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terça-feira, 20 de outubro de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 79) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. IV de XV} * [ vol. II ]

  XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio. 





«Baldões do poeta no Extremo Oriente. O que informam os "Lusíadas" deste particular. O naufrágio na foz do Mecom...»

    No Canto VII dos "Lusíadas", quase ao fim, certas estâncias podem considerar-se, com as Cartas, os melhores documentos autobiográficos de Luís de Camões. Como o seu entendimento se prevalece ainda dos "Comentários" do Pe. Manuel Correia, o bom cura de S. Sebastião da Mouraria, muito provavelmente confessor da família Camões e, se não seu confessor, vizinho, poderemos considerá-las fontes seguras em que não há linfa que não seja potável. Por acaso o licenciado apartou-se desta vez da sua sistemática reserva, fulgurando diante dos nossos olhos lampejos, embora breves lampejos, do que foi a existência real do poeta. Por via de regra, a luz que derramam as suas notícias, sempre muito pouco pessoais, é breve e contraditória à maneira dos pedaços de espelho que se encontram à toa nos desaterros e aradas. Desta feita a luz incide em foco, iluminando satisfatoriamente as estrofes em que o poeta solta uma ressentida queixa contra a ingratidão.

... ... ... 

... ... ...

Olhai que há tanto tempo que, cantando
O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
A Fortuna me traz peregrinando,
Novos trabalhos vendo e novos danos:
Agora o mar, agora experimentando
Os perigos Mavórcios inumanos,
Qual Cánace, que à morte se condena,
Nũa mão sempre a espada e noutra a pena;

Os Lusíadas,VII.79.1-8



      Poeta e soldado são as suas duas facetas, alternando-se, quer cante o Tejo e os portugueses, quer corra novos riscos de guerra. E rememora a odisseia que tem vivido:

Agora, com pobreza avorrecida,
Por hospícios alheios degradado;
Agora, da esperança já adquirida,
De novo mais que nunca derribado;
Agora às costas escapando a vida,
Que dum fio pendia tão delgado
Que não menos milagre foi salvar-se
Que pera o Rei Judaico acrecentar-se.

Os Lusíadas,VII.80.1-8



     Castigado da pobreza que se torna mofina, vendo-se na contingência de se socorrer dos hospícios em terra alheia, frustradas de novo as esperanças, se não perdeu a vida ao dar à costa, o que esteve por um triz, foi por milagre, comparável ao de Ezequias, que já desesperava, quando um mensageiro de Deus lhe trouxe, com a mão caridosa e liberal, saúde e acrescentamentos. O poeta refere-se indubitavelmente à soma de baldões que experimentou pelos mares da Sonda e da China [A] até vir naufragar no Mecom [B]  . O Pe. Manuel Correia foi o primeiro a entrever o sucesso: 'Bem se pode aplicar este dito (escapando a vida) a um naufrágio que passou vindo da China'.

     Se ao sentido que transcorre nesta oitava ajustarmos o que diz, sobretudo, a estância 128 do Canto X, o naufrágio de Camões adquire iniludivelmente a categoria de facto explícito, incontrastável: 


«Vês, passa por Camboja Mecom rio,
Que capitão das águas se interpreta;
Tantas recebe d' outro só no Estio,
Que alaga os campos largos e inquieta;
Tem as enchentes quais o Nilo frio;
A gente dele crê, como indiscreta,
Que pena e glória têm, despois de morte,
Os brutos animais de toda sorte.

Os Lusíadas,X.127.1-8
                
                  
«Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço os Cantos que molhados
Vêm do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapados,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa. 

Os Lusíadas,X.128.1-8
     
«Vês, corre a costa que Champá se chama,
Cuja mata é do pau cheiroso ornada;
Vês Cauchichina está, de escura fama,
E de Ainão vê a incógnita enseada;
Aqui o soberbo Império, que se afama
Com terras e riqueza não cuidada,
Da China corre, e ocupa o senhorio
Desde o Trópico ardente ao Cinto frio. 

