XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.
«... Mais uma vez os Noronhas. Nenhum parente lhe ofereceu os serviços. Venerado como os touros da Merceana. 'Os Disparates da Índia'. Provedor dos defuntos.»
(continuação)
«A carta da Índia anuncia também a composição da écloga em que pranteia a morte de D. António de Noronha, caído com mais 300 portugueses numa emboscada às portas de Ceuta:
Tu não vês como os lobos tingitanos,
Apartados de toda a cobardia,
Matam os cães do gado guardadores,
E, não somente os cães, mas os pastores?!
... ...
«Para um homem pobre, desvaliado como Luís de Camões, o menor opróbrio ainda era lisonjear os poderosos. Os Noronhas, que em Portugal eram um clã importante, a cada passo surgem de oragos na obra do poeta. Além dos ditirambos ao filho do conde de Linhares, é conhecida a ode a D. Antão de Noronha, sobrinho do vizo-rei:
A vós, por quem já cresce
O nome lusitano a tanta glória.
Melhor que o talento, naquela época, era a recomendação do sangue. Um fidalgo, pelo facto de ser fidalgo, passava à frente do jurisconsulto, do professor, do botânico, do artista. A pedra de armas dos Camões ao poeta nada valeu. Tão-pouco lhe foram de mínimo préstimo aqueles que pelo nome pareciam dever ser seus parentes. Se eram susceptíveis de exercer alguma influência, não a exerceram. Mas o mais certo é que os Camões, residentes na Índia, fossem gente de cutiliquê, resultante natural de sua fidalguia de meia-tijela.»
«Já o dissemos e volvemos a repetir que, admitindo que os Camões pertencessem à mais alta linhagem do Reino, o facto podia não ter significação quanto ao poeta. A semelhança de nomes em Portugal não implica nobiliarquicamente parentesco mais ou menos imediato, e nada de nada obrigatoriedade de assistência familiar. A homonímia não é fenómeno de estirpe. Com o patronímico dum grande do Reino titulavam-se os mais humildes dos vilões.
«Por isso é absurdo julgar que Luís de Camões, chegando à Índia, devesse contar ou recebesse, 'par droit de noblesse', o patrocínio dos que estadeavam o seu nome. Nem ele cairia em bater-lhes à porta, nem eles em inquirir do 'quidam' que eventualmente usava o mesmo apelido, dado que o ouvissem nomear.»
«Luís de Camões -- é bom não esquecer -- não era mais que um soldado de linha, acabado de desembarcar. Sabiam sequer que versejava?... ...
«Até ao ano de 1556 esteve Luís de Camões em Goa. Segundo Luís Franco Correia, aqui compôs o Auto de Filodemo, que foi representado quando Francisco Barreto assumiu as funções de governador.
«O singular é que os críticos dêem o seu sufrágio a esta atribuição, ao mesmo tempo que aceitem que os 'Disparates da Índia' houvessem sido feitos na mesma altura. Neles fingiria Luís de Camões que em Goa, na festas que se fizeram à sucessão do governador, saíram a jogar canas certos homens a quem não sabia mal o vinho, e outros notados de alguns vícios, com divisas nas bandeiras, e letras, conforme sua tenção.»
«A sátira carece de clima local. É tão legítimo aplicá-la à Índia como a Lisboa. Acresce que certos versos, esses que representam o requebro da redondilha, se encontrem na carta escrita de Lisboa a um amigo da província.
« De Lisboa a um seu amigo. »
A menos que se trate de repisamento, está errada a cronologia de tal composição.»
«Na sátira do Torneio não há nada de virulento para quem quer que seja, e muito menos que desse motivo a que o governador se sentisse melindrado, tanto assim que Luís de Camões teria escrito o Filodemo para a sua festa. Agora é possível que algum fidalgo, daqueles de quem chasqueia, sentisse a beliscadura, e o nome do poeta lhe houvesse ficado no goto. Juromenha confabula uma saída romântica, que teria o mérito de comprazer a todos. E era que Barreto, para o libertar da revindicta dos vários Marramaques e Fuas Roupinhos indignados, houvesse maquinado um desterro para o poeta, quando no fundo era um galardão: lugar de provedor dos defuntos em Macau.»
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