XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
«Estado de desânimo. A carta de negro cinismo. Em que se empregava Luís de Camões. O secretário dos soldados e gente analfabeta. «Escrevo a Luís Lemos em resposta doutra que vi sua.»...
«Qual foi o género de vida de Luís de Camões nesta cidade tropical, de alma asiática, fachada compósita, em todo o caso predominantemente europeia? É de inferir que levasse a vida dos demais soldados que, chegados os meses mortos, eram licenciados e atirados à gandaia sob color de restituídos à condição de particulares, coabitando aos grupos nos tais quartéis ou casas roubadas.»
Imagem extraída do:
«DICIONÁRIO de LUÍS de CAMões»,
Coordenação de Vítor Aguiar e Silva,
1ª edição (Setembro de 2011).
Editorial Caminho.
ao tempo em que efectuara já a adaptação, deixa transparecer o que era o meio goês e seu subsolo. Pode considerar-se como datada do fim do ano de 1554, semanas, senão meses depois que regressou do cruzeiro aos mares da Arábia, pois que alude a factos que só puderam ser conhecidos em Goa com a chegada da armada anual, como seja o falecimento de D. António de Noronha e do príncipe herdeiro. Preciosa pelo painel que esboça da capital da Índia, e não menos pela luz que reverbera sobre o passado do seu autor em Lisboa, devia ter sido escrita com o desleixo de quem lança as impressões ao papel sem se preocupar com a forma nem com a gramática.»
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«Em despeito do tom faceto e de trair o homem desabusado, expressa perfeitamente o desfolhar das ilusões e o estado de azedume de quem se encontra de mal com o mundo. Como é de regra nestas cartas sem maneirismos, "começa por lamentar-se que o amigo lhe não tenha escrito, quando ansiosamente esperava que as naus lhe trouxessem letras suas. Ninguém se lembrava mais dele e pelas notícias que ia dar-lhe avaliaria daquelas que gostaria de ter de Portugal. Perdera todas as esperanças, e di-lo recorrendo a uma imagem, que é mais que desesperadora: enforcara as esperanças. Não que houvessem emurchecido como os malmequeres separados do caule; submetera-as a julgamento e, depois de sentenciadas, executara-as como falsárias e assassinas."»
«Esta forma de traduzir o seu descampado moral, chasqueando tantas vezes para não chorar, não é única. Repete-se no Auto de El-rei Seleuco:
'Enforquei minha esperança,
E o amor foi tão madraço
Que lhe cortou o baraço.'
«Luís de Camões entregava-se, por consequência, ao mester de aturar os fidalgos, que professavam um soleníssimo desprezo pela palavra escrita, e os rudes soldados não mais analfabetos do que aqueles, ainda, é de crer, ao de redigir a papelada oficial, que sempre o Estado português foi estrito nas suas relações com os particulares, o mesmo é que difuso e exigente.»
(Continua)
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