Os Lusíadas,X.129.1-8


    
   O Pe. Manuel Correia, comentando estes versos, depõe com desacostumada largueza e certo peremptório. Segundo ele, torna-se patente que o poeta foi dar ao reino de Cambaia, vindo da China, onde esteve alguns dias tomando alento dos grandes trabalhos que experimentara, tão molestas sendo aquelas plagas e semeadas de baixios que a costa se torna inacessível e a cada passo se naufraga. Para cúmulo, ao desembarcar em Goa, foi preso à ordem do governador Francisco Barreto, e chamado a responder pela fazenda dos defuntos que trazia a seu cargo na qualidade de provedor-mor, como tal havendo sido enviado à China. Isso lhe aconteceu, metido a mal por uns amigos, de quem, pelo contrário, só esperava favor. É o sentimento destas provações e contraste que o leva a proclamar que a sua lira será mais afamada que ditosa. E, de facto, sendo tão grande poeta, foi na vida desventurado.

      Mas voltando ao Canto VII: o poeta continua a dar curso às suas lástimas, dirigindo-se mais uma vez às Tágides, guindadas na projecção poética a génios tutelares. Fá-lo em tom confitente, na grande mágoa de se ver menoscabado de seus méritos, quando parecia altura de colher galardão:

E ainda, Ninfas minhas, não bastava
Que tamanhas misérias me cercassem,
Senão que aqueles que eu cantando andava
Tal prémio de meus versos me tornassem:
A troco dos descansos que esperava,
Das capelas de louro que me honrassem,
Trabalhos nunca usados me inventaram,
Com que em tão duro estado me deitaram.

Os Lusíadas,VII.81.1-8


      Que misérias e trabalhos fossem, elucida o licenciado: 'Nota o nosso Camões aos portugueses de gente ingrata pois, cantando ele e celebrando seus feitos, em lugar de lhos agradecerem e servirem, os maiores amigos que tinha o mexericaram com o vizo-rei da Índia, como ele me disse contando os enfadamentos que na Índia tiveram, que foi causa de o prenderem e enfadarem'.

     Na estância seguinte encapela-se como onda todo um complexo de sentimentos, amargura, ironia, despeito, orgulho e até vaidade ferida. Que siso de senhores aqueles que assim lançam às feras quem os enalteceu e tornou célebres!

Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!

Os Lusíadas,VII.82.1-8


[A] - mares da Sonda e da China



1. Mar da China
O Mar da China divide-se habitualmente em duas grandes áreas:
  • Mar da China Meridional: É uma das rotas comerciais mais movimentadas e disputadas do mundo. Banha países como a China, Vietname, Filipinas, Malásia e Brunei. É rico em recursos pesqueiros e possui vastas reservas estimadas de petróleo e gás natural.
  • Mar da China Oriental: Fica situado entre a China Continental, o Japão e Taiwan. É também uma zona de grande importância geopolítica e económica, com forte atividade pesqueira e rotas de navegação vitais.

2. Mares da Sonda

Os Mares da Sonda referem-se ao conjunto de corpos de água que circundam as Ilhas da Sonda (que incluem grandes ilhas como Sumatra, Java, Bornéu e Celebes), na Indonésia.
• Principais mares: Incluem o Mar de Java, o Mar de Flores, o Mar de Banda e o Mar de Bali.
• Estreito de Malaca e de Sonda: São as principais portas de entrada que ligam o Oceano Índico ao Mar da China Meridional. O Estreito de Malaca, em particular, é o "gargalo" marítimo mais importante do comércio global, por onde passa a maior parte do petróleo que abastece a Ásia Oriental.


[B] - Rio Mecom  




 'A Viagem dos Argonautas' *** O RIO MEKONG – CORAÇÃO E ALMA DO SUESTE ASIÁTICO – por João Machado 

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(Continua)

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 79) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. IV de XV} * [ vol. II ]

    XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.   BIBLIOGRAFIA « Baldões do poeta no Extremo Oriente . O que informam os ...