segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 6 ]

  AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958


(Continuação)

       Esta casa é considerada um reduto inviolado do espírito e eu me ufano de que V. Exas., meus ilustres Confrades, me chamassem para o alto dos seus crenéis. Pena tenho eu de não poder consagrar-me exclusivamente ao seu serviço, sentinela vigilante de arma no braço, ou acorrer no limite das minhas forças à contra-escarpa a repelir o assalto dos bárbaros. O guião está em boas mãos. Em verdade, não se nos pode exigir mais de que alimentar no altar de Palas a candeia esmorecente? O espírito no mundo, essa flor rebelde, que dia a dia derrotava todos os moldes e preceitos da botânica mental, está doente. O homem é um belo ser racional, mas para o ser convém que o deixem exercitar-se na racionalidade a seu belo prazer. Oprimi-lo é aviltá-lo. É cortar-lhe as rémiges. Por amor da beleza e da salvação de todos deixem-no à solta! Só assim é provável que os escaparates voltem a enxamear de livros novos, dignos e curiosos, e os loucos de grande entendimento a sonhar com a imortalidade. Há ainda a ter em vista que falta fôlego e paciência, senão génio, aos escritores de hoje para que se espere deles "Salambôs". E a razão é simples. Um livro, mesmo um livro mau, é mais difícil de fazer que um prédio moderno de dez andares, salvo seja a opinião de uma minoria de senhores mestres-de-obras, íamos a dizer de muitos daqueles que se ocupam com tais magnitudes. Um livro, visto na sua medula espiritual, bem entendido, saiu todinho, como se diz nas trovas à viola, da cabeça do autor. Ele é o arquitecto e alvenel do seu edifício, sempre presente, sempre ele desde o alçado até o último reboco da obra, a começar pela arrumação das ideias e das palavras, as quais, ao contrário da murraça, do cimento, da pedra, materiais uniformes, invariáveis e análogos, têm de ser o mais variadas e inéditas possível, possuir cor e toque que as imponham ao público estassemaribandista, palavra de fôlego germânico e também do meu barbeiro. Quantas semanas, quantos meses não consome nessa tarefa tão fluida e meticulosa, dobrado sobre o papel, enquanto na rua os automóveis rodam, as mulheres passam no seu passo saltitado a dizer: "repare como somos bonitas!" o Sol lança um desafio constante: "vem cá para fora, que tudo isso é quimera!" -- e tem vontade de mandar a pena para os quintos!? E senão a manda tantas vezes quantas lhe apetece é porque o escritor, como homem de hoje que se preza, é feito de teimosia, tenacidade, luta contra si e contra todos. Não é que a cada momento se vê a afirmar-se: "sou eu", e das duas posições, a conforme e a contrária, opta sempre pela contrária? Pois que é originalidade senão isso? A glória, que Gautier [Théophile Gautier] simbolizava numa caveira cingida por uma coroa de ouro e rosas, é ainda susceptível de reter o escritor aos varais? Bah, a glória é uma pécora engraçada que, depois de o haver prendido pelo beiço nos verdes anos, acabou por deixá-lo e fugir com o homem das calças pardas. O Mundo, em geral, vive a vida fácil para que a Natureza criou o homem, bronco, estúpido, sensual e comilão. O escritor voltou costas a essas regaladas representações da humanidade feliz. Mas compreendem-no? Reconhecem-lhe o sacrifício?

  Quantos me perguntam: -- "Está rico?" -- Respondo: "Fabulosamente rico e subo por escadote de ouro para a cama". O nosso semelhante, produtor de cortiça, grande moleiro ou grande tecelão, mestres-de-obras que constrói casas para vender, arquitecto de palácios que não habita, funcionário de banco que manuseia milhões que não são seus, a menina que deslumbra o Chiado com a sua graça e enriquece as casas de modas com a aquisição de atavios que a tornam mais sedutora, não sentem nem compreendem nem se importam de compreender a obra tantálica do escritor. Não porque tantas vezes lhe falte inteligência, mas porque a tarefa dele é de natureza hermética e só ele sabe bem as linhas esbraseadas com que se cose.

      A literatura é uma profissão em toda a parte do Mundo. Não vale a de treinador de futebol, certamente, nem a de banqueiro. Mas, em suma, permite a Hemingway [Ernest Hemingway] ter um avião seu e dizem que um serralho no Egipto e uma «finca» em Cuba. Mas este felizardo nasceu na América. Nós, os homens de letras que nascemos em Portugal, terra das meias solas e do «não deite fora, que é mal empregado», não possuímos tal propiciação.


(pp. 325 a 327)

(Continua)

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