quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Discurso proferido por Aquilino Ribeiro na Academia das Ciências de Lisboa (Novembro de 1957) * [ 5 ]

 AQUILINO RIBEIRO, sucessor de JOAQUIM LEITÃO, na cadeira nº 37, proferiu o Elogio Histórico do seu antecessor.

«Boletim da Academia das Ciências de Lisboa»
(JANEIRO A NOVEMBRO DE 1957)
1958


(Continuação)

      É problemático que dentro de vinte anos ainda haja literatura em Portugal. Não digo que não continuem a aparecer livros interessantes, mesmo superiores, mas de génese esporádica, mais ou menos eventual, como outrora os "Lusíadas" e as "Peregrinações", de Fernão Mendes Pinto. Livros em tanto que produto de mester, artefacto em série, trabalho, em suma, de profissionais, terão passado à história. Senão de modo irrevogável, que as leis que regulam o espírito, como as que regulam a matéria, estão-me a prevenir dos tremedais a que conduz o juízo absoluto, pelo menos hão-de sofrer grande quebra durante o eclipse que vai sofrer o mundo com estratificar-se o seu presente compleicional. Tal asserto não promana simplesmente dum palpite, autoriza-se de todas as probabilidades ao verificar, pelo que respeita à verdadeira literatura digna do nome, a rarefacção que se dá em livraria, tanto na venda ao público como na actividade editorial.


      É evidente que os prelos continuarão a gemer -- como se dizia nos tempos das excelentes Marinoni, que hoje as máquinas de imprimir elaboram surdas como as esferas no éter -- mas a gemer para os didactas, os compêndios de escola, os investigadores da ciência, além de estamparem sempre cada vez mais revistas, relatórios e almanaques. O escritor que assentou banca de romancista, o filósofo que cultivava o ensaio, o poeta que tinha por destino da vida lançar uns anos por outros o poema que dulcificava as almas ou passava no século como um rio de montanha rezando laudes, brincando contra os cachopos e luzindo nos seixos, terão dado a alma ao Criador. Não é que não haja gente para cometer estes sacrifícios, iguais na danação a tantos outros: é que ninguém lhes dará audiência.

      As multidões, paradoxalmente cultas, cada vez se alhearão mais das coisas de carácter cultural. Já as bibliotecas vão estando às moscas e aos museus os poucos que lá vão fazem-no por mero acicate da curiosidade, que não por incentivo do bom gosto ou móbeis puros do espírito.  

      De modo que a arte literária acabará por morrer de inanidade. Isto é, deixará de haver trabalhadores de tão estrénua e ímproba seara. Houve alguma vez em Portugal desses trabalhadores, com foros de autêntica classe, exercendo uma função pública condicionada por direitos e deveres, e comercializada sem prejuízo do alor altruísta ou do ideal que a informa? A meia dúzia de homens de letras que tem havido desde Camilo até os nossos dias, com labor tão aturado como exclusivo, cronicidade na produção e tabela estabelecida de honorários, não chegou a criar um cartel. Nada mais precário entre nós que a vida de semelhante artesanato. Jamais o Estado lhes deu honras de cidade --- que não fosse para se glorificar em seus centenários -- como deu aos demais e úteis trabalhadores da república, por exemplo os padeiros e os lampeanistas, para não ir mais longe. Não obstante, deles depende por muito o pábulo de que se alimentam os espíritos e a luz de que se iluminam os olhos do entendimento, para os quais as perspectivas do mundo moral variam de tonus e de profundidade, segundo a sua graduação óptica.

      Valeria a pena encarar este problema nas duas faces, subversão e persistência, de uma actividade que até aqui era considerada como ornamento das nações civilizadas, índice do seu progresso e qualidade e excelência dos seus costumes? Julgamos que sim, e que seria assisado, senão dispensar-lhe alguns favores, pelo menos não a contrariar e deixá-la à solta, na certeza de que resultaria de suas tontarias e licença mais bem do que mal para a comunidade. 

      Que mais não seja as letras forneciam até aqui a matéria-prima dos lausperenes nacionais com discursos dos próceres e regalório do gentio. As comemorações, em que poetas e novelistas figuram na proporção de noventa por cento relativamente a heróis de guerra, celebridades da política e beneméritos, criavam um clima de beatitude vantajoso à ordem pública. Poderão ir buscar-se demiurgos ao futebol e ao hóquei em patins, aos halteres, à corrida e ao pancário, à imitação dos gregos, que estatuficavam os seus discóbolos e lutadores. Se o Mundo é esforço e pulso, porque não? Não repugna nada ver em torsos nus ou moldados em camisolas de malha os atletas e ases da pedibola, como também se diz no Brasil, erectos sobre supedâneos iguais àqueles em Garrett e Herculano, muito engorrados em seus capotes, parecem agoirar do regelo espiritual que se havia de apoderar do Mundo. Como dizia Shopenhauer, perante a eternidade que vai perpassando e não cessa de defluir, submergindo povos e civilizações, "es ist dasselbe"(alemão), «é a mesma coisa».


 

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(pp. 322 a 325)


(Continua)

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