prantos e lamentações que cortavam os ares. Aqui a minha alma prisioneira estava em sangue e em ferida, cercada só por penas e aflições, à mercê dos golpes de um Destino cruel, feroz, implacável e tenaz.


O corpo também não tinha onde repousar, nem esperava já achar lugar onde pudesse descansar a cabeça. Tudo lhe era penoso e motivo de sofrimento. Mas não de morte, para que sofresse até ao fim o que o Fado acirrado lhe decretara. Parece até que consigo amansar este mar revolto com os meus choros, e até a ventania amaina. Somente o Céu rigoroso, os astros e o destino sempre atroz se divertem a perseguir-me constantemente, mostrando-se poderosos e enraivecidos contra um ínfimo animal terrestre.


Se como resultado de todo este sofrimento pelo menos eu soubesse que a bem-amada de olhos belos se recordava de mim; que esta voz magoada chegaria aos ouvidos angelicais daquela em cuja vista eu vivia; e que ela, refletindo um pouco, reviveria os tempos idos dos meus verdores da mocidade, dos meus prazenteiros males e desvarios por ela sofridos e desejados, e, mesmo que demasiado tarde, algo lamentaria por ter sido tão distante para comigo.


Bastar-me-ia isto saber para alcançar a paz para o resto da minha vida e aliviar os meus males. Ah, Senhora, Senhora. E tão poderosa sois que as vossas deliciosas falsidades me alimentam. Assim que penso em vós, logo se desanuviam as agruras e as dores, e só por lembrar-me de vós volto a sentir-me forte e valoroso contra a face assustadora da própria morte; e logo ganho a esperança de que, recuperada a serenidade mental, o meu grande sofrimento por vós se transforme em doces e ternas saudades.


E com as saudades me acho perguntando por vós aos amoráveis ventos que passaram pelo lugar onde estáveis; às aves que perto de vós voaram, se vos viram, em que vos ocupáveis, o que dizíeis, onde, como, a quem e a que dia e hora. Assim se abranda a fadiga da vida, que se revigora para vencer a sorte e as agruras só pela esperança de rever-vos, servir-vos e desejar-vos. E o tempo diz-me que não há mal que nunca acabe: mas o desejo inflamado que nunca cessa, esse volta sem contemplações a abrir-me as feridas à dor.


E assim vivo eu; e se te perguntarem, Canção, porque não morro, deves responder-lhes que estou vivo morrendo de amor.


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COMENTÁRIO À CANÇÃO IX


13 : O interesse da antiga cidade de Berenice para os portugueses deve-se a que, bem antes de Constantinopla, de Veneza ou de Lisboa, este empório greco-egípcio foi a porta de entrada no Ocidente dos produtos asiáticos. Vários autores da época romana podem ter sido a fonte de Camões para esta cidade perdida, abandonada e soterrada desde o século VI devido ao assoreamento do porto. Berenice só foi redescoberta pelos arqueólogos no século XIX.

16 : O Monte Félix, conhecido na Antiguidade como Elephas Mons, hoje Ras Filuk, está situado a 72 km a oeste do Cabo Guardafui, atual Ras Asayr, percurso percorrido por Camões na expedição anual de Goa ao Golfo de Áden em 1554, destinada a bloquear a entrada dos otomanos no Índico, e que foi chefiada por Fernando de Menezes, elogiado por Camões no soneto Illustre e digno ramo dos Menezes:

Desprezando a Fortuna e seus revezes,
Ide para onde o Fado vos moveo;
Erguei flammas no mar alto Erythreo,
E sereis nova luz aos Portuguezes.

[...]

Dai nova causa á côr do Arabo Estreito;
Assi que o Roxo mar, daqui em diante
O seja só com sangue de Turquia.

Não está claro se Camões participou também na expedição de 1555.

