quinta-feira, 5 de novembro de 2026

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 81) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. IV de XV} * [ vol. II ]

XXI - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro . 1950. Ensaio. 

(Continuação)

«..."Sôbolos rios que vão por Babilónia"... Prisão por peculato. Severidade fora da regra...»






     Manuel Correia, que se arvora, como vimos atrás, confidente de Luís de Camões e nessa qualidade nos murmura ao ouvido breves e raros segredos dos muitos que sabe, dá-o como malquistado por amigos do Diabo com o governador, e daí o cair em desgraça. Cerca de um ano depois de partir da Índia voltava à Índia, o que nos faz crer que a nau da carreira da China foi a sua repartição de provedor.

    Pedro de Mariz dá-nos outros informes: "Mas como era grande gastador, muito liberal e magnífico, não lhe duravam os bens temporais mais que enquanto ele não via ocasião de os despender a seu bel-prazer. Como lhe aconteceu quando foi provedor-mor dos defuntos nas partes da China de que o vizo-rei o proveu para ver se o podia levantar da pobreza em que sempre estava envolto. Mas nem o enchente de bens que lá granjeou o pôde livrar que em terra não gastasse o seu liberalmente, e no mar perdesse o das partes em um naufrágio que padeceu terrível, de que ele faz menção na Oitava 128 do Canto 10. E não lhe valeu a excelência da sua poesia para deixar de ser preso na Índia pelo governador Francisco Barreto e de ser capitulado a este Reino".

    Segundo este biógrafo, Camões de regresso a Goa, obtemperando ao chamamento do governador, pelo caminho desbaratara o seu com prodigalidades de homem magnífico e perdera o alheio no mar. Sendo assim, haveria razão para que o demitissem e quisessem enviar ao Reino, o mesmo é que sob prisão?

    A nau que o conduzia naufragara na costa do Camboja, sendo lançado à praia na foz mesmo do Mecom, plácido e brando lhe chama o poeta. Figura-se ao náufrago em mais duma estampa, nadando com um braço, com o outro mantendo ao alto o manuscrito estremecido. Foi o único e de certo o mais precioso tesouro que lhe não engoliu o mar. Estava como Job depois de provado pelo Senhor em todos os seus bens. Sozinho no mundo, sem eira nem beira, processado por ventura, as extraordinárias redondilhas (Sôbolos rios que vão) que então compôs de paráfrase ao salmo "Super flumina" traduzem, imbuídas da mais atrida[1] e grandiosa inspiração, o seu inconsolável estado de alma:

Sôbolos rios que vão («Sobre os Rios»)

Por Babilónia, me achei,
Onde sentado chorei
As lembranças de Sião,
E quanto nela passei.

 Quintilha 1 .Versos (1-4,5)

... ... ... ... ...

Frauta minha que, tangendo,
Os montes fazíeis vir
Pra onde estáveis correndo,
E as águas, que iam descendo,
Tornavam logo a subir.

Quintilha 13 .Versos (61-65)

... ... ... ... ...

Já não fareis docemente
Em rosas tornar abrolhos
Na ribeira florescente;
Nem poreis freio à corrente,
E mais se for dos meus olhos.

Quintilha 15 .Versos (71-75)

Não movereis a espessura,
Nem podereis já trazer
Atrás vós a fonte pura,
Pois não pudestes mover
Desconcertos da ventura.

Quintilha 16 .Versos (76-80)

Fonte:
“ Camões Digital —  https://camoesdigital.pt ”


Nótula: O poema em REDONDILHAS MAIORES é constituído por 365 (5 x 73) versos repartidos por 73 estrofes (Quintilhas).


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    Que Luís de Camões fosse preso ao chegar a Goa ou que já viesse capitulado não é ponto de fé nem merece controvérsia. Agora pergunta-se: tinha que responder por malversações cometidas no exercício do seu cargo? Se assim é, havia que ter em conta que o naufrágio lhe levara o que amealhara, o tal seu, e que "ele gastava às mãos cheias, e o dos outros que era do seu dever arrecadar".

    Certos versos, A oprimir-te virão em um só dia / Dois lobos com a sua construção sibilina, para penetrar a qual é preciso forjar chaves especiais, como estes: 

Cantando estava um dia bem seguro,
Quando passava Sílvio, e me dezia
(Sílvio, pastor antigo, que sabia
Por o canto das aves o futuro):

-Liso, quando quiser o Fado escuro,
A oprimir-te virão em um só dia
Dous lobos
;
logo a voz e a melodia
Te fugirão, e o som suave e puro.

Bem foi assi; porque um me degolou
Quanto gado vacum pastava e tinha,
De que grandes soldadas esperava;

E por mais dano o outro me matou
A cordeira gentil, que eu tanto amava,
Perpétua saudade da alma minha!

Fonte:

“ Camões Digital —  https://camoesdigital.pt ”
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          A oprimir-te virão em um só dia / Dois lobos...

querem que signifiquem os dois golpes violentos que então sofreu: o naufrágio e a morte daquela a quem chama "sua amada yedra"  (ou hiedra, que significa "hera" em espanhol). Foi Constantino de Bragança que, ao chegar do Treino investido na dignidade de vizo-rei, o mandou soltar, preso às ordens de Francisco Barreto, ou o mandou deter para ser inquirido e processado?



    Faria e Sousa que, embora fanático na idolatria pelo poeta, jamais perdeu a consciência de julgador, encara a hipótese da sua culpabilidade como plausível: "pediendo-se-le cuenta de la hazienda de los difuntos, aunque el llame injusto a este mandato, podrá ser que hubiesse razon para ello..."

    É do mesmo parecer Camilo Castelo Branco, que para alinhar no coro dos Catões teria que perder aquele admirável sentido das realidades humanas, que é a melhor bússola da sua arte.

    Seria fora de justiça e de lógica supor que Luís de Camões, pelo facto de ser dotado de génio, fosse de barro muito diferente dos portugueses do seu tempo. Dentro duma época ou duma geração ninguém deixa de respirar o gás deletério da moral pervertida. Tudo na Índia se corrompia, desde o vizo-rei ao soldado. Di-lo Diogo do Couto. Dizem-no quantos trataram de corpos e almas; de soldados ou de marchantes; de Deus ou de rei, tocados pelas brisas do Mandovi Rio Mandovi. Não admira que Camões dilapidasse o que não lhe pertencia, se é certo o que Mariz nos conta do seu génio dissipador... O que seria para admirar é que sucedesse diferentemente. Todavia este encoime tem de ser cercado de todas as reservas, a começar logo pela sua nomeação para o peregrino cargo. Bem certo que Correia admite que o intrigaram com o governador; Juromenha formula que alguém de má fé ou movido por desígnios inconfessáveis viesse com qualquer torpe malsinação[2]. Tudo presunções. Do que não resta dúvida é que Luís de Camões volveu ao estado de penúria que lhe era constitucional. Clama-o em mais de uma composição poética. A sua chegada a Goa corresponde ao fim do segundo triénio: Venceu o primeiro como simples soldado da milícia; o segundo de provedor nas naves da carreira da China. Seis anos andados, ei-lo em Goa deprimido do moral, ocioso ou relegado à pequena ocupação de escrivão público, naturalmente utilizada, como viático 'in extremis', nos dias sem pão e nos meses ocos do túrbido e pegajoso Inverno asiático.



   

    Todavia capitulado ou não, pouco tempo, ao que transparece, esteve Luís de Camões no Tronco à conta das suas irregularidades de provedor dos defuntos. Que represálias era legítimo tirar de quem tudo perdera no naufrágio? Que responsabilidade era político pedir a quem não tinha de seu mais que o coiro e a camisa? Nunca o dito barbaresco, que faz lei em certas comarcas do País, aprendido com turdetanos, mouros, piratas, franceses, duns com os outros, tudo ascensional na escala da pilhagem, revestiu envergadura de sentença salomónica como na Índia em fins de Quinhentos: 'o agarrado é do agarrante; quem agarrou, agarrou; quem não agarrou, agarrara'.

(Continua)

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 atrida[1]
“atrido”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa.
 Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/atrido

malsinação[2]

“malsinação”, in Dicionário da Língua Portuguesa. Academia das Ciências de Lisboa. 
Disponível em https://dicionario.acad-ciencias.pt/pesquisa/malsinação 

 

ANTOLOGIA _ A1 ( XXI - 81) - LUÍS DE CAMÕES - Fabuloso * Verdadeiro. 1950. Ensaio. «DE GOA À POSTERIDADE» {c. IV de XV} * [ vol. II ]

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