quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 7 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958


(Continuação)

      Camilo criou o mester, montou pela primeira vez em Portugal oficina especial, , mas clientela foi coisa que não inventou. Até o seu advento as edições custeava-as o autor do bolsinho particular ou do bolso dos Mecenas a quem eram dedicadas. Assim procedia Garrett, dirigindo-se depois a este e aquele: "Aí vão seis exemplares da «Lírica de João Mínimo». Se os puder colocar é favor". A literatura, sobretudo a poesia, era uma especulação mais ou menos parasitária à margem dos fastos natalícios, dos bródios dos reis e dos fidalgos. Vivia entre os bons arrotos dos príncipes. O poeta com a mão direita ofertava o acróstico ou o exemplar em pergaminho, com a esquerda recolhia para debaixo do gibão a galinha assada.

      Os cronistas eram escrivães da puridade. O nome advertia: desempenhavam funções de registadores dos actos e façanhas dos reis, mas só o que lhes convinha. Às vezes estes seus criados escreviam com boa gramática e sainete. Sucedia-lhes como aos tabeliães que, à força de rabiscarem escrituras públicas, acabavam, quando tinham vocação, por fazer lindas letras enralhametadas e arabescos preciosos e inimitáveis. 

      Mas, como íamos dizendo, Camilo criou a profissão, mas a freguesia foi-lhe sempre escassa. A Nação não sabia ler, nem estava apta para digerir outra coisa que não fosse a "Princesa Magalona". A sua facúndia de escritor representa a luta que travou com o meio a fim de comercializar o seu mester. São antinómicos arte e comércio? Nas sociedades cultas, e que ultrapassaram a fase pré-realista, são perfeitamente compatíveis. Tolstoi refez o património mercê dos benefícios das suas edições; Anatole France deixou um bom pecúlio amassado de direitos de autor. Outros enriqueceram e gozaram bem a vida. O homem de letras é naturalmente príncipe e perdulário. Dêem-lhe dinheiro, que ele saberá gastá-lo. Dêem-lhe dinheiro se querem que ele encontre um dos incentivos que necessariamente o obrigarão a produzir. Com o incentivo virá a paixão, a euforia e até, justos céus! o ambicionado talento.

      Por todo o fim do século XIX e durante o século XX foi-se criando em Portugal um público curioso, ilustrado, que entre outros recreios espirituais contava o gosto de ler. Subitamente estalou a guerra e tresmalhou este público. Após a guerra surgiu a rádio, o cinema, a televisão, o futebol, o automóvel com o seu dispersivo. -- "Quantos leitores me restam?" -- perguntava há dias Céline, o répobro*. [Louis-Ferdinand Céline] 

      A literatura e as artes são todavia, até que se invente melhor ou até que acabe de se virar o Mundo do avesso, o ornamento das pessoas, e quem diz das pessoas diz das nações. Para que possa exercer a sua missão, o escritor carece de liberdade, de estímulo, de paz, do reconhecimento público, para não dizer do galardão público, para uns de índole material, para outros sobretudo de ordem estética. Quando se tiver recreado essa atmosfera propícia e ele for tido, havido e considerado como obreiro de civilização, pode ser que haja escritores em Portugal, mesmo escritores a dar com um pau, pois que é da massa de Camilo, que eles se fazem.

      Mas que o deixem à solta. A censura que se impôs ao mundo depois das grandes épulas espirituais do século XIX, o século da gestação prodigiosa em todos os horizontes e sectores, não dignifica ninguém nem serve de anteparo a nenhuma derrocada. O crepúsculo só serve para gerar a confusão.

      A Academia das Ciências, a que senhores tão ilustres pelo entendimento me dão a honra de pertencer, terá no futuro que ser não apenas a arca do saber, mas a arce, isto é, a fortaleza que tanto defende como ameaça. Caber-lhe-á, por implícita funcionalidade e ainda pela força do rio cronológico que tudo leva nas águas envoltas, tornar-se de todos os modos o paládio da cultura, com direitos insofismáveis à liberdade de pensar e de expressão.

      Que ficará do mundo de hoje que não seja a beleza produzida pelos artistas? O mais -- leis, princípios, privilégios e toda a obra material correspondente -- só um tolo ou um cego não sente ou não o vê -- formará uma ressaca de salvados daqui a meio século. No ano 2.000 terá acabado a socialização na terra; as naves sidéreas levarão o homem de planeta para planeta; o solo dará abundante pão para todos; a ciência terá resolvido os vários problemas que nos afligem. Porque hão-de os homens continuar a matar-se? Porque hão-de continuar a perseguir-se com os seus ódios?

Lisboa, 21 de Novembro de 1957

(pp. 328 a 330)



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