O tom belicista e mesmo sanguinário deste soneto encomiástico contrasta pesadamente com vários propósitos irenistas de Camões, nomeadamente os que estão presentes na correspondência mais íntima com o Senhor Dom António de Noronha, em O Poeta Simónides, falando.

21 : Na língua local é o Cabo Guardafui, mas Camões chama-lhe Cabo Guardafû, OL X.97:

O Cabo vê já Arómata chamado,
E agora Guardafû, dos moradores,
Onde começa a boca do afamado
Mar roxo, que do fundo toma as cores

[...]

22-23 : Por passar pelo estreito formado entre a costa africana e o arquipélago de Socotorá, parte integrante do Império Português entre 1507-1511.

27-30 : A mesma queixa sobre a Abissínia estará presente dois anos depois na Canção VI, 14-18, sobre Ternate, de c.1556: Aqui minha ventura / Quis que uma grande parte / Da vida, que eu não tinha, se passasse.

28 : Breve espaço: breve tempo. Cf. Saavedra (2025) A poesia e os astros em Camões, 49.

34: É cabível esta lição, preferível à de Faria e Sousa: Não tendo, não, somente por contrários.

36 : É aos ares insalubres, mas aqui os do próprio corpo, que Camões atribui a morte aos 24 anos do seu companheiro de armas Pero Moniz, originário de Alenquer, no soneto No mundo poucos anos, e cansados, dado no Manuscrito Apenso como o epitáfio A Pero Moniz que morreu no mar de Monte Félix:

[...] mas ar corruto,
Que neste meu terreno vaso tinha,
Me fez manjar de peixes em ti, bruto
Mar, que bates a Abássia fera e avara,
Tão longe da ditosa patria minha.

55 : A alma celeste encontra-se aprisionada neste mundo material, vd. comentário à Canção III, 50.

75 : OL I.106:

Onde pode acolher-se um fraco humano,
Onde terá segura a curta vida,
Que não se arme, e se indigne o Céu sereno
Contra um bicho da terra tão pequeno?

100-101 : Canção VIII.64-65.

106-111 : Motivo herdado das cantigas de amigo medievais.

123 : O poeta diz que não morre de morte física porque morre de amores, e essa paixão prende-o à vida. Canção VI.104: Saibam que já não mata a vida ausente. Cf. em sentido oposto, proclama o verso teresino: que muero porque no muero, Santa Teresa de Ávila, Vivo sin vivir en mí.


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Cabo Guardafui, atual Ras Asayr


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Saudades da Pátria (Luís de Camões) – RTP Arquivos
https://share.google/ncLck778sePp1A4pi


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AlegriaBreve: Junto de um seco, fero e estéril monte 


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«Camões voltou a Goa em princípios de Novembro de 1554, já com Pedro de Mascarenhas no cargo de vizo-rei, para se afundir no mormaço deletério e enliçador da cidade híbrida, cheia de peçonha para o sangue e lassidões para a vontade. Tinha cumprido aqueles meses de serviço, e entrava em regímen de licença. Segundo as normas, o alistamento obrigava aos períodos estivais, em tal cláusula havendo um sofisma cruel de parte do Estado, o poder eximir-se a pagar o soldo durante o Inverno a uma milícia numerosa e inactiva. Depois, quando as primeiras brisas da monção agitassem as folhas tenras das arecas, chamava-se a pobre gente de armas. Mutatis mutandis, era o que há pouco sucedia, se ainda não sucede, com os marítimos que assentam praça nas campanhas. Finda a safra, ala que se faz tarde! Cada um está livre de ir morrer de fome onde lhe apetecer.

Havia, ao que parece, alguns indivíduos de nome de Camões na Índia. Um deles era capitão da fortaleza de Diu. Que se saiba -- pelo menos não há referências nas poesias do poeta, ele que, uma vez nas partes do Oriente, se mostrou tão prolixo em citar os fidalgos com quem esteve em relações -- nenhum deles veio perguntar pelo desterrado.»


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