quarta-feira, 28 de outubro de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 80) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. IV de XV} * [ vol. II ]

 XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio.  

(Continuação)

«...Provedor dos defuntos.
Na cidade do Santo Nome de Deus [ MACAU ]
A hiperbólica gruta...»


«Os 'Lusíadas', com efeito, não são apenas obras de joalheiro, mas de erudito.»


Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
O vosso Tejo cria valerosos,
Que assi sabem prezar, com tais favores,
A quem os faz, cantando, gloriosos!
Que exemplos a futuros escritores,
Pera espertar engenhos curiosos,
Pera porem as cousas em memória
Que merecerem ter eterna glória!

Os Lusíadas,VII.82.1-8


      A estrofe A quem os faz, cantando, gloriosos! planta simultaneamente um problema psicológico e de cronologia. Quando e como foi que isso sucedeu? Partindo do princípio que estas estâncias foram intervertidas no poema à última hora, devemos supor que a glorificação se tenha dado no foro íntimo de Camões ou que da epopeia, ainda manuscrita, corressem cópias incompletas? No primeiro caso teríamos um fenómeno singular de falsa ressonância, mercê duma hipertrofia bem compreensível em naturezas fora da escala comum, exacerbadas em seu "patos" (pathos) [PATHOS] . Mas é de admitir que a epopeia andasse manuscrita de mão em mão, como temos a prova pelo 'Cancioneiro' de Luís Franco e o códice adquirido por Faria e Sousa no antiquário de Madrid. De contrário, ver-nos-íamos forçados a emitir a hipótese de que além dos 'Lusíadas', em que desfila como num fresco amplíssimo tudo o que a Casa Lusitana produziu de insigne, inclusive os engenhos contemporâneos que o Tejo cria, noutras obras, poemetos, éclogas, canções, que se perderam ou correm debaixo de outro nome, Luís de Camões os houvera já cantado.

      Este passo dos 'Lusíadas', esmiuçado em seu albúmen, equivale a uma pequena crónica da vida do poeta no Extremo Oriente. Diz tudo. Além de nos esclarecer sobre o rosário de desgraças que o afligiram, fornece um traço sobre o seu carácter e coração, quando se compromete com os génios da poesia a jamais malbaratar o estro com inimigos do bem comum, da lei divina e humana, com os ambiciosos e sobretudo com os que exploram o povo e sugam o suor à servil gente.



      Ao fim do triénio de milícia, Luís de Camões achava-se quite e livre para com o Estado, gozando a faculdade de dispor de si, inclusive de assinar novo contrato. De ordinário era esta a solução adoptada, tratando-se na maioria de desprotegidos, inaptos para a chatinagem[1], e sem valimento que lhes merecesse receber uma conezia[2] qualquer, em última análise um simples comando de fusta. Que destino poderia ser dado a Luís de Camões sob o governo de Francisco Barreto, homem dinâmico, empreendedor, com vontade de acertar, permeável, sim, mas capaz de reconhecer e dar o justo apreço às qualidades do seu semelhante?

      "...na China foi provedor-mor dos defuntos" -- refere Pedro de Mariz. "Em Macau" -- recresce Manuel Severim de Faria -- "exerceu o ofício de provedor dos defuntos, e com a comodidade do seu lugar devia de compor aqui alguma boa parte dos seus "Lusíadas", pois de lá os trouxe consigo". Faria e Sousa segue as peugadas destes primeiros biógrafos.

      Os primeiros biógrafos são pois unânimes quanto à função exercida. Enquanto porém Mariz e, no seu rasto, Juromenha consideram tal cargo como uma benesse fortuita que houvesse recebido ao fim do serviço militar, Severim computa-a uma situação de emergência -- segundo Faria e Sousa inexplicável de todo, se não inverosímil -- no seu itinerário de proscrito, por haver incorrido no desagrado do Governador da Índia, para as partes da China. É Correia digno de fé? Temo-lo por isso. Se é certo que peca por omissão em mais de um sucesso, de que teve inegavelmente conhecimento, como sejam a rixa do dia de "Corpus Christi" e a razão determinante da partida de Camões para o Oriente, fá-lo em obediência à sua norma: guardar uma atitude de circunspecção em tudo o que pudesse colidir com o bom nome do épico ou se lhe afigurasse matéria defesa à sua categoria de reputado erudito e examinador sinodal do arcebispado de Lisboa. Versar tema tão desprimoroso como o das indelicadezas do poeta ou das mesquinharias do poder, quando o seu espírito pairava pelas altas regiões da mitologia e da história, abrenúncio! Para realçar o poeta, começa logo, à maneira de Jacinto Freire de Andrade com o Rumecão, por guindá-lo, dando-lhe origem fidalga, embora nos termos consabidos da vaga generalidade: "nascido e criado na cidade de Lisboa, de pais nobres e conhecidos..."



      Que Luís de Camões teve as mais dramáticas andanças pelos mares do Extremo Oriente, é matéria admitida. Além das passagens atrás transcritas, coa-se doutros versos seus, os quais, posto que imersos naquele hermetismo que, segundo a lei petrarquiana, ensombra a altitude poética, não deixam de oferecer margem a interpretações e consequentes dúvidas. Em despeito da unanimidade dos biógrafos quanto ao lugar de provedor dos defuntos, quem não parece conforme é a cronologia. Só a partir de 1557 -- não se sabe a que altura -- é que os portugueses obtiveram a concessão de Macau. O testemunho de Fernão Mendes Pinto é concludente e no que respeita à data incontrovertível:

      "Ao outro dia de manhã nos partimos desta ilha de Sanchão [ Ilha de Sanchão ] , e ao sol-posto chegámos a outra ilha, que está mais adiante seis léguas para o Norte, chamada Lampacau [ Ilha de Lampacau ] , onde naquele tempo os portugueses faziam a sua veniaga com os chins, e aí se fez sempre até o ano de 1557, que os Mandarins de Cantão [CANTÃO (cidade)] a requerimento dos mercadores da terra nos deram este porto de  Macau   [Hou-Keng-Macau] onde agora se faz, no qual, sendo antes ilha deserta, fizeram os nossos uma nobre povoação de casas de três e quatro mil cruzados, e com igreja matriz em que há vigário e beneficiados, e tem capitão e ouvidor e oficiais de justiça, e tão confiados e seguros estão nela com cuidarem que é nossa..."



      De positivo, provado pelos documentos, sabe-se que existiu em Macau o mirífico cargo de provedor de defuntos, com chancela bem definida, apenas a partir de 1616. Antes, é hipotético que existisse, compreendido porventura na categoria dos «oficiais de justiça» mencionados por Fernão Mendes Pinto.

      Se Luís de Camões não teve assistência em Macau, na qualidade de provedor, podia no entanto exercer aí essas funções a título transitório, e bem assim em Lampacau, pela mesma razão por que noutros tempos tinham sido exercidas em Liampó  [ Liampó ] e Chincheu [ Chincheu ], localidades devastadas.

      Esse cargo em relação «às viagens da China», é de crer que fosse desempenhado cumulativamente com o de feitor, alcaide-mor, vedor das obras e almoxarife dos armazéns, jurisdições estas, supomos, móveis por sua natureza. Só a partir de 1586 passou tal ministério a ser provido em ouvidores letrados com residência fixa em fortalezas e cidades. Donde se conclui que até aí deviam ser volantes. Havia com efeito provedores pequenos ou simplesmente provedores das armadas com o ordenado de 100 000 réis anuais. Estes não eram mais que delegados do provedor-mor.





      Até 1553 os capitães das viagens à China «sempre levavam a provedoria dos defuntos». É facto alegado por Leonel de Sousa, capitão-mor da nau que singrava nesta carreira. Portanto somos levados a admitir que Luís de Camões haja exercido  este cargo, sem fixidez própria, com estada, segundo a emergência, em tal e tal localidade. Deste modo, acompanhando a escala das naus, com suas paragens e demoras, à espera aqui de veniaga, além de monção, estanciava naquelas das povoações chinas frequentadas por portugueses, inclusive a nascente Macau, onde deixou, com seus gostos excêntricos, o nome ligados à gruta que se vê a norte da cidade, no arrabalde de Patane. Ali iria espairecer, conversar com as vozes interiores, dar vazão à misantropia. Que fosse para lá compor os 'Lusíadas', à maneira de S. Jerónimo, que a iconografia representa numa furna do Deserto a traduzir as 'Escrituras', não cabe no juízo dum homem com a noção das três dimensões espaciais. Se a gruta em questão mede, segundo o testemunho dos visitantes, 1,35 m X 3,20 m, serviria para um gorila não para um civilizado. Além da incomodidade que revestiria permanecer lá mais tempo do que permite o desenfado, há absurdo em querer elevá-la à categoria de cela, casulo que seja, dum trabalhador intelectual das exigências de Luís de Camões. Os 'Lusíadas', com efeito, não são apenas obras de joalheiro, mas de erudito. Para compor aquelas estâncias, em que se encadeia, por via de regra com engenhosa arte, a mitologia com a ciência, toda a gama das ciências, era forçoso compulsar os textos. Supondo que o espaço do recinto era suficiente para este exercício, Camões teria que transportar para lá todos os dias a sua cabazada de livros. A menos que a gruta tivesse porta e a porta chaves, não havia outro remédio senão levar e trazer as obras, para o caso ter um paquete às ordens. Não era inexequível, evidentemente, mas não deixava de ser complicado. Em suma, para não admitir semelhante hipótese, haveria que formular outras de segundo e de terceiro plano. De resto, porque havia Luís de Camões de encerrar-se numa gruta quando um quarto de aluguer, com vistas para o mar, mesmo que fosse numa quitanda pobre, lhe oferecia mais conforto e possibilidade de dar velas à inspiração?

(Continua)

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chatinagem[1]
“chatinagem”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/chatinagem
conezia[2]
“conezia”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/conezia